Pequenas liberdades

3401777776_5ae6a590df_b

Primeiro é a Capricho, depois a Boa Forma, a NOVA, a Cláudia, nossos pais e os comerciais da televisão e pronto: lá pelos 20 anos a gente tem a cabeça cheia de pequenas obrigações a cumprir. Sentar com as pernas fechadas, fazer as unhas, manter o cabelo arrumado e perder 3 quilos. Conseguir um emprego bom, com possibilidade de carreira, comprar um carro, financiar um apartamento, casar. Antes disso tudo, terminar um TCC. Se possível, frequentar a igreja. E sempre perder 3 quilos.

Hoje vi uma manchete: a dieta militar que te faz secar 3 quilos em poucos dias, e uma foto horrível de uma fatia de pão integral coberta de ovo mexido. Ao lado, fatias de banana e isso, imagino eu, era o café da manhã da dieta militar. Pela primeira vez em pelo menos 15 anos eu pensei “deus me livre”, sem nem querer dar uma olhadinha. Foram aí uns 15 anos perdendo tempo nas matérias sobre dietas porque vai que me interessa, né? Vai que essa vale a pena.

Eu passei 15 anos precisando perder 3 quilos. Dos meus 47 quilos do começo da adolescência aos 53 da vida adulta, eu sempre precisava perder 3 quilos. Até que eu encontrei Jesus.

Mentira. Eu encontrei a paz de espírito que existe em aceitar quem a gente é e, de um modo mais profundo e louco, sacar que independente do que a gente faça da vida uma hora vamos morrer. Resta nos agarrararmos a toda e qualquer possibilidade de felicidade, mesmo que seja efêmera, pequena e se chame pão de queijo. Engordar faz parte do processo de se tornar um adulto – uma das verdades quase que inescapáveis da vida (quase, porque tem gente que escapa); e entre o Whey Protein e as coxas se encontrando no vai-e-vem eu descobri que tenho queda pela segunda opção.

Não precisar perder 3 quilos é uma pequena liberdade. Você pode, claro, desejar perder 3 quilos ou mais, quem sou eu pra falar o contrário. Inclusive, acho lindo as moças das pernas finas que correm de shortinho na avenida segurando a garrafinha de água. Em outros tempos eu invejaria. Pode, mas não precisa. Ninguém precisa emagrecer. Nem estar de unhas feitas, ou cabelo arrumado. Nem ter uma carreira incrível. Nem ter um carro. Houve um tempo em que ninguém tinha carro, aliás. Nem bicicleta a gente precisa ter, nem também comer pão integral. Usar salto também, você não precisa. Niguém precisa ser alta e elegante. Nem estar atualizada sobre política, cultura e economia. Muito menos ter opinião sobre tudo isso. Nem ver Game of Thrones ou Stranger Things (mas que é bom é, e tem cada referência).

Não é chazinho de hortelã

1-hourglass-on-newspaper

Esta semana apareceram dois relatos de moças falando sobre pílula do dia seguinte e anticoncepcional. Eles estão aqui, onde a Gilda fala sobre gravidez ectópica  e aqui no relato da Juliana, que teve trombose cerebral.

Elas descobriram – da pior forma possível – algo que eu também demorei para entender: coisas que são vendidas como soluções simples podem, na verdade, trazer graves consequências. Falta informação.

A minha história começa em 2002. Eu tinha 16 anos, muita espinha na cara, 49 quilos e cólicas avassaladoras. Terríveis mesmo, de me deixar de cama sem conseguir ir pra escola. A menstruação era desregulada, e tinha também a TPM fortíssima, com choro, tristeza, mau-humor e desespero. Enfim, um caos.

Então pedi pra minha mãe e ela me levou no ginecologista. Era um senhor muito velho, que usava peruca preta só na parte de cima da careca e os cabelos do lado, branquinhos, ficavam ali aparecendo, todo aquele contraste desconfortável. Isso é tudo que eu lembro da minha primeira consulta ginecológica: a peruca do médico. Ele me fez umas perguntas e receitou o anticoncepcional. Diane 35.

Fiquei felizona porque UHUU vou tomar anticoncepcional. Sou adulta, mulher independente. Ok.

Em poucos dias as espinhas tinham sumido. Maravilha. Mas eu pulei dos 49 pros 53 quilos assim, rapidinho. As pernas ficaram grossas. Eu estava inchada. Conversei com amigas e, por contra própria, troquei de pílula. Fui pro Diclin. Fiz uns exercícios e o peso voltou ao normal.

Daí em diante foram longos anos, eu e a pílula, a pílula e eu. O que eu não percebia, e que agora olhando para trás consigo ver, é que o anticoncepcional muda a gente. É o seguinte: os hormônios fazem parte de quem nós somos. Se tem um medicamento controlando nossos hormônios, isso interfere na nossa personalidade. E eu fiquei desgraçada da cabeça.

Quem viu de perto vai falar menina-num-tem-quem-diga, mas é aquele ditado né, todo mundo vê as pingas que a gente toma mas ninguém vê as lágrimas que a gente entorna. Nos anos com a píilula eu fui uma pessoa muito ansiosa. Tive crises terríveis de ansiedade, tomei remédinho manipulado, melhorava, voltava. E eu achando que isso era parte de mim. Haha.

Em dezembro de 2014 decidi pela primeira vez na vida parar com a pílula. Foram dias de reflexão, porque era meio como falar tchau pra uma amiga que tava ali comigo fazia já 12 anos. 12 anos sem saber como meu corpo realmente funcionava! Então eu parei.

Os primeiros meses foram um pouco conturbados, a menstruação não vinha mais naquele dia exato que eu sabia que iria vir, e apareceu uma cólica levinha. Com o tempo, saquei que meu ciclo é de 35 dias, e achei incrível ver meu corpo funcionar assim sem ajuda de medicamento. UAU.

Apareceram umas espinhas, nada grave, e aliás é tudo mentira que espinha é coisa de adolescente pois cá estou com duas na cara, mas tá tudo bem também. E tchatchantchantchaaaaan: a ansiedade sumiu!

As vezes ainda rolam um surtos, mas é coisa muito pequena perto do terror que eu vivia anos atrás. E agora eu consigo respirar fundo e controlar. Tem outras mudanças no meu corpo, minha disposição, meu humor, coisas que me fazem ter a certeza de que eu não volto a tomar a pílula nunca mais. NUNCA MAIS.

O lance é: não estou falando para todo mundo parar de tomar a pílula. Sei que tem gente que faz tratamentos com ela, tem gente que se dá bem, tem gente que precisa. Mas o negócio é o seguinte: ao contrário do que a maioria dos médicos faz parecer, ela não é chazinho de hortelã. É hormônio. E isso interfere muito na nossa vida.

Vendem o anticoncepcional como única solução para muita coisa. E não é. Eu poderia ter melhorado naturalmente se tivesse pegado firma na acnase, mudado a alimentação (que aos 16 era basicamente chocolate e hamburguer) e feito uns exercícios regularmente? Provavelmente. Mas o médico nem cogitou isso ae. Foi toma aqui esse remedinho milagroso, minha filha. É ou não é assim? Lembro de uma vez em que comentei com outro ginecologista sobre o desejo de parar com a pílula e ele falou “mas ela não tá funcionando bem?”, e no fim me convenceu a continuar.

Existem outros métodos contraceptivos. Tem a famosa camisinha, sabe? Tem o DIU. Tem a billings, que é tipo uma tabelinha mas baseada nos sinais do nosso corpo. E eu juro pra vocês: sem a pílula, esse sinais funcionam claramente. É uma coisa maravilhosa. Conversem com o médico e questionem. Muito. Sobre tudo.

Com relação à pílula do dia seguinte, a Gilda fala tudo lá no post dela. Recomendo a leitura. Uma vez meu pai, durante aquela conversinha que os pais têm com os filhos adolescentes, me falou assim, ó: anticoncepcional te previne de gravidez, mas você pode pegar uma doença. Camisinha é amor próprio.

Considerem.

Chegou

pi

Ontem notei partículas de poeira sobre o tapete. Peguei a vassoura, varri a casa toda, acendi um incenso. Terminei um livro que vinha lendo fazia meses. Sempre enfiava outras leituras no meio e esse acabava ficando pra depois. Foi o fim de um ciclo.

O livro é As aventuras de Pi. Comprei no aeroporto de Singapura, porque o único livro que tinha comigo estava chegando ao fim. Minutos depois, esqueci o livro que vinha lendo – To kill a mockingbird – no balcão de uma loja. Não deu tempo de voltar para buscar – era o livro ou o voo, e entre partir sem ele ou ficar para sempre num aeroporto asiático com dois livros na mão, escolhi partir. Deixei de presente para alguém que vai fazer o que não fiz: conhecer o final da história.

Pi viajou comigo pelos continentes, como ele mesmo fez com seu barquinho. Agora, descansa na minha estante, e o tigre Richard Parker vai seguir ao meu lado para sempre. Comecei outro livro. Tudo ontem.

Faz meses que venho sonhando com pessoas desconhecidas. Elas estão sempre muito próximas de mim e conversamos. Quando acordo, não lembro do assunto, mas fico com o rosto delas na memória. Teve um homem que levantava meus braços. Acordei assustada com os braços colados ao colchão.

Noite passada um senhor magro, de olheiras profundas, falava muito perto do meu rosto. Ele estava irritado, e sussurrava com voz rouca. Eu não respondi, então ele me deu um tapa na cara: acorda, menina. Abri os olhos, meu namorado falou: é agosto.

*Na foto, um trecho de As aventuras de Pi: “Não contei os dias, semanas ou meses. Tempo é uma ilusão que só nos faz ansiar. Eu sobrevivi porque esqueci totalmente a noção de tempo”.

Empatia não respeita gramática

saramago

“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”, disse Saramago, em um texto onde fala sobre seu avô. Eu me inspiro nele quando digo que uma das mulheres mais inteligentes que conheço é minha avó, que sabe escrever muito pouco. Ela fala com muitos erros, mas tem uma cabeça incrível.

Ser letrado é fácil para quem nasceu com condições mínimas de vida. Basta ir à escola, ler a cartilha, juntar as letras. Ter estudo é simples: basta decorar fórmulas, fazer os exercícios propostos nos livros didáticos, ouvir o professor e passar de ano (onde a progressão continuada ainda não chegou). Decorar, no entanto, é diferente de saber pensar. E embora ir à escola seja fácil, ainda não é acessível para todos os brasileiros.

Existem atualmente no Brasil 13 milhões de analfabetos, o que dá cerca de 8% da população, de acordo com o IBGE. Os motivos que levam essas pessoas a não frequentarem as salas de aula vão além da boa vontade. Minha avó, por exemplo, parou de estudar porque precisava trabalhar.

Outra pesquisa revelou que desses 92% de letrados, são poucos, muito poucos, os que sabem interpretar textos: cerca de 8% da população brasileira. Ou seja: ser alfabetizado, no Brasil, não é sinônimo de ter capacidade de compreensão.

Tem um estudo – esse não lembro onde vi –  que diz que ler livros de ficção torna as pessoas mais empáticas. Quando nos colocamos no lugar do personagem, trabalhamos nossa capacidade de empatia. Mas somos poucos leitores, apesar de sermos muitos que sabemos ler. A empatia vem do convívio com o diferente e, de acordo com a pesquisa, da leitura. Nos dois, ficamos devendo.

O sistema educacional brasileiro nos força a conviver entre iguais. O ensino público é falho e o particular custa caro. Com essa fórmula, fomos aos poucos criando um muro que coloca de um lado gente pobre com ensino de baixa qualidade; e de outro gente rica ou remediada com acesso ao ensino melhor. Mas eu estou falando de ensino, não de educação. Estou falando de decodificar letras, não de compreender o mundo; e de resolver fórmulas, não de entender o outro.

Como as pesquisas nos mostram, saber escrever corretamente não é sinônimo de capacidade de compreensão. No entanto, parece que a valorização dos letrados é muito maior do que a valorização do pensamento.

Ser médico no Brasil ainda é para poucos. A mensalidade das faculdades particulares de medicina custa dinheiro suficiente para alimentar uma família. Para entrar nas públicas, só com ensino pesado: escola particular e cursinho, que também custam caro. São poucos os que fazem outro caminho. Quando um jovem que veio da escola pública é aprovado em medicina, ele vira notícia. Porque é exceção.

Nesse cenário, é provável que haja nas faculdades de medicina jovens que vivem uma realidade distante da que se passa nos cantos mais pobres do Brasil. Como o jovem médico que por inocência, arrogância ou falta de empatia (os três, talvez) decidiu debochar publicamente de um paciente. Num papel, ele escreveu um erro cometido pelo paciente – “peleumonia”- fotografou e postou no Facebook.

Nos comentários da matéria sobre o caso, fica claro o quanto ainda valorizamos o diploma, acima do respeito. Alguém dizia “O mundo é assim, o cara é medico e voce analfabeto, asseite isso e vai estudar! chega de mimimi e reclamar que riram de você!”. Asseite.

Elogiam o médico, humilham o paciente. Os comentaristas, eles também com o português precário, entendem que quem tem diploma é sábio. Quem não tem, que se lasque.

O enteado do paciente resumiu o caso: “diploma não forma caráter”. Ser alfabetizado é fácil para quem nasceu bem. Saber pensar é difícil. Exige vida e empatia suficientes para sabermos, por exemplo, que uma piada de mau gosto pode ir muito longe. Que pode, inclusive, magoar alguém.

Inteligência mesmo, mais do que saber juntar as letrinhas e se gabar de conjugar corretamente o verbo “ser”, é compreender o outro. Ou como diz minha avó, entender que “a gente num é mió que ninguém”.

 

*Na foto, Saramago observando todos nós.

As histórias de Asphalte

fica-comigo

Asphalte (Fique Comigo), do francês Samuel Benchetrit, poderia ser um filme sobre um astronauta tentando voltar para casa depois de uma missão fracassada. Poderíamos ver desafios, sofrimento, comoção nacional e vitória.

Felizmente, é um filme que se prende aos detalhes do cotidiano; e o aparecimento de um astronauta estadunidense no topo de um prédio na periferia de Paris não é mais importante do que a paixão de um senhor doente por uma enfermeira do turno da noite.

São modos de ver o mundo. Existe a filosofia que nos conduz a acreditar que podemos todos ser herois, basta esforço e dedicação. A contrapartida é a sensação de glória, o prestígio e a certeza de ter colaborado para um mundo melhor.

Do outro lado, há a ideia de que somos carne, osso, vontades e angústias. O que nos resta neste tempo e espaço que nos coube na fatia de universo é nos ocupar com aquilo que nos cerca. Como vantagem, existe a tranquilidade de saber que estivemos sempre fazendo nossa parte. Esta segunda opção me encanta.

Gosto de ouvir histórias de grandes feitos como quem ouve sobre os trabalhos de Hércules: atos heróicos e distantes. Mas são as histórias cotidianas que despertam meu afeto.

Quando o astronauta John Mackenzie (Michael Pitt), por uma falha técnica, cai sobre um prédio de poucos andares na periferia de Paris, há algumas possibilidades. Podemos falar da Nasa, suas realizações e seus erros. Podemos falar do espaço e dos homens que se aventuram nele.  Podemos falar também de uma senhora marroquina que, ao se deparar com um astronauta batendo a sua porta, pergunta se ele é uma testeminha de Jeová e o convida para entrar. Mrs. Hamida (Tassadit Mandi) vive sozinha no apartamento, e conserva intacto o quarto do filho que está na cadeia. É lá que ela abriga o astronauta, com quem mal consegue se comunicar. Ele fala inglês, ela fala francês, e uma das poucas palavras que ambos entendem é cuscus, prato que ela prepara alegremente para o visitante.

Em outro apartamento, Sternkowitz (Gustave Kervern), sentado em uma cadeira de rodas, fotografa o céu para mostrar mais tarde as imagens para a enfermeira (Valeria Bruni Tedeschi) por quem está apaixonado.

Um astronauta que caiu do espaço é só mais uma pessoa naquele prédio velho na periferia de Paris, onde uma atriz desempregada desempacota a mudança diante dos olhos de um adolescente curioso.  No lugar dos grandes feitos, a poesia cotidiana e a vida de quem merece ser lembrado mais do que os herois: as pessoas.

Para a Carol de 15 anos

fotos

Relaxa. Vai dar tudo certo. Eu sei que não parece, olhando daqui, mas vai dar. Não certo desse jeito que agora você acredita que seja o certo. Vai dar mais certo ainda. Por enquanto, tudo o que você pode fazer é não se preocupar com nada. Nada mesmo.

Olha só, você vai chegar aos 30 sem ter se casado, sem filhos e sem casa própria. Também não vai ser chefe de ninguém, não vai estar rica, nem vai ter um carro. Mas vai ter viajado até o outro lado do mundo. Sozinha!

É que vai acontecer isto: a vida vai mudar suas prioridades e num certo momento você vai encontrar seu próprio modo de ser feliz, vai se agarrar a ele e sentir uma liberdade incrível. Mas relaxa, tudo tem seu tempo. Por enquanto, só te peço isso: relaxa. A vida vai, em certo ponto, te trazer de volta para o que você ama. Lembra dos livros que você lia uns anos atrás do Pateta viajando o mundo? Então. Foi meio que isso que te aconteceu, inclusive a parte do Pateta porque olha só: você vai continuar desajeitada. Isso é você, não tente mudar.  Acostume-se.

Desista das dietas. Desista também do salto alto. Não tem serventia, e vai atrapalhar em algumas festinhas que você queria ter curtido muito mais. Aproveite as festinhas, todas elas. Insista no teatro, na dança, nos desenhos e nas coisas que te fazem feliz. Não leve a sério quando te disserem que o que você ama é perda de tempo. A única perda de tempo é o arrependimento de não ter se entregado àquilo que faz seu mundo ter sentido.

Leia mais. Leia muito, sobre tudo. Não perca essa curiosidade por Cecília Meireles, contos de terror, flores, corpo humano, teorias da conspiração e vida submarina. Não perca tanto tempo com internet. Não gaste o dinheiro do seu primeiro salário no salão de beleza: guarde para viajar. Comece a escrever e não pare. Brigue menos com a sua mãe, aproveite o tempo com seus irmãos, curta muito o quintal dessa casa, brinque todo dia com a Rami, a cachorra mais legal que você já teve.

Relaxe. Eu não quero dar spoiler (desculpa, daqui uns anos você aprende o significado dessa palavra), mas te garanto: vai dar tudo certo. Você vai ter orgulho de ser quem você se tornou. Juro.

E o RG que você tá procurando tá no fundo da primeira gaveta da cômoda😉

Sempre cabe saudade

13706199_10210015543284330_1377460019_n

Vez em quando aparece alguém querendo bater um papo sobre morar fora do Brasil. São normalmente conhecidos que, assim como eu, têm vontade de viver um tempo em outro país. Perguntam sobre clima, diferenças culturais, comida, dificuldades e alegrias. Minhas respostas são quase sempre subjetivas: tudo depende da experiência pessoal de cada um. O frio que quase me deixou em depressão pode ser a alegria de alguém, e lugares que eu amei podem te deixar entediado.

A única afirmação certeira que posso fazer é: quando for morar fora, você precisa estar ciente de que vai conviver com a saudade pelo resto da sua vida.

Não falo da saudade que você sentirá do transporte público que funciona bem ou do inverno rigoroso quando, depois de passar uns meses longe de casa, tiver voltado para o nosso país tropical.

Não. Existe um nó que vai amarrar sua garganta muito antes.

Talvez não no aeroporto, quando você se despedir dos seus pais; nem na primeira semana longe de casa, quando tudo for novidade. Mas um dia, quando você acordar de ressaca numa cama do outro lado do mundo, vai lembrar da padaria perto da sua casa onde comprava coca-cola gelada e coxinha quente. Vai pensar nos seus chinelos jogados em qualquer canto a milhares de quilômetros de distância e sentir uma falta imensa dessa coisa leve que é sair na rua sem ter que calçar botas de couro. E vai sentir uma saudade louca do cheiro da comida da sua mãe invandindo seu quarto no domingo.

Durante toda sua existência em outro canto do mundo, vão te fazer sorrir as lembranças dos amigos que estão longe, essa gente que dividiu anos de vida com você, e que você sabe que se estivessem ali te fariam um tanto mais feliz, por mais que você esteja vivendo os momentos mais inesquecíveis da sua vida. Você vai beber uma cerveja e lembrar de alguém que iria adorar aquele sabor. Vai assistir a um fim de tarde com o pensamento em quem sempre te acompanhava nesses momentos de contemplação; e vai ficar impaciente quando telefonar a noite e o fuso horário te impedir de completar a ligação para aquela pessoa que seria a única que poderia te ouvir naquele momento.

Isso é só o começo.

Porque então, depois que você tiver voltado para casa, calçado as havaianas, comido 32 coxinhas e agradecido mil vezes por morar no país que tem o céu mais lindo do mundo, vai lembrar de alguém que ficou do lado de lá e que adoraria comer coxinha com coca-cola sentado num bar com mesas de lata na calçada. Ao cruzar a cidade num fim de tarde, vai te bater uma saudade louca do horizonte que você deixou para trás. A saudade vai chegar quando você menos espera, e numa noite fria você vai lembrar detalhe por detalhe da decoração do seu quarto provisório naquele país que você escolheu por uns meses para chamar de casa. Vai acontecer de você refazer mentalmente o caminho do supermercado, relembrando cada prédio, pensando na casa dos vizinhos que você deixou para trás, e seu coração vai ficar miudinho quando você estiver zapeando a TV e cair numa reportagem sobre aquele lugar que por meses te acolheu.

Esteja preparado, porque morar longe vai te ensinar que sempre cabe mais uma saudade.

Personagens femininos

Dias atrás falei do quanto é difícil encontrarmos filmes que mostram histórias femininas que vão além do amor romântico numa relação homem-e-mulher. No geral, temos papéis de destaque ao lado de homens, em histórias dramáticas ou românticas. Ou então, servimos de apoio para o personagem masculino. Somos a mãe, a amiga, a secretária e a amante do protagonista.

Essa análise da importância dos papéis femininos em uma narrativa é conhecida como teste de Bechdel. Se num filme pelo menos duas mulheres têm nomes e conversam entre si sobre assuntos que não sejam homens, então o filme passa no teste.  Com base nessa ideia, o canal de humor Nuclear Family fez este video sensacional, o Underwritten Female Caracter, ou “personagem feminino pouco desenvolvido”, um tipo de trailer de um filme que reuniria os personagens femininos mais comuns do cinema.

É fácil lembrar delas. Pense no seu filme preferido. Ele passa no teste de Bechdel? Se não passar, tudo bem. O problema não são os filmes que não passam. 500 dia com ela, por exemplo, é um filme leve, divertido, bonito, e está reprovado. Uma linda mulher é um clássico reprovadíssimo. Perfume de mulher é maravilhoso, mas também fica de fora.

O problema, como eu ia dizendo, é o pequeno número de filmes que passam no teste em comparação com o número de filmes onde somos coadjuvantes, alívio cômico ou objeto. E o cinema reflete a sociedade. E nós nos inspiramos no cinema; e sabemos que somos muito mais complexas do que a mocinha simpática e descolada que aparece para salvar a vida do rapaz depressivo que vai mais tarde dispensá-la; ou do que a mulher fatal que surge para arruinar a vida do galã e inserí-lo num mundo novo cheio de desafios. Nem preciso falar das gostosas cujo maior desafio dentro do roteiro é fazer com que os cabelos esvoacem ao vento, né?

Então, se é sexta-feira, você vai ficar em casa e quer ver um filme com personagens femininos inspiradores, aqui vão as minhas sugestões: As Horas, Juno, A Pequena Miss Sunshine e Volver. Se você quer mais, neste link tem uma lista🙂

Já estou com saudades

ja-sinto-saudade

Eu passei 4 anos solteira. Durante esse tempo, entendi a importância dos bons amigos.

Sempre que vejo conhecidos recém chegados à solteirice entrando em desespero para encontrar alguém, lembro disto: pensem nos amigos. O amor romântico vai acontecer naturalmente. Ele, na verdade, SÓ acontece naturalmente. Pelo menos o amor dons bons. Se você forçar, talvez arrume algo. No desespero, vai acabar inventando adjetivos positivos para fazer aquele semi-desconhecido se encaixar nos seus planos. Mas um dia a realidade vem. E quando ela chegar, é importante ter alguém para te ajudar a segurar a barra e te pagar a cerveja-tira-mágoa-da-decepção.

Ter pelo menos um bom amigo é mais importante ainda se o amor romântico nunca chegar. Pode acontecer.

A relação entre amigos é pouco enaltecida nas narrativas do cinema. Menos ainda quando trata-se da amizade entre mulheres. Tente se lembrar de três filmes onde a história mais importante é a relação de amizade entre duas mulheres. Agora pense em filmes onde a relação romântica homem-mulher é o foco. É fácil listar filmes cujo enredo nos faz crer que só é possível ser feliz quem vive um amor romântico perfeito.

Então vou falar de um filme que cabe no primeiro caso. Já estou com saudades foi lançado no final de 2015 e está no Netflix. Ele mostra a relação de amizade entre Milly (Toni Collete) e Jess (Drew Barrymore).

Elas são amigas desde a infância, estão com seus quase 40 e a vida encaminhada quando Milly descobre um câncer de mama. O enredo parte daí, e mostra as sutilezas e os detalhes dolorosos da relação nessa fase difícil. As duas vivem cada qual o seu amor romântico, mas isso fica em segundo plano. O filme é sobre elas.

Eu não quero falar muito mais, só deixar a sugestão e lembrar que amigos são muito, muito importantes. O amor romântico também, mas com alguém ao nosso lado em quem podemos confiar, todo o resto se ajeita. Se o amor não vier, tudo bem, desde que você tenha bons amigos. São eles que vão conseguir te fazer ver alguma graça nisso tudo quando a vida bater. Porque ela vai.

Insônia

Não foi o café das 3 da tarde, não, minha filha. Foram as coisas que você não terminou de fazer. Não tem nada de físico nisso, é tudo da sua cabeça. Todos esses fantasmas aparecem nessas horas da noite. Ficam lá no fundo esperando a hora certa de atormentar. Agora não adianta levantar e escrever, tem que fechar os olhos e dormir. Conta carneirinho, vai.

Patético.

Os carneirinhos nunca atravessam a cerca, vão ficando tudo amontoados do mesmo lado, enroscados pela lã. Sabe o que é isso? Sua mente te controlando. Nem jogar carneirinho pro outro lado da cerca você consegue. Vai, controla. Inspira, expira. Inspira. Tem que tomar as rédeas da situação, querida. Contar cavalo será que funciona? Afe.

Amanhã vai dar certo, amanhã você organiza, senta, escreve, sem facebook, sem se distrair, sem pensar se do outro lado do mundo tá tudo bem. O e-mail do seu pai! Caralho, mais essa. Peço desculpas pela falta? Ajo naturalmente? Pergunto como ele tá? Mando fotos da viagem? A gente precisa conversar mais, a gente precisa se entender. Será que é caso de análise? Mas e o dinheiro? Se não focar no trabalho, não tem dinheiro nem pro café, quem dirá pro analista, e voltamos ao ponto de partida: foco. Foco. Isso. Relaxa. Imagina um balão, e nele seus pensamento. Ele vai subindo, levando as preocupações embora. Isso, foca. Relaxa. Que foi isso? Ai, não, o sótão que eu esqueci de novo de fechar. Os fantasmas. Melhor acender a luz, levantar e escrever.

 

*Da oficina de escrita criativa.