sobre plantas e amadurecimento

suculenta

ser adulto não é fácil e a gente ainda cai de surpresa nessa roubada. um dia eu saí de casa para estudar e de repente estava trabalhando, pagando contas, assinando pacote de internet, comprando jogo de panela, pagando multa de trânsito, declarando imposto de renda, indo sozinha ao hospital e chorando debaixo do chuveiro.

é desesperador no começo, mas depois a gente acostuma e aprende a criar ilhas de conforto em meio ao caos. tem gente que faz yoga, terapia, capoeira, trabalho social, gente que joga videogame ou toca violão. e quase todo mundo cuida de plantas. é a tendência entre os jovens adultos que me cercam.

minha melhor amiga contou que quer sair do apartamento, precisa de uma casa. não é pelos vizinhos, nem pela falta de privacidade. é pelas orquídeas, que precisam de mais espaço. mandou foto da cozinha e da varanda: tudo tomado por vasinhos. outra amiga contou no facebook que comprou sua primeira plantinha e já está apaixonada, quer encher a kitnet de vasinhos.

aqui em casa começou com um pezinho de manjericão e a intenção de fazer molhos de tomate caseiros. hoje, são 17 vasos, entre cactos, suculentas, pimenteira, ervas e temperos. viajei por uns dias e quando voltei o tomilho tinha morrido por falta d’água. fiquei abalada.

cuidar de planta é trabalho delicado. exige observação e sensibilidade para perceber que se está colocando água de mais ou de menos. requer pequenas e constantes mudanças: tira o vaso daqui, muda pra lá, bota essa no sol, transplanta aquela para um vaso maior. precisa de planejamento prévio para dias de viagem.

cuidando bem, o manjericão solta flores pequenininhas que têm mais sabor que as folhas. o hortelã, além de bom para chá, deixa no ar um cheirinho doce quando a gente coloca água no começo da noite, e dinheiro em penca é uma planta linda que pega em qualquer lugar e se derrama em cachinhos verdes.

ser adulto não é fácil, e nos últimos dias eu enfrentei filas, chorei, trabalhei com o que não gosto, paguei conta atrasada, ralei para receber o dinheiro do freela, acordei cedo, me inscrevi em concurso, fiquei com 2 reais na conta, o café acabou bem na hora que eu precisava, andei no sol, a sacola estourou na rua, choveu e eu estava sem guarda-chuva, arrumei um guarda-chuva e o vento virou ele do avesso, um carro passou na poça e jogou água em mim, outra conta venceu, comprei uma lâmpada queimada, a roupa que botei para lavar manchou, mas no fim do dia, sentada no sofá, notei aquele pontinho cor de rosa em meio ao verde. a suculenta estava em flor.

Ela não quis

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minha primeira lição de empatia foi um soco no estômago.

eu tinha 17 anos e algumas boas amigas. júlia era das mais chegadas. naquela época a gente se preocupava com pouca coisa, a vida era basicamente música, cuba libre, caminhadas sem rumo e cigarros de menta. eu começava a ouvir oasis, ela curtia bon jovi. eu fazia teatro, ela era dos esportes. gastávamos tempo falando do futuro, paupável e absurdo, de alienígenas aos cursos de faculdade, nota de corte da fuvest, será que estaremos vivas em 2020? coisas assim.

estávamos sentadas no meio fio, era fim de tarde, ela disse que queria me contar uma coisa, depois desconversou. fazia dias, andava triste, eu sabia mas fingia que não, porque fugir das coisas sempre foi meu jeito de lidar com elas. quando a pessoa quer, ela fala, não adianta forçar, eu pensava. deixei pra lá, pra que estragar o pôr do sol com uma conversa séria? nada poderia ser tão sério afinal, a gente tinha 17 anos e vestibular dali 3 meses.

ela entrou numa farmácia, falou pra eu esperar do lado de fora, fiquei chutando pedrinhas na rua, ela saiu com uma sacolinha na mão. olha, se eu não estiver aqui daqui uns dias, passa em casa e pega seu cd. eu ri. que é isso? bobagem.

hoje eu sei que até a leveza tem sua hora, mas ali no começo dos anos 2000 eu não sabia. um dia ela apareceu em casa com outra amiga. vamos pro quarto, a gente precisa conversar, falou. sentou na minha cama com lágrimas nos olhos. tô grávida.

eu falei: que bom, uau, que lindo, vamos ter um bebê, a gente cuida todas juntas. carol , você não tá ententendo, mariana chamou minha atenção. foi um acidente, eu não queria, eu não sabia, ele não quer, ele me deu o link de um site que falava para tomar chá de cravo com cachaça, foi tudo que ele fez.

mas a gente pode dar um jeito, vai ficar tudo bem, calma, eu te ajudo, eu pensava. não ia ficar tudo bem. o papo era sério, e eu queria brincar de casinha, de vida simples, vida linda, eu queria ter 17 anos pra sempre, mesmo que isso custasse a sanidade da minha amiga. olha, não vai dar, ela tá decidida, mariana explicou. eu ria. falei que aquilo estava errado.

depois disso, júlia viajou. eu ouvia cartola dia e noite, “ainda é cedo, amor, mal começaste a conhecer a vida…”. nessa época, fiz uma prova de teatro, cantei alto essa música, não passei, reconsiderei o futuro, pensei em júlia e ela não voltava. perdeu todas as provas, mandou poucas notícias, um dia reapareceu. contou da dor, do sangue, do médico apático que perguntou se ela queria ver o feto, do medo e do que seria a vida dela dali pra frente.

arrumei uma festa, espairecer ia ser bom. ela saiu correndo do salão. corri atrás, encontrei ela do lado de fora, encostada numa parede, vomitando. era assim, ela explicou, um trauma. lembrei dos vídeos que as professoras nos enfiavam goela abaixo, fetos destruídos, sangue, mulheres desmaiadas, objetos de tortura. então era isto: minha amiga precisava de ajuda. porque na hora de encher nossa cabeça de culpa, a sociedade apresenta suas armas: bíblia, lei, moralismo. mas certeza de que, optando pelo sim, seguiremos normalmente nossas vidas, concluíremos nossos planos, isso aí ninguém garante. menina que dá tem mais é que que sofrer.

o universo alheio é terreno incerto. nem para nós a coisa é certa, de repente vem a vida e muda tudo. hoje eu sei que naquele dia, sentada na calçada, ela queria ter certeza de que eu estava pronta para ouvir. eu queria que minhas crenças fossem verdade universal e que o mundo seguisse sendo um lugar onde a maior preocupação é com a prova no fim do ano, mas eu tive que abrir mão.

anos depois, já trabalhando num jornal, fiz uma matéria sobre a facilidade de se obter pílulas abortivas. é possível encomendar pela internet ou comprar em camelôs. a vendedora ainda aconselha: na hora que doer, você tem que aguentar o tranco. não pode contar pro médico o que você fez, senão dá problema.

se tem venda, é porque tem demanda. não são mulheres criminosas. são adolescentes sem rumo, mulheres adultas sem dinheiro, negligenciadas, abandonadas, confusas. que precisam de quem as ouça. mas enquanto a gente continuar tratando como caso de polícia ou coisa de outro mundo, ninguém vai se sentir a vontade para falar.

não dá para ter 17 anos pra sempre, infelizmente. a vida exige sensatez e peito aberto.

Sweet home Alabama

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era 1996 e o mundo, eu começava a perceber, era maior do que eu pensava. o silêncio da noite lá fora, cheiro de verão, luzes de natal, casa da minha avó. na televisão, Forrest Gump, eu sentei no cantinho do sofá, minha mãe lá fora gritando para eu ir tomar banho, eu falando “espera”, o filme começando, não era Disney nem ET, era um filme de gente grande.

minha mãe chega na sala, a luz da TV desenhando silhuetas e as janelas todas abertas, brisa de verão passando de um canto a outro, minha mãe parada na porta: esse filme demora pra acabar, hein? eu suja de terra, mas o banho podia esperar.

pés descalços, cabeça no encosto do sofá, copo de tuibaína na mão, que minha tia trouxe. de repente, eu queria chorar. chorei baixinho, enxugando todas as lágrimas, com medo de um adulto entrar e me ver chorando. as costas das mãos não davam conta do tanto de lágrima que caía, mas se eu levantasse pra pegar um pedaço de papel um adulto podia ver e como é que eu ia explicar? o filme era muito bonito, quem é que chora de beleza?

o mundo aumentando diante dos meus olhos.

é 2016 e eu e um amigo gravamos um vídeo, narrando um poema. demos um tom diferente daquele que a autora pensava quando criou. ela estranhou. nós refletimos muito sobre a liberdade da produção artística. quando escrevo este texto, recorro à minha memória. lembro da sala da casa da minha avó e de um sofá que nem existe mais, da cena do filme, e da minha roupa. você, que me lê, imagina sua sala, imagina minha face, ou de qualquer outra criança, triste ou não.

é 2016 e eu estava trabalhando em um eveto, tudo de primeira, muito fino, muito chique. a banda subiu no palco e tocou Sweet Home Alabama. eu sorria para convidados, conversava amenidades: mercado, carreira, sobremesa; e me controlava para não correr para a frente do palco, gritar, cantar, pegar um copo de uísque e abraçar alguém. meses atrás, quando voltei para casa, para o exato lugar onde, 20 anos antes, chorei pela primeira vez ao ver um filme, tirei uma foto do horizonte. mato, árvores. na legenda: sweet home duartina.

é ainda 2016, vinte anos depois de eu ter chorado assistindo a um filme, e hoje encontrei uma lista com as melhores trilhas sonoras do cinema. estava lá: Forrest Gump, Sweet Home Alabama.

vinte anos depois me dei conta: é a música do primeiro filme que me fez chorar, e isso me faz gostar tanto. Forrest Gump é um filme longo, incrível, com um roteiro sensacional. ele fala de uma época, de conflitos, ideologias e relações humanas.

para mim, fala sobre voltar para casa.

meu sol em escorpião

filipe

o mundo precisa de mais pessoas dispostas a mudar (sobretudo a si mesmas). de mais pessoas que se sintam descontentes e não se acomodem. que tenham coragem e deixem coisas para trás. e que recebam e criem coisas novas. de pessoas que se dediquem a tentar, que decidam aos 30 aprender violão ou mandarim e que saibam que aos 40 ainda é tempo de começar a escrever poemas. de pessoas que não se sintam velhas perto dos mais jovens, nem tão jovens perto dos mais velhos. pessoas que saibam conversar. o mundo precisa de pessoas que tenham a curiosidade de conhecer aquilo que nos mantém vivos, como o fluxo da respiração humana ou as frutas da estação. de pessoas que falem alto, não temam o desconhecido e acreditem. de pessoas que se confudam, se corrijam e inventem novos caminhos. que viajem quilômetros, mudem de vida e saibam que dinheiro não compra paz. o mundo precisa de pessoas que entendam notas musicais, que tenham sorriso sincero e peito aberto. de pessoas que não se levam a sério e que não dão atenção ao que não importa, cientes de não sermos nada além de poeira das estrelas. o mundo precisa urgentemente de pessoas que saibam fazer bolo, café e que não tenham medo, mas que tenham sonhos. que não se conformem, que pensem com grandeza mas que vivam com simplicidade. o mundo preciso de pessoas que tenham como bandeira a liberdade, que mudem de cabelo, de gosto, de estilo, de anseios, que vivam, experimentem e cresçam sem deixar de ser criança quando isso é necessário. de pessoas que cantem e andem distraídas. que respeitem, ouçam, sugiram e compreendam. que duvidem das regras e questionem. o mundo precisa de pessoas que tenham coragem, bom coração e que sejam entusiastas das coisas nas quais ninguém mais acredita.

Tdah

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três linhas

uma pausa

uma linha

três pausas

um poema

uma saudade

uma música só

não faz verão

na minha janela

três plantas precisam

de água

uma precisa

de transplante

três linhas podem esperar

***

 

a foto é do #365nus

preta, pretinha

de fevereiro, de 2015:

eu estava andando pela rua, sozinha, toda encolhida de frio, pensando na sua pergunta de outro dia: “menina, você não tá sofrendo aí nessa tar de dublin, não?”, quando o assovio da natalia mallo bateu fundo no meu ouvido e me lembrou de um sábado em que eu cheguei em casa às 10h30 da manhã, sem dormir.

fazia um sol lindo, eu estava sorridente, descabelada e com a cara borrada de maquiagem; e pensava em onde é que tava você. liguei o computador pra saber notícias suas e você tinha me mandado essa música. você já estava em casa. bem, sã, salva e linda. a gente tinha se dispersado lá pelas quatro da manhã.

eu pensei agora: que saudades de você, das nossas noites e de tudo que a gente foi. nos encontramos em londres depois de tantos planos sonhados debaixo de sol tropical, tal qual um conto. a gente dançou, riu, e brigou na rua, fez as pazes, receosas; e se despediu. eu tentei ficar ressentida porque na minha volta prai você não fez questão de me ver, mas eu olhei suas fotos do carnaval. eu não consigo me ressentir. você é só amor, não tem jeito.

lembrei da nossa última longa conversa por meio de cabos de fibra óptica e ondas eletromagnéticas, e a gente falava de amor. embora não tenhamos dito, ficou nas entrelinhas esta ideia de que a gente não presta muito pro amor egoísta e romântico. a gente tem um coração arisco, mas nele cabe um mundo inteiro, o que é uma bela contradição.

nessa toada de saudades, eu entendi que meu amor é todo gasto com meus amigos mais queridos, e fica gravado nesses momentos alegres e sutis que a gente compartilha. meu amor romântico é todo seu, pretinha.

(e só agora notei que a sua declaração pública de amor por mim acabou de completar um ano).

***

de hoje:

meu amor romântico ganhou destinatário, se expandiu, eu voltei, nós vivemos noites mornas na janela do apartamento novo cheio de frida, muito café, muita cerveja, muita risada, gente antiga e gente nova. e agora quem vai é você, esvazia esse apartamento e leva esse sorriso bonito pro lado frio e cinza do mundo. a gente fica, agora virtualmente unidos por um projeto de vídeos de poesia, esperando você voltar. quem sabe também com um livro bonito que a gente tem escrito todos juntos ao longo desses anos de idas e vindas, de amor e distância, de filosofia, paixão e medo, de frio e de calor.

3 de novembro

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acordei
debrucei na janela
31 anos antes eu chegava por aqui. antes disso, o mundo era tal como está – subtraídos os detalhes da vida cotidiana, tecnologia e desenvolvimento – era esse mesmo mundo com árvores e alvoradas.

daqui alguns anos eu não vou estar mais aqui, e ele vai continuar sendo o mesmo mundo, e em outros tantos anos não vai existir sobre a terra qualquer lembrança do que eu fui. e o mundo vai seguir inabalável. Então, o que vale a pena?

tudo. ou nada.

tanto faz. para mim, vale o que me cerca. valem as certezas das quais eu não abro mão, mas que podem ser mutáveis: essa a única certeza; e as pessoas com quem eu compartilho a existência.

o sentido da vida para mim é esse: ser essa pessoa que não depende de calendários para saber que tem a vida toda pela frente.

 

*Foto do Julien Mauve

Calmaria

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Eu preciso me reinventar o tempo todo. Essa frase veio na minha cabeça.

Outro dia eu estava cansada da rotina. Você já deve ter passado por isso. Não é todo mundo que se incomoda. Eu sim, infelizmente.

Muito se fala sobre a eficácia do mar revolto em formar bons marinheiros, mas pouco se reflete sobre os períodos de calmaria. E elas são constantes.

Pi delirou, Luis Alejandro Velasco desejou a morte, Chuck Noland viu um rosto numa bola de vôlei e chamou de Wilson. Nas histórias sobre naufrágios o grande inimigo não são as ondas violentas, mas a imensidão do mar. E o tédio.

Quando eu estava na escola, tinha uma brincadeira boba. A proposta era imaginar uma sequência de acontecimentos: caminhávamos por uma estrada, encontrávamos um vaso e chegávamos até o mar. Com a cena em mente, descrevíamos cada elemento: o caminho (Florido? Longo? Estreiro?), o vaso (Grande? Pequeno? De barro?) e o mar. Era importante lembrar da sensação que se tinha diante do mar. Cada elemento representava algo relacionado à nossa vida. O vaso era, por exemplo, nossa vaidade. Não lembro exatamente os significados. Sei que o mar era a vida.

É uma metáfora que sempre cai bem.

Podemos passar um ano, dois, três, sem nenhuma grande novidade. Nada de emprego novo, amor, gravidez, morte, promoção, viagem.  Provavelmente é assim que vai ser. No entanto, vivemos nos preparando para os maremotos e no fim pouca gente sabe lidar com uma vida de marola.

Aos 30, quase 31, inventei de voltar a fazer teatro. Hoje, numa oficina, chegou a proposta: pense numa frase que faz sentido para você. Não havia tempo para reflexões e o que me veio foi: eu preciso me reinventar o tempo todo.

Ou a gente se reinventa ou aprende a tirar novidade de pequenas coisas, como uma tarde livre ou um pôr do sol. Se possível, faz as duas coisas. A vida é ordinária e pouca gente foge da regra.

As vezes a gente precisa sair de nós mesmos pra não morrer afogado.

Para uma casa sem beija-flor

beijaflor

Altura das portas, tamanho das janelas e vazões nas paredes são importantes se você pretende ter uma casa no campo.

Porque, se você quer ter uma casa no campo, precisa saber que eventualmente pode entrar nela um beija-flor. Além de bonitinhos e muito pequenos (alguns pesam só 2 gramas), são animais bastante ágeis. Alguns podem voar numa velociade de até 60 km por hora. São os únicos pássaros que param no ar, voam para trás e dão cambalhota. Mas eles têm dificuldade para sair de lugares fechados.

Quando um beija-flor entra em casa, fica voando no alto, perto do teto, procurando pela saída. Você pode abrir a porta, mas se ela for muito baixa ele não vai perceber. Por isso, é importante também que as janelas sejam grandes ou que haja buracos nas paredes, se isso for possível. Existe a opção de tijolos vazados, que funcionam bem em alguns ambientes.

Um beija-flor vivem em média 5 anos. O coração dele bate até 2 mil vezes por minuto. Ele gasta muita energia e se cansa com facilidade. Dentro de uma casa, pode passar toda uma tarde procurando pela saída, e se cansar além da conta. Uma tarde perdida é muito tempo na vida de um beija-flor. Para um animal que se alimenta de quatro em quatro horas, uma tarde sem parar de bater as asas pode ser fatal.

Os engenheiros e arquitetos vão te ajudar com a disposição dos cômodos, materiais, alicerce e outras coisas de igual importância. A mim, que gosto de observar a vida, cabe deixar o conselho: considere a hipótese de ter dentro de casa um beija-flor aprisionado. E faça o possível para facilitar a saída.

Você não vai querer um beija-flor trancado dentro de casa voando em desespero. É uma coisa muito, muito triste.

15 de outubro

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Teve uma que entrou na sala de aula chupando um pirulito. Nós tinhamos 14 anos, e um dos meninos falou: professora, não pode chupar pirulito na sala!

A professora tirou o pirulito da boca, deu uma olhadinha na ponta, colocou na boca de novo e chacoalhou os ombros. Nós rimos, ela falou para pegarmos os cadernos e sairmos da sala: procurem lá fora alguma coisa para desenhar. Pode ser árvore, flor, casa. Desenhem com luz e sombra e voltem daqui 30 minutos. Ela lecionava artes numa escola da rede estadual, e eu lamentei quando mudei de cidade e tive que me despedir daquelas aulas.

Teve outra, na mesma escola, que nos dividiu em dois grupos e nos fez montar uma peça de teatro sobre aborto. Um grupo deveria apresentar argumentos em favor, outro contra. No fim, debateríamos as situações apresentadas.

Teve um que escreveu um livro, e doou um exemplar para cada aluno, com dedicatória.

Outro que, às vésperas do vestibular, passou uma tarde comigo numa sala de aula vazia falando sobre a Segunda Guerra, como se estivessemos num bar debatendo música ou cinema.

Teve uma que levou para a aula um CD da Adriana Calcanhoto e me fez pela primeira vez ouvir falar em Almodóvar e Frida Kahlo.

Outra nos fez estudar as expressões da letra de uma música do Chico Buarque.

E teve aquela que, mesmo enfrentando sessões semanais de quimioterapia, tinha forças para nos ensinar história.

Teve outra que nos levou na fazenda da sua família, onde tinha rio, árvores e insetos em vidros de conserva, e nos proporcionou aulas práticas de ciências.

E aquele que não desistiu de me ensinar matemática.

Outro que nos fez desenhar o sistema solar em escala num rolo de fita de recibo de supermercado. Ele falava de astros e anos depois, numa madrugada em que eu fazia plantão no jornal, olhei para a TV e lá estava ele, conversando com Jô Soares e falando daquilo mesmo: espaço, astros, estrelas.

Teve o que fazia paródias para nos ensinar biologia, e desenhava crustáceos na lousa.

Teve a que me fez ler poesia em voz alta, destrinchar um conto do Hans Christian Andersen e ler histórias para crianças numa creche.

Teve a tia Elaine, de quem lembro pouca coisa, mas não esqueço o nome e o sorriso, porque foi minha primeira professora. Junto com a tia Rose.

A que me fez decorar os verbos e ler Machado de Assis, o que ensinava história e falava de música, o que passava receitas enquanto resolvíamos exercícios de física.

Para eles, a gente acaba virando rostos conhecidos numa multidão de outros rostos, porque somos muitos.

Mas a gente não esquece nunca. Obrigada.

 

*E tem minha mãe, minhas tias, minha prima, minha amiga, e as outras amigas da pedagogia. Eu sou cercada de professores maravilhosos❤