Ouçam as crianças

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Eu não sei se o dado continua atual mas, em 2007, Ferradura Mirim era a maior favela de Bauru.

Eu e um amigo fazíamos trabalho voluntário na creche de lá. Toda semana, levávamos alguns livros infantis, sentávamos no chão de uma sala e líamos histórias. A orientação era simples: não impor regras, dar bronca ou obrigar as crianças a prestarem atenção ou permanecerem na sala. Estávamos ali para contar histórias para quem quisesse ouvir. No final, desenvolvíamos com os pequenos uma atividade relacionada à história contada.

No primeiro dia, as crianças estavam tímidas, ou desinteressadas, e o sol no campinho de terra batida do lado de fora da sala parecia muito mais atrativo. Com o passar das visitas, fomos agregando ouvintes. Menos um.

Caio era revoltado. Ele não só não se interessava por história alguma, como fazia questão de jogar na nossa cara o quanto éramos entediantes. Enquanto líamos, ele fazia caretas e falava alto. Tirava objetos do lugar só para fazer barulho. Arrastava cadeiras. Mexia na orelha dos coleguinhas que estavam quietos nos ouvindo. Andava de um lado para o outro, impaciente. Ele podia sair da sala, mas não saía. Ele ficava para nos desafiar.

Nós tentávamos, na medida do possível, permanecer inabaláveis, e continuar nos fazendo interessantes pras as outras crianças. Persistimos, apesar de Caio. E tentávamos tratá-lo amigavelmente, apesar de toda a indiferença da parte dele.

Um dia, líamos uma história que falava de um macaquinho que tinha vergonha do pai, ou algo assim, eu não me lembro muito bem do enredo. O mote era a relação conturbada entre pai e filho, enfeitada pela linguagem infantil e vários desenhos bonitinhos. Caio, como sempre, estava rebelde. Conforme a história foi se desenvolvendo, ele parou. Olhou para nós, e sentou ao lado do meu amigo. Com o queixo apoiado nas mãos, ouviu a história até o fim.

Quando terminamos, pela primeira vez ele falou com a gente. “Sabe o que é, tia? Ele gosta do pai dele, mas ele não quer falar que gosta, porque o pai dele não liga pra ele, sabe?”. Eu olhei pro meu amigo, e engoli seco. Ele também. Prosseguimos com as atividades.

Caio tinha 8 anos, e hoje eu lembrei dele, porque apareceu na minha timeline do Facebook o vídeo de uma criança dentro de uma escola, arremessando objetos, chutando cadeiras, incontrolável. Uma gravação amadora, provavelmente feita de celular, e irresponsavelmente jogada na internet. Uma série de erros num mesmo post, que começa com a insensibilidade de quem filmou e publicou, expondo a criança em troca de cliques e sensacionalismo.

Mas o erro dos erros, tanto na postura dos que presenciam ao vivo a cena, quanto de muitos que comentaram o vídeo: os adultos não sabem ouvir as crianças. Interpretam como ameaça o que pode ser, na verdade, um pedido de socorro.

Eu não sei se o Caio teve jeito. Mas uma sociedade que olha pros pequenos, sobretudo aqueles em situação de risco ou abandono, como uma ameaça, certamente não tem.

*Do medium.

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