Silêncios e limões

Viemos – eu e Filipe – parar num sítio que funciona também como centro de meditação. As pessoas vêm pra cá para ficar em silêncio, contato com a natureza, paz, etc. No nosso terceiro dia, chegou um grupo com uma proposta meio radical, mas interessante: eles ficam 5 dias sem falar, usar internet, ler, consumir açúcar ou café. A alimentação é toda natural, cheia das frutas, chás, vegetais orgânicos, nada de carne, pouca gordura. É tipo um spa espiritual.

Acordam cedo e meditam, comem e meditam, passeiam e meditam, tudo com suporte de uma líder (eu não sei se essa é a palavra certa, mas é essa mulher cuja cara eu só vi duas vezes, super reservada e simpática, que parece ser famosa no mundo da elevação espiritual). Tem também um grupo de apoio, são mais três europeus com apelidos indianos que ficam com eles mas conversam com a gente nos intervalos (“a gente” somos nós, eu, Filipe e mais quatro italianos, que cuidamos da cozinha e da limpeza).

Enfim, pelo que entendi, esses caras querem fazer uma viagem pra dentro de si mesmos em busca de paz e conhecimento. Para isso, têm que ficar em silêncio, sozinhos com seus próprios pensamentos, lidando com desejos e frustrações.

São 13 pessoas, homens e mulheres, de vários lugares da Europa. Áustria, Itália, Holanda. Uns vieram de carro, e todos eles pagaram caro pelos 5 dias de silêncio no meio do mato: o programa custa mais de 600 euros, incluindo a estadia e a alimentação.

No segundo dia, quando eu limpava a mesa do café da manhã, encontrei um bilhetinho destinado “ao pessoal da cozinha”. Apesar do italiano (que eu não falo), entendi que era uma reclamação sobre a torta servida no jantar da noite anterior e um pedido: seria possível receber uma rodela de limão para as próximas refeições? Passamos o caso para o grupo de apoio, e alguém de lá explicou para o chef da cozinha quem era o autor do pedido. No almoço, deixamos no cantinho do armário dos talheres uma rodela de limão num pires, em cima de um bilhetinho com o nome do requerente.

Os outros notaram o limão, e no jantar um senhor alto, duns 50 anos, entrou na cozinha e gesticulou. Nenhum de nós entendeu, e então ele quebrou o silêncio para pedir se ele também podia ter um limão. Demos o limão. Na manhã seguinte, sem cerimônia, o mesmo senhor entrou na cozinha e pediu o seu limão, que custava agora a bagatela de 600 euros – o preço do silêncio que ele quebrou.

Passamos então a deixar limões cortados perto das panelas e guardanapos de cada refeição, e uns inteiros na fruteira para garantir que ninguém mais saísse da reflexão por míseras gotinhas de limão siciliano. No quarto dia, durante a limpeza, encontramos no lixo um pacote vazio de batatinha ruffles e dois papeis de chocolate. Não era de nenhum de nós da cozinha, mas um dos rapazes de cá contou que não era a primeira vez que ele encontrava esse tipo de coisa no lixo. Uma moça do grupo de apoio foi levar as provas do crime para a líder espiritual. O ser humano é mestre na arte da auto sabotagem.

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