Eu, feminista

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Como toda criança de classe média dos anos 90, eu ganhava muita roupa usada dos primos mais velhos. Numa dessas levas, chegou uma camiseta com a seguinte frase: “Meio inconsciente, me tornei mito e ídolo, ou mulher símbolo da liberdade”, tudo escrito em roxo, e a plavra iberdade em amarelo, destacada. Embaixo, o nome da autora: Leila Diniz.

Eu, que não tinha mais que 11 anos, fiquei encantada e perguntei ao meu pai quem era Leila Diniz. “É uma mulher aí que foi pra praia de biquini”, disse ele, virando as costas e me deixando com o olhar no chão. Uma resposta triste para uma frase tão bonita, e para uma menina tão curiosa. Resolvi pesquisar.

Não lembro como foi que descobri, porque naquela época ninguém tinha internet em casa, mas achei incrível quando soube que Leila Diniz não era só uma mulher que foi à praia de biquini. Ela era uma mulher grávida que foi à praia de biquini numa época em que mulheres haviam sido proibidas de usar biquini. Eu ainda não sabia, mas foi lá, por volta de 1995, que começaram a surgir os primeiros problemas ideológicos entre mim e meu pai. Foi também lá que começaram a surgir os primeiros traços do meu eu-político e social atual.

O meu pai é uma pessoa maravilhosa. Sempre me incentivou a estudar e pensar numa boa carreira, me falou de independência financeira e amor próprio. Quando eu era criança, ele me contava histórias e aos finais de tarde me colocava na garupa da moto para sairmos pela estrada de terra curtindo a paisagem. Um paizão, mas um homem. Um típico homem dos anos 90, e como tal, e como muitos, um tanto desajeitado quando o assunto é universo feminino.

Para uma menina que está colocando um pé na adolescência e que vive em um mundo cercado de “menina não pode”, uma mulher que nos anos 70 vestiu um biquini e foi à praia é uma heroína. Conscientemente, eu não sabia disso. Hoje eu sei.

Se hoje me assumo feminista, é – também – por Leila Diniz. E pelo meu pai, que certamente não se considera machista. Meus anos de guerra ideológica com ele passavam por isso: víamos o mundo de pontos de vista diferentes, e ele não estava disposto a tentar entender o meu universo.

Há um estigma na palavra machismo, tanto quanto há no feminismo. Machista não é só o homem violento que agride e entende que sua força de trabalho deve valer mais do que a de uma mulher. É também quem não quer rever os papéis socais destinados a cada um de nós baseado no que temos entre as pernas. O senso comum diria que meu pai não é machista. Ele nunca, jamais, agrediria uma mulher, ele é a favor das mulheres sendo respeitadas no mercado de trabalho, ele admira mulheres talentosas. No entanto, quão violento pode ser você podar pela raiz os sonhos de uma menina ao dizer que ela, como menina, não pode jogar futebol? Também não é uma forma de violência você aniquilar os ídolos de uma criança que está descobrindo o mundo e a si mesma?

Esse é o desafio de se assumir feminista: ao fazê-lo, temos que pensá-lo. E ao pensar o feminismo, descobrimos que mesmo as pessoas que amamos nos machucaram. É um processo doloroso. É triste pensar que todas as vezes que nosso pai disse que não podíamos algo porque somos meninas, ou que o namorado reclamou da nossa roupa, não era um direito deles: era exercício de controle, ainda que inconsciente. É cômodo pensar que o mundo é assim, e seguir acreditando que eles estavam só querendo o nosso bem. Na mente deles, sim, estavam, mas de uma forma egoísta. Veja bem: machismo não se expressa somente pela violência física, mas também pelas imposições sociais. De quantos “você não pode” é feita uma carreira brilhante deixada de lado? Quantas meninas abriram mão de sonhos por crescerem acreditando que certas coisas não serviam para elas?

Quando a gente é chata e fala de desconstrução de conceitos e padrões, é também disso que estamos falando: pensar no que estamos transmitindo para os pequenos. Os adultos não sabem lidar com crianças, principalmente com meninas. Tive na faculdade uma professora que dizia que o maior desafio do escritor de livros infantis é escrever a partir do ponto de vista da criança. É um trabalho difícil, porque ele é adulto e já se afastou faz tempo da realidade infantil. O mesmo vale para as conversas com crianças: os adultos, em geral, não conseguem fazer isso sem feri-las.

Durante a campanha #meuprimeiroassédio, eu lembrei de quando tinha 11 anos e me falaram que eu precisava começar a usar soutien. Eu sentia que meu corpo estava mudando, mas não compreendia ainda o sentido amplo dessa mudança: que dali para frente eu já era uma mocinha, e, por isso, precisava me esconder dos olhares dos homens. Quão violento é isso para uma menina que ainda brinca de bonecas? Os adultos que me falaram para esconder os peitos, eu sei, não pensavam que me faziam mal. Eles queriam me proteger. Poucos pensam, no entanto, que a mentalidade da criança está longe dos conceitos do mundo adulto. O melhor jeito de proteger uma criança é respeitando a infância, não tratando-a prematuramente como gente grande.

Essa disparidade entre o mundo adulto – cheio de conceitos e verdades irrefutáveis – e o mundo infantil – livre, destemido, cheio de sonhos – tem que ser pensada, compreendida, trabalhada. Para que sonhos não sejam podados prematuramente. Para que as crianças encontrem, elas mesmas, suas verdades. Anos depois, eu finalmente consigo me sentir tranquila comigo mesma, e entender que meus ídolos não estão errados.

Se eu tivesse conhecido o feminismo 15 anos atrás, minha adolescência teria sido mais fácil. Porque, para mim, uma das belezas de entender o feminismo é isso de olhar para nós mesmas, perceber o quanto de nós é vontade própria e o quanto é cobrança social. E encontrar conforto.

É por isso que eu me assumo, hoje, feminista. Porque, um dia, Leila Diniz me falou que mulheres podiam ser livres, seja lá o que a palavra liberdade queira dizer para cada uma de nós.

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