Carta para ela

mami

Mãe, as vezes eu penso que foi sorte tudo ter dado tão certo.

Você não tinha idade, maturidade ou dinheiro. E talvez por isso mesmo, você tenha, sem querer, feito as coisas do jeitinho que elas deveriam ser. Veja bem: você nunca insistiu para que eu frequentasse as aulas de inglês. Nunca me obrigou a continuar no balé ou no curso de pintura. Não dava tempo de pensar tanto assim em mim, de debater com outras mães ou ler a revista Pais & Filhos. Você me deixou desistir de tudo, e às vezes, nos momentos em que me acho meio inútil, eu tento te culpar por nunca ter me obrigado a insistir, por nunca ter feito me tornar pintora, bailarina, ou fluente em inglês aos 16. Sobrou tempo na minha agenda de criança. Tempo que garantiu que, aos 9, eu não soubesse o que rabiscar no caderninho quando a professora pediu pras crianças desenharem o que queriam ser quando crescessem. Eu queria ser astronauta, dançarina, desenhista, atriz, professora e ajudante de mágico, tudo junto. Acabei copiando uma das minhas amigas e desenhei-me ao lado de um cachorrinho e uma maleta de primeiros socorros. Quando precisei dizer em voz alta o que eu queria ser, falei: veterinária. Todos acharam aceitável e bonito. A verdade é que eu nunca soube muito bem, e ainda não sei, o que eu queria – e ainda quero – ser. Nas horas dedicadas à ajudante de mágico, eu vestia lantejoulas e ensaiavas uns passos desengonçados, levantando uma perna e girando sobre a outra. Depois, aproveitava e virava bailarina. Fui tudo.

Se te faltou tempo pra pensar na importância das minhas aulas de inglês, ele também foi pouco para fiscalizar minha imaginação, e nesses descuidos, eu rabisquei todas as paredes com homenzinhos sem pescoço. Eu já tinha mais de dez anos quando a casa recebeu a primeira mão de tinta para cobrir a arte toda que por anos foi o papel de parede mais bonito que uma casa pode ter. Se te faltou dinheiro para as aulas de balé, ele também foi curto para pagar a babá, e por isso você me deixou por vezes na biblioteca da escola te esperando até o fim das suas aulas, e esses foram alguns dos momentos mais bonitos da minha vida de criança, porque naquele mundo de prateleiras e silêncio eu descobri um milhão de outros mundos. Hoje, quando me chamam de cabeça de vento, eu sei que devo sorrir. Obrigada, mãe, por isso também.

*Esse texto é um dos resultados de uma oficina de escrita criativa que fiz um tempo atrás. A proposta era escrever uma carta para a pessoa que nos criou.

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