Tarde aprendi

A vida é as vacas
que você põe no rio
para atrair as piranhas
enquanto a boiada passa

-Leminski

Quando fazia já uns meses que eu morava na Irlanda, minha avó contou, por mensangem do whatsapp, que sentia saudades de me ouvir chegar na casa dela e gritar do portão “vóóó”. Na mensagem de voz gravada pela minha mãe, ela imitava meu jeito de chamá-la. Faz menos de um mês que voltei ao Brasil, e no dia que cheguei fui lá e fiz igualzinho, nos abraçamos, tomamos café, mas acabei não ficando por muito tempo. É que eu tinha chegado há pouco, estava com mil coisas para resolver e pessoas para ver. Voltei duas ou três vezes, alguns dias depois. Minha vó faz o melhor bolo de coco do mundo, e numa das visitas eu disse que uma hora queria um bolo. Ficamos assim, “um dia eu faço, quando você e seu irmão puderem passar aqui pra comer”, porque esse bolo é também o preferido dele. Outro dia, cheguei lá e ela estava na máquina de costura. Falei que queria, qualquer hora, aprender com ela a costurar pra fazer uns vestidinhos. Ela riu, falou que hoje em dia ninguém precisa aprender isso, que se compra qualquer coisa baratinho em qualquer loja, ou que se arrumam boas costureiras por aí que fazem uns vestidos bonitos se eu levar o modelo; mas que se ainda assim eu quisesse aprender, uma hora ela me ensinaria, quando eu pudesse passar um tempinho a mais por lá.

Então, sem falar tchau pra ela, porque dali uma semana eu voltaria, vim para o Rio de Janeiro. Hoje cedo acordei com uma mensagem da minha mãe: “sua vó teve um AVC”. Engasguei.

Ela agora está bem, ainda internada, mas bem, situação sob controle. No entanto, talvez precise de fisioterapia. Ninguém sabe ainda a dimensão das sequelas. Eu tive uma manhã triste, acompanhando de longe notícias, e então, a tarde, quando entendi que tudo o que eu poderia fazer era voltar logo pra casa para vê-la, lembrei do bolo. Eu não sei, agora, quando é que vou comer de novo meu bolo de coco preferido, e pode ser que eu não coma nunca mais. Também não sei quando ela vai poder me ensinar a costurar.

Não sei se o caso é ingenuidade ou negação do óbvio, mas a gente tem dessas. Fingimos que as coisas são eternas, e adiamos o inadiável. Eu não precisava passar tardes procurando emprego logo agora, como fiz dias atrás. Mas comer bolo na casa da minha avó, isso sim era urgente. Se de tudo tiramos um aprendizado, o meu é esse: a vida é inadiável.

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