Sempre cabe saudade

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Vez em quando aparece alguém querendo bater um papo sobre morar fora do Brasil. São normalmente conhecidos que, assim como eu, têm vontade de viver um tempo em outro país. Perguntam sobre clima, diferenças culturais, comida, dificuldades e alegrias. Minhas respostas são quase sempre subjetivas: tudo depende da experiência pessoal de cada um. O frio que quase me deixou em depressão pode ser a alegria de alguém, e lugares que eu amei podem te deixar entediado.

A única afirmação certeira que posso fazer é: quando for morar fora, você precisa estar ciente de que vai conviver com a saudade pelo resto da sua vida.

Não falo da saudade que você sentirá do transporte público que funciona bem ou do inverno rigoroso quando, depois de passar uns meses longe de casa, tiver voltado para o nosso país tropical.

Não. Existe um nó que vai amarrar sua garganta muito antes.

Talvez não no aeroporto, quando você se despedir dos seus pais; nem na primeira semana longe de casa, quando tudo for novidade. Mas um dia, quando você acordar de ressaca numa cama do outro lado do mundo, vai lembrar da padaria perto da sua casa onde comprava coca-cola gelada e coxinha quente. Vai pensar nos seus chinelos jogados em qualquer canto a milhares de quilômetros de distância e sentir uma falta imensa dessa coisa leve que é sair na rua sem ter que calçar botas de couro. E vai sentir uma saudade louca do cheiro da comida da sua mãe invandindo seu quarto no domingo.

Durante toda sua existência em outro canto do mundo, vão te fazer sorrir as lembranças dos amigos que estão longe, essa gente que dividiu anos de vida com você, e que você sabe que se estivessem ali te fariam um tanto mais feliz, por mais que você esteja vivendo os momentos mais inesquecíveis da sua vida. Você vai beber uma cerveja e lembrar de alguém que iria adorar aquele sabor. Vai assistir a um fim de tarde com o pensamento em quem sempre te acompanhava nesses momentos de contemplação; e vai ficar impaciente quando telefonar a noite e o fuso horário te impedir de completar a ligação para aquela pessoa que seria a única que poderia te ouvir naquele momento.

Isso é só o começo.

Porque então, depois que você tiver voltado para casa, calçado as havaianas, comido 32 coxinhas e agradecido mil vezes por morar no país que tem o céu mais lindo do mundo, vai lembrar de alguém que ficou do lado de lá e que adoraria comer coxinha com coca-cola sentado num bar com mesas de lata na calçada. Ao cruzar a cidade num fim de tarde, vai te bater uma saudade louca do horizonte que você deixou para trás. A saudade vai chegar quando você menos espera, e numa noite fria você vai lembrar detalhe por detalhe da decoração do seu quarto provisório naquele país que você escolheu por uns meses para chamar de casa. Vai acontecer de você refazer mentalmente o caminho do supermercado, relembrando cada prédio, pensando na casa dos vizinhos que você deixou para trás, e seu coração vai ficar miudinho quando você estiver zapeando a TV e cair numa reportagem sobre aquele lugar que por meses te acolheu.

Esteja preparado, porque morar longe vai te ensinar que sempre cabe mais uma saudade.

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