As histórias de Asphalte

fica-comigo

Asphalte (Fique Comigo), do francês Samuel Benchetrit, poderia ser um filme sobre um astronauta tentando voltar para casa depois de uma missão fracassada. Poderíamos ver desafios, sofrimento, comoção nacional e vitória.

Felizmente, é um filme que se prende aos detalhes do cotidiano; e o aparecimento de um astronauta estadunidense no topo de um prédio na periferia de Paris não é mais importante do que a paixão de um senhor doente por uma enfermeira do turno da noite.

São modos de ver o mundo. Existe a filosofia que nos conduz a acreditar que podemos todos ser herois, basta esforço e dedicação. A contrapartida é a sensação de glória, o prestígio e a certeza de ter colaborado para um mundo melhor.

Do outro lado, há a ideia de que somos carne, osso, vontades e angústias. O que nos resta neste tempo e espaço que nos coube na fatia de universo é nos ocupar com aquilo que nos cerca. Como vantagem, existe a tranquilidade de saber que estivemos sempre fazendo nossa parte. Esta segunda opção me encanta.

Gosto de ouvir histórias de grandes feitos como quem ouve sobre os trabalhos de Hércules: atos heróicos e distantes. Mas são as histórias cotidianas que despertam meu afeto.

Quando o astronauta John Mackenzie (Michael Pitt), por uma falha técnica, cai sobre um prédio de poucos andares na periferia de Paris, há algumas possibilidades. Podemos falar da Nasa, suas realizações e seus erros. Podemos falar do espaço e dos homens que se aventuram nele.  Podemos falar também de uma senhora marroquina que, ao se deparar com um astronauta batendo a sua porta, pergunta se ele é uma testeminha de Jeová e o convida para entrar. Mrs. Hamida (Tassadit Mandi) vive sozinha no apartamento, e conserva intacto o quarto do filho que está na cadeia. É lá que ela abriga o astronauta, com quem mal consegue se comunicar. Ele fala inglês, ela fala francês, e uma das poucas palavras que ambos entendem é cuscus, prato que ela prepara alegremente para o visitante.

Em outro apartamento, Sternkowitz (Gustave Kervern), sentado em uma cadeira de rodas, fotografa o céu para mostrar mais tarde as imagens para a enfermeira (Valeria Bruni Tedeschi) por quem está apaixonado.

Um astronauta que caiu do espaço é só mais uma pessoa naquele prédio velho na periferia de Paris, onde uma atriz desempregada desempacota a mudança diante dos olhos de um adolescente curioso.  No lugar dos grandes feitos, a poesia cotidiana e a vida de quem merece ser lembrado mais do que os herois: as pessoas.

Advertisements

2 thoughts on “As histórias de Asphalte

  1. Pense numa vontade que fiquei de ver esse filme! 😀
    Ando gostando bastante desses filmes que nos fazem manter os olhos abertos para o “nós” e não nos esquecemos da sociedade, dos outros, por mais que o “eu” em toda sua complexidade também mereça atenção e respeito. Tem um bom tom de comédia aí, né? Deu pra sentir, hehe!

    Lembra um pouquinho a premissa de Room, em que cada um tem sua história, mas aparentemente sem o lado sombrio (mesmo sendo este realista em suas possibilidades). Até comentei no Kinócio — passa lá! 😉

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s