Empatia não respeita gramática

saramago

“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”, disse Saramago, em um texto em que fala sobre seu avô. Eu me inspiro nele quando digo que uma das mulheres mais inteligentes que conheço é minha avó, que sabe escrever muito pouco. Ela fala com muitos erros, mas tem uma cabeça incrível.

Ser letrado é fácil para quem nasceu com condições mínimas de vida. Basta ir à escola, ler a cartilha, juntar as letras. Ter estudo é simples: basta decorar fórmulas, fazer os exercícios propostos nos livros didáticos, ouvir o professor e passar de ano (onde a progressão continuada ainda não chegou). Decorar, no entanto, é diferente de saber pensar. E embora ir à escola seja fácil, ainda não é acessível para todos os brasileiros.

Existem atualmente no Brasil 13 milhões de analfabetos, o que dá cerca de 8% da população, de acordo com o IBGE. Os motivos que levam essas pessoas a não frequentarem as salas de aula vão além da boa vontade. Minha avó, por exemplo, parou de estudar porque precisava trabalhar.

Outra pesquisa revelou que desses 92% de letrados, são poucos, muito poucos, os que sabem interpretar textos: cerca de 8% da população brasileira. Ou seja: ser alfabetizado, no Brasil, não é sinônimo de ter capacidade de compreensão.

Tem um estudo – esse não lembro onde vi –  que diz que ler livros de ficção torna as pessoas mais empáticas. Quando nos colocamos no lugar do personagem, trabalhamos nossa capacidade de empatia. Mas somos poucos leitores, apesar de sermos muitos que sabemos ler. A empatia vem do convívio com o diferente e, de acordo com a pesquisa, da leitura. Nos dois, ficamos devendo.

O sistema educacional brasileiro nos força a conviver entre iguais. O ensino público é falho e o particular custa caro. Com essa fórmula, fomos aos poucos criando um muro que coloca de um lado gente pobre com ensino de baixa qualidade; e de outro gente rica ou remediada com acesso ao ensino melhor. Mas eu estou falando de ensino, não de educação. Estou falando de decodificar letras, não de compreender o mundo; e de resolver fórmulas, não de entender o outro.

Como as pesquisas nos mostram, saber escrever corretamente não é sinônimo de capacidade de compreensão. No entanto, parece que a valorização dos letrados é muito maior do que a valorização do pensamento.

Ser médico no Brasil ainda é para poucos. A mensalidade das faculdades particulares de medicina custa dinheiro suficiente para alimentar uma família. Para entrar nas públicas, só com ensino pesado: escola particular e cursinho, que também custam caro. São poucos os que fazem outro caminho. Quando um jovem que veio da escola pública é aprovado em medicina, ele vira notícia. Porque é exceção.

Nesse cenário, é provável que haja nas faculdades de medicina jovens que vivem uma realidade distante da que se passa nos cantos mais pobres do Brasil. Como o jovem médico que por inocência, arrogância ou falta de empatia (os três, talvez) decidiu debochar publicamente de um paciente. Num papel, ele escreveu um erro cometido pelo paciente – “peleumonia”- fotografou e postou no Facebook.

Nos comentários da matéria sobre o caso, fica claro o quanto ainda valorizamos o diploma, acima do respeito. Alguém dizia “O mundo é assim, o cara é medico e voce analfabeto, asseite isso e vai estudar! chega de mimimi e reclamar que riram de você!”. Asseite.

Elogiam o médico, humilham o paciente. Os comentaristas, eles também com o português precário, entendem que quem tem diploma é sábio. Quem não tem, que se lasque.

O enteado do paciente resumiu o caso: “diploma não forma caráter”. Ser alfabetizado é fácil para quem nasceu bem. Saber pensar é difícil. Exige vida e empatia suficientes para sabermos, por exemplo, que uma piada de mau gosto pode ir muito longe. Que pode, inclusive, magoar alguém.

Inteligência mesmo, mais do que saber juntar as letrinhas e se gabar de conjugar corretamente o verbo “ser”, é compreender o outro. Ou como diz minha avó, entender que “a gente num é mió que ninguém”.

*Na foto, Saramago observando todos nós.

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