Tecendo sapatinhos

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Aconteceu tudo na mesma semana. O mundo se despediu de Elke Maravilha, do tio Gordo e da Suzy. Elke, que aparecia na TV para mostrar que há muitas formas de ser mulher e me encantava com as mãos cheias de aneis. Meio humana, meio entidade, um pouco personagem.

Tio Gordo, que era também Zé, o tio que vinha da capital num tempo em que São Paulo era um lugar distante e cheio de prédios que só existia na minha imaginação. Ele sorria muito, tinha voz bonita e se encantava com o meu universo – o sítio, as árvores, os pássaros. Vinha de vez em quando para almoços em família, trazia os meninos, passava a tarde e ia embora. Foi meu primeiro contato com a capital e se tornou, para mim, a representação da gente que morava por lá, na cidade grande.

E a Suzy, que se chamava Elizabeth, mas para mim sempre foi Suzy. Nunca me explicaram a origem do apelido, como muita coisa ficou sem explicação. A amizade entre mim e a filha dela, por exemplo. Começou numa aula de inglês. Um dia, nesses bate-papos forçados com temas propostos pela professora para desenvolver as habilidades de conversação, tive que responder a uma colega qual personagem de conto de fadas eu queria ser. Eu disse Peter Pan, a moça falou “afe”, respondi “me deixa, o desejo é meu”. Eu tive certeza de que nunca teríamos uma relação amigável.

Uma semana depois terminei um namoro longo, cheguei na aula de inglês com a cara amassada de choro e ela me convidou para uma festa. Desde então, eu e a Alita, que é a filha da Suzy, mantemos uma amizade mais baseada na confiança que na presença. Suzy veio no pacote.

Quatro anos atrás, quando ela adoeceu, passamos uma noite juntas – eu e Suzy – no hospital. Comprei bolo, pão de queijo, bombons, e fui barrada na entrada. Tive que deixar tudo num armário, três andares para baixo do quarto e abandonar o plano de passar a noite vendo TV, conversando com ela e me enchendo de carboidratos. Suzy riu todas as vezes que me viu depois disso, sempre lembrando do meu plano frustrado.

Recentemente, depois que voltei de viagem, Alita me pediu pra ir ao hospital passar uma noite com a Suzy. Eu e Alita ainda nem tínhamos nos encontrado, depois de mais de um ano distantes, e lá estava eu com a Suzy, novamente num quarto de hospital. Ela, com aparência abatida, a pele sem brilho, o rosto magro, os poucos cabelos; eu, espantada com essa fragilidade.

Suzy passou parte da noite segurando duas agulhas de crochê e tecendo sapatinhos de lã. Em poucos minutos, torceu e retorceu os fios de um novelo colorido e fez um par de sapatinhos para mim. Era para esquentar meus pés naquela noite fria, ela disse. Eu, desajeitada com a aparência dela. Ela, feliz com a minha presença e tecendo sapatinhos. Fazia dias, estava vivendo numa rotina ingrata entre hospital e casa. Era conhecida das enfermeiras e tecia sapatinhos para quem cruzava seu caminho: funcionários do hospital, acompanhantes da colega de internação que dormia na cama ao lado, amigos.

A gente vive uns bons anos sem ter que lidar com a morte. Então, começa a acontecer. O pai de um amigo, o tio, a vizinha, a professora. Outro dia, conversava com uma amiga sobre essa percepção da fragilidade da vida, e o quanto isso é assustador. Ela contou que tem evitado viajar para a casa dos pais porque ainda não sabe lidar com a avó, que de seis meses para cá tem estado fisicamente debilitada.

Tenho um amigo que fez um curso, orientado por psicólogos, sobre a aceitação da morte. O grupo fazia exercícios semanais, com a proposta de encarar com naturalidade o fim da vida. Uma vez, levaram para a aula um objeto que pertenceu a alguém que já não está mais aqui; em outra ocasião tinham que escrever uma carta para alguém que está morto.

As sucessivas mortes dos últimos dias me obrigaram a aceitar. Pela primeira vez consegui chegar perto do caixão, olhar para o rosto sem vida, colocar flores ao lado. Pela primeira vez, consegui comprar flores para levar para um morto e explicar para a atendente da floricultura, sem engasgar, que eram para um velório.

Depois de me despedir para sempre da Suzy, chorei. Chorei na hora da despedida, também. Dirigimos por uma estrada longa, minha mãe ao voltante chorando pelo tio Gordo. Eu ao lado, chorando por ele e pela Suzy. No fim, rimos entre lágrimas. Era um fim de tarde, chovia e fazia calor. Aproveitei a estrada para pensar na vida. Acho que entendi o recado, Suzy. O segredo é nunca parar de tecer sapatinhos.

***

A foto lá de cima é deste ensaio aqui.

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