15 de outubro

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Teve uma que entrou na sala de aula chupando um pirulito. Nós tinhamos 14 anos, e um dos meninos falou: professora, não pode chupar pirulito na sala!

A professora tirou o pirulito da boca, deu uma olhadinha na ponta, colocou na boca de novo e chacoalhou os ombros. Nós rimos, ela falou para pegarmos os cadernos e sairmos da sala: procurem lá fora alguma coisa para desenhar. Pode ser árvore, flor, casa. Desenhem com luz e sombra e voltem daqui 30 minutos. Ela lecionava artes numa escola da rede estadual, e eu lamentei quando mudei de cidade e tive que me despedir daquelas aulas.

Teve outra, na mesma escola, que nos dividiu em dois grupos e nos fez montar uma peça de teatro sobre aborto. Um grupo deveria apresentar argumentos em favor, outro contra. No fim, debateríamos as situações apresentadas.

Teve um que escreveu um livro, e doou um exemplar para cada aluno, com dedicatória.

Outro que, às vésperas do vestibular, passou uma tarde comigo numa sala de aula vazia falando sobre a Segunda Guerra, como se estivessemos num bar debatendo música ou cinema.

Teve uma que levou para a aula um CD da Adriana Calcanhoto e me fez pela primeira vez ouvir falar em Almodóvar e Frida Kahlo.

Outra nos fez estudar as expressões da letra de uma música do Chico Buarque.

E teve aquela que, mesmo enfrentando sessões semanais de quimioterapia, tinha forças para nos ensinar história.

Teve outra que nos levou na fazenda da sua família, onde tinha rio, árvores e insetos em vidros de conserva, e nos proporcionou aulas práticas de ciências.

E aquele que não desistiu de me ensinar matemática.

Outro que nos fez desenhar o sistema solar em escala num rolo de fita de recibo de supermercado. Ele falava de astros e anos depois, numa madrugada em que eu fazia plantão no jornal, olhei para a TV e lá estava ele, conversando com Jô Soares e falando daquilo mesmo: espaço, astros, estrelas.

Teve o que fazia paródias para nos ensinar biologia, e desenhava crustáceos na lousa.

Teve a que me fez ler poesia em voz alta, destrinchar um conto do Hans Christian Andersen e ler histórias para crianças numa creche.

Teve a tia Elaine, de quem lembro pouca coisa, mas não esqueço o nome e o sorriso, porque foi minha primeira professora. Junto com a tia Rose.

A que me fez decorar os verbos e ler Machado de Assis, o que ensinava história e falava de música, o que passava receitas enquanto resolvíamos exercícios de física.

Para eles, a gente acaba virando rostos conhecidos numa multidão de outros rostos, porque somos muitos.

Mas a gente não esquece nunca. Obrigada.

 

*E tem minha mãe, minhas tias, minha prima, minha amiga, e as outras amigas da pedagogia. Eu sou cercada de professores maravilhosos ❤

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