Sweet home Alabama

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era 1996 e o mundo, eu começava a perceber, era maior do que eu pensava. o silêncio da noite lá fora, cheiro de verão, luzes de natal, casa da minha avó. na televisão, Forrest Gump, eu sentei no cantinho do sofá, minha mãe lá fora gritando para eu ir tomar banho, eu falando “espera”, o filme começando, não era Disney nem ET, era um filme de gente grande.

minha mãe chega na sala, a luz da TV desenhando silhuetas e as janelas todas abertas, brisa de verão passando de um canto a outro, minha mãe parada na porta: esse filme demora pra acabar, hein? eu suja de terra, mas o banho podia esperar.

pés descalços, cabeça no encosto do sofá, copo de tuibaína na mão, que minha tia trouxe. de repente, eu queria chorar. chorei baixinho, enxugando todas as lágrimas, com medo de um adulto entrar e me ver chorando. as costas das mãos não davam conta do tanto de lágrima que caía, mas se eu levantasse pra pegar um pedaço de papel um adulto podia ver e como é que eu ia explicar? o filme era muito bonito, quem é que chora de beleza?

o mundo aumentando diante dos meus olhos.

é 2016 e eu e um amigo gravamos um vídeo, narrando um poema. demos um tom diferente daquele que a autora pensava quando criou. ela estranhou. nós refletimos muito sobre a liberdade da produção artística. quando escrevo este texto, recorro à minha memória. lembro da sala da casa da minha avó e de um sofá que nem existe mais, da cena do filme, e da minha roupa. você, que me lê, imagina sua sala, imagina minha face, ou de qualquer outra criança, triste ou não.

é 2016 e eu estava trabalhando em um evento, tudo de primeira, muito fino, muito chique. a banda subiu no palco e tocou Sweet Home Alabama. eu sorria para convidados, conversava amenidades: mercado, carreira, sobremesa; e me controlava para não correr para a frente do palco, gritar, cantar, pegar um copo de uísque e abraçar alguém. meses atrás, quando voltei para casa, para o exato lugar onde, 20 anos antes, chorei pela primeira vez ao ver um filme, tirei uma foto do horizonte. mato, árvores. na legenda: sweet home duartina.

é ainda 2016, vinte anos depois de eu ter chorado assistindo a um filme, e hoje encontrei uma lista com as melhores trilhas sonoras do cinema. estava lá: Forrest Gump, Sweet Home Alabama.

vinte anos depois me dei conta: é a música do primeiro filme que me fez chorar, e isso me faz gostar tanto. Forrest Gump é um filme longo, incrível, com um roteiro sensacional. ele fala de uma época, de conflitos, ideologias e relações humanas.

para mim, fala sobre voltar para casa.

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