Ela não quis

12380237983_9222f794b9_c

minha primeira lição de empatia foi um soco no estômago.

eu tinha 17 anos e algumas boas amigas. júlia era das mais chegadas. naquela época a gente se preocupava com pouca coisa, a vida era basicamente música, cuba libre, caminhadas sem rumo e cigarros de menta. eu começava a ouvir oasis, ela curtia bon jovi. eu fazia teatro, ela era dos esportes. gastávamos tempo falando do futuro, paupável e absurdo, de alienígenas aos cursos de faculdade, nota de corte da fuvest, será que estaremos vivas em 2020? coisas assim.

estávamos sentadas no meio fio, era fim de tarde, ela disse que queria me contar uma coisa, depois desconversou. fazia dias, andava triste, eu sabia mas fingia que não, porque fugir das coisas sempre foi meu jeito de lidar com elas. quando a pessoa quer, ela fala, não adianta forçar, eu pensava. deixei pra lá, pra que estragar o pôr do sol com uma conversa séria? nada poderia ser tão sério afinal, a gente tinha 17 anos e vestibular dali 3 meses.

ela entrou numa farmácia, falou pra eu esperar do lado de fora, fiquei chutando pedrinhas na rua, ela saiu com uma sacolinha na mão. olha, se eu não estiver aqui daqui uns dias, passa em casa e pega seu cd. eu ri. que é isso? bobagem.

hoje eu sei que até a leveza tem sua hora, mas ali no começo dos anos 2000 eu não sabia. um dia ela apareceu em casa com outra amiga. vamos pro quarto, a gente precisa conversar, falou. sentou na minha cama com lágrimas nos olhos. tô grávida.

eu falei: que bom, uau, que lindo, vamos ter um bebê, a gente cuida todas juntas. carol , você não tá ententendo, mariana chamou minha atenção. foi um acidente, eu não queria, eu não sabia, ele não quer, ele me deu o link de um site que falava para tomar chá de cravo com cachaça, foi tudo que ele fez.

mas a gente pode dar um jeito, vai ficar tudo bem, calma, eu te ajudo, eu pensava. não ia ficar tudo bem. o papo era sério, e eu queria brincar de casinha, de vida simples, vida linda, eu queria ter 17 anos pra sempre, mesmo que isso custasse a sanidade da minha amiga. olha, não vai dar, ela tá decidida, mariana explicou. eu ria. falei que aquilo estava errado.

depois disso, júlia viajou. eu ouvia cartola dia e noite, “ainda é cedo, amor, mal começaste a conhecer a vida…”. nessa época, fiz uma prova de teatro, cantei alto essa música, não passei, reconsiderei o futuro, pensei em júlia e ela não voltava. perdeu todas as provas, mandou poucas notícias, um dia reapareceu. contou da dor, do sangue, do médico apático que perguntou se ela queria ver o feto, do medo e do que seria a vida dela dali pra frente.

arrumei uma festa, espairecer ia ser bom. ela saiu correndo do salão. corri atrás, encontrei ela do lado de fora, encostada numa parede, vomitando. era assim, ela explicou, um trauma. lembrei dos vídeos que as professoras nos enfiavam goela abaixo, fetos destruídos, sangue, mulheres desmaiadas, objetos de tortura. então era isto: minha amiga precisava de ajuda. porque na hora de encher nossa cabeça de culpa, a sociedade apresenta suas armas: bíblia, lei, moralismo. mas certeza de que, optando pelo sim, seguiremos normalmente nossas vidas, concluíremos nossos planos, isso aí ninguém garante. menina que dá tem mais é que que sofrer.

o universo alheio é terreno incerto. nem para nós a coisa é certa, de repente vem a vida e muda tudo. hoje eu sei que naquele dia, sentada na calçada, ela queria ter certeza de que eu estava pronta para ouvir. eu queria que minhas crenças fossem verdade universal e que o mundo seguisse sendo um lugar onde a maior preocupação é com a prova no fim do ano, mas eu tive que abrir mão.

anos depois, já trabalhando num jornal, fiz uma matéria sobre a facilidade de se obter pílulas abortivas. é possível encomendar pela internet ou comprar em camelôs. a vendedora ainda aconselha: na hora que doer, você tem que aguentar o tranco. não pode contar pro médico o que você fez, senão dá problema.

se tem venda, é porque tem demanda. não são mulheres criminosas. são adolescentes sem rumo, mulheres adultas sem dinheiro, negligenciadas, abandonadas, confusas. que precisam de quem as ouça. mas enquanto a gente continuar tratando como caso de polícia ou coisa de outro mundo, ninguém vai se sentir a vontade para falar.

não dá para ter 17 anos pra sempre, infelizmente. a vida exige sensatez e peito aberto.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s