Sobre ser irmã mais velha

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já contei essa história, mas vou repetir. certa vez minha mãe sumiu por três dias. voltou com um bebê, que me chamaram para ver. eu esperava menina, e quando vi a roupinha azul fiz cara feia e voltei pro quintal.

ser irmã mais velha é assim, a gente vai desde cedo lidando com decepções. primeiro, porque da noite pro dia nada mais é só para nós. depois, porque haja paciência. é choro, brinquedo quebrado, e um dia ele jogou pela janela as minhas bonecas de porcelana por pura diversão.

é mordida na coxa quando a gente está distraída assistindo desenho e ele quer treinar os dentinhos que acabaram de nascer. é amar e odiar, porque a gente não aguenta mais ouvir o próprio nome gritado por aquela vozinha estridente e fica querendo dar uns tapas quando a mãe não vê, mas o filho do vizinho que não ouse relar um dedo.

é cabaninha na sala, puxão de cabelo, video game quebrado e alguém para levar a culpa. briga que ninguém sabe onde começou, tapa, grito, mordida e silêncio absoluto quando o pai chega.

carinho dividido quando tem mais uma, pequena, e de repente a gente se sente madura porque agora quem sente ciúmes da nova criança é ele. e a nova criança começa tudo de novo, as mordidas, o choro inconveniente, os brinquedos quebrados, a vontade de dar uns tapas mas ai do filho do vizinho se ousar relar um dedo.

é na marra aprender a dividir chocolate, cama, travesseiro, colo, televisão, controle de video game, segredo. e multiplicar atenção e paciência porque eles caem, se quebram, perdem e quebram coisas. é também entender que idade é só data no calendário, porque as vezes quem chora, quebra e perde coisas é a gente, que nasceu antes mas nem por isso sabe de tudo nessa vida.

é piada que só a gente entende, decepção porque as ideologias não batem, piercing que a mãe não sabe, tatuagem escondida e se você não contar eu também não conto. haja lição de pilantragem, flagra, ameaça, formação de quadrilha e delação premiada.

é abrir caminho, porque irmão mais velho é, via de regra, o primeiro a tomar um porre e envergonhar os pais, trazer namorado pra casa, querer dormir fora e viajar para longe. os outros já chegam já com tudo amaciado.

é também ter que ser exemplo, mas não ser exemplo algum. é interceder em favor da viagem com os amigos, ele merece mãe! e policiar as liberdades porque comigo não era essa moleza, vocês mimam demais.

e ser zelo e carinho. um dia, quando a gente vê não tem mais video game para dividir, cada um tem o seu canto, sua casa, sua vida, e não sobra espaço para brigas quando se encontram porque o tempo é curto. então, são telefonemas, você lembra onde ficou aquele disco?, vem passar o natal, manda fotos da viagem, cuidado na estrada, peguei seu livro emprestado, devolve minhas roupas.

é sobretudo orgulho, porque de repente a gente está no meio de uma multidão numa sala de cerimônia, alguém falando no microfone umas palavras bonitas enquanto ele vem andando em nossa direção vestido de azul mais uma vez, azul e preto, agora com um sorriso no rosto e um diploma na mão, a gente olha com brilho nos olhos e pensa que as crianças cresceram.

***

a foto é do filme The Darjeeling Limited.

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