Black mirror e a morte

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o ano tá acabando, mas antes de falar de natal e planos para 2017 eu quero falar da morte. na verdade, de black mirror e da morte, porque ambos foram muito presentes em 2016. a morte porque ela é sempre presente. e black mirror porque isso tudo é muito black mirror, mêo.

ontem numa livraria encontrei um dicionário de psicanálise e sonhos. parei numa página que dizia que a criança, quando sonha que alguém morreu, é porque quer que essa pessoa desapareça. ela não entende da morte e suas implicações. até certa idade, a criança sabe apenas que morrer é desaparecer.

mais tarde, passa a perceber que morrer é desaparecer para sempre e para todos, de modo trágico ou não. quando cheguei nessa fase da vida, de compreender o sentido amplo da morte – eu devia ter uns 11 anos, pelo que lembro – eu pensava: não é possível que eu vou morrer um dia.

não fazia sentido. eu tinha que ir à escola toda manhã, de uniforme e cabelo penteado, estudar, fazer provas, responder pra gente adulta o que é que eu quero ser quando crescer, pensar em futuro. e pra isso: morrer.

era ridículo.

vivi então anos da adolescência pensando que eu não deveria me preocupar com a morte porque quando chegasse a minha hora a ciência já teria evoluído a ponto de ninguém mais morrer. ufa.

cresci e entendi que, se a gente não morre, isso aqui vira um caos. a comida acaba, a terra superaquece, vêm os maremotos, tudo isso que a gente sabe que pode acontecer a qualquer instante porque nosso mundo está cheio com gente que suga todos os recursos e energias e joga lixo na rua.

pensei: ok, vamos fazer tudo isso mesmo, todas essas festas de formatura, batizados, cursos de pós graduação, e morrer. segue o baile.

e aqui estou eu, ser vivo nesse mundo em busca de prazer e distração e que, ciente da morte, come chocolate, namora, dança e assiste séries no netflix. a da vez foi black mirror. para quem não viu, recomendo. tem uns episódios muito bons, e o el país fez uma lista dos melhores, embora eu discorde dessa ordem.

o lance é que dois episódios mexeram comigo porque eles falam disso mesmo: morte. ou uma possibilidade de vida eterna. o episódio be right back traz o ponto de vista de quem fica aqui, vivendo, enquanto alguém querido morreu. uma moça grávida e recém casada perde o marido num acidente. sofrendo com o luto, ela recebe uma proposta de aplicativo que, com base em tudo o que o marido fez em vida no universo online – fotos, textos, mensagens de voz, vídeos – cria um programa que reproduz falas dele. eles podem conversar por telefone e tudo mais. tipo o filme her, só que com uma personalidade que já existe, tudo mapeado e simulado para tapear a ausência definitiva. é interessante para pensar coisas bobas como, por exemplo, o quanto as pessoas podem ser substituíveis – ou não. ou o quanto somos carentes e precisamos de conforto perante a morte. ou ainda, o quanto não sabemos lidar com ela.

o outro episódio, e este é o meu preferido, é san junipero. eu não quero dar spoilers, mas garanto que se você tem coração mole, vai chorar. o roteiro gira em torno da possibilidade de se manter a consciência viva, mesmo depois da morte do corpo.

outro dia li uma matéria muito bonita sobre o segredo da felicidade dos moradores do butão. as pessoas desse pequeno país asiático são felizes – ou menos tristes que a gente – porque lidam com a morte de forma natural. é parte da vida.

coisa que por muito tempo me neguei a entender.

mas voltando ao black mirror, o que achei interessante nesses episódios – além de outras coisas – é que eles trazem para a morte uma saída que eu, nos meus anos de negação, nunca pensei (também porque lá nos anos 90 não vivíamos tanto junto da tecnologia, inteligência artificial e tudo mais). a proposta agora parece óbvia: se um dia existir vida eterna, talvez ela parta da desvinculação entre corpo e consciência.

antes de black mirror me trazer essa nova possibilidade de vida eterna, eu gostava de pensar a morte como pensa chicó, personagem de o auto da compadecida. diante de uma cachorrinha morta, ele diz:

cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.

se a contemporaneidade for mesmo todo esse black mirror, talvez um dia tenhamos acesso à vida eterna, mas ela vai custar dinheiro e chicó vai estar errado. nem mais a morte vai ser aquilo que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados, porque, a não ser que vençamos a desigualdade social, vai ter gente sem dinheiro para gastar com aparatos tecnológicos que abrem as portas da eternidade. a vida eterna, se um dia existir, vai ser só para quem pode pagar.

e eu nem queria mesmo.

 

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