um lapso

art-broken-explosion-glass

pegamos engarrafamento voltando da praia. do meu lado esquerdo, o sol baixava na lagoa. dos males o menor: a estrada passa lenta mas há céu bonito pra distrair.

sobre o asfalto, invadiu meu campo de visão a causa do congestionamento: debaixo do plástico preto, o corpo da mulher atropelada, do mesmo jeitinho que caiu perto do canteiro central da rodovia. uma perna ficou pra fora da lona escura, o pé calçado com chinelinho branco, desses que a gente bota pra ir até ali e já voltar.

um absurdo a morte repentina, um despropósito, uma bobeira. saiu pra comprar o queijo ralado do macarrão da janta, coisa rápida, na vendinha do outro lado da pista, nem precisa andar mais 50 metros até a passarela, a comida esfria, corta pela pista mesmo. distraiu, tropeçou, morreu. em casa, alguém vai ficar sem queijo, sem jantar, vão ter que correr atrás de burocracia, ligar no trabalho, funerária, atestado de óbito. daqui uns dias, vai sobrar pra alguém fazer o que ninguém quer: juntar as roupas, vender, doar, jogar no lixo. tudo por causa de um queijo ralado, de uns 50 metros, de um tropeção, um chinelo mal colocado, um motorista distraído, uma criança que chorava no banco traseiro, um lapso, porque a morte não é o monstro escondido debaixo da capa preta de foice na mão, ela é uma lagartixa que te puxa pelo calcanhar e te derruba debaixo do pôr do sol no fim de tarde de uma segunda-feira.

Advertisements

One thought on “um lapso

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s