Aos 20, aos 30

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Eu sei, é clichê fazer texto comparando como éramos com tal idade e como somos agora. Mas é esse o primeiro aprendizado: aos 30, a gente já assumiu que tá tudo bem gostar de clichês. Aliás, tudo bem gostar do que quiser, inclusive de Justin Bieber, coisa que eu jamais assumiria quando tinha 20 anos e perdia tempo tentando parecer descolada. Hoje, eu não perco tempo nem pra lavar louça.

Porque com 30 eu entendi que o tempo passa, a barriga aumenta e as costas doem, então comecei a beber menos, troquei a cerveja barata pelo vinho mais ou menos caro (às vezes), e faço o que posso pra evitar ressaca (quando lembro). É triste, mas é verdade: aos 20, a gente rebate a ressaca com cachaça, isso quando tem ressaca. Aos 30, a ressaca dura 3 dias e a gente aprende a fazer suco desintoxicante ou sopa de cenoura com gengibre (quem quiser a receita chama inbox) pra dar uma aliviada no estômago, na dor de cabeça e no resfriado que aparece depois do porre. E falando em otimização da farra, a gente também preza pelo conforto quando chega aos 30. Eu não saía de casa sem salto alto quando tinha 20 anos. Hoje, se o evento não permite que eu entre de sapatilha eu nem vou.

Com 30, conforto é tudo e a calça de ginástica é peça essencial no meu armário, apesar de eu passar longe da academia, porque não adianta: não emagreço mais. O bom é que eu não ligo mais pra isso. Aos 20, vivia tentado fazer dieta, aos 30 eu não tento. No entanto, por uma incrível ironia do metabolismo, aos 20 qualquer mudança na rotina me fazia perder 3 quilos em dois dias, mesmo com a dieta baseada em batata frita e chocolate. Aos 30, eu posso mudar de apartamento, carregar todos os móveis nas costas escada acima e me alimentar só de arroz integral por 5 dias que não perco mais que 300 gramas.  A gente começa a entender de culinária e aprende que miojo é uma porcaria, mas o problema não são os quilos extra que o excesso de sódio vai trazer: é que a gente quer ter saúde. Os quilos, alias, estão ótimos, obrigada. A consciência aumenta, o paladar melhor (gente, sério, Mc Donalds é muito ruim) e a experiência acumulada, nessa altura da vida, já permite que a gente se vire bem na cozinha. 30 anos é menos estética e mais saúde. Menos porque tem que ser assim e mais porque isso é bom pra mim.

A gente se aceita e tudo bem, e se o cabelo amanheceu te transformando num cosplay de Beakman, paciência. Aos 20, eu tinha chapinha, baby liss, e gastava grana com escova progressiva de chocolate marroquino ou qualquer coisa que me dissessem que deixa o cabelo mais bonito. E ainda morria de medo de ousar, cortar demais, mudar. Aos 30, se o cabelo não tá legal o problema é dele. A gente muda mesmo. Corta, pinta, renova e, se ficar feio, é estilo.

Porque o que acontece quando a gente chega aos 30 é que, como eu disse, a gente entende que o tempo é limitado, e nessa correria para pagar contas e ser feliz não sobra espaço para preocupações com o que esperam que a gente seja. A gente quer curtir os amigos, almoçar com a família no domingo, comer coxinha com tubaína e assistir Netflix com um gato gordo deitado no nosso pé.

Quando eu tinha 15 anos, imaginava que aos 20 estaria casada. Quando fiz 20, me via aos 30 assim: bem sucedida, com filhos, casa própria e carro. Os 30 chegaram e eu parei de pensar nisso tudo e tenho certeza que foi melhor assim: sem casa, sem carro, com carreira incerta, umas fotos bonitas nuns lugares interessantes e um gato gordo que esquenta meu pé no inverno enquanto assito Orange is The New Black.

***

Escrevi esse texto faz um tempinho pro Projeto Solo.

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3 thoughts on “Aos 20, aos 30

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