bustiê

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hoje minha avó falou piruá. fazia uns 10 anos que eu não ouvia essa palavra. ela disse que minha tia não sabe fazer pipoca, botou um pacote inteiro de milho na panela e só saiu piruá. minha avó reverteu o caso e tivemos muita pipoca. eu, que nem com vontade estava, fui comer por causa dos piruás, que depois da magia da cozinheira-chefa eram poucos. mas é que o assunto despertou vontade.

piruá é coisa que eu ouvia quando criança, igual cafona e bustiê. eu gosto de coisa velha. palavra, objeto, casa. moro num apartamento antigo, desses de cômodo grande, varanda, pé direito alto e traça. tenho um monte de velharia. semana passada resgatei um bule que era do meu bisavô.

e de receita velha, gosto muito. coisa tradicional, de família. arroz de mãe. vocês podem me apresentar um milhão de bolos de coco e eu posso amar todos eles de formas diferentes, mas tem um bolo de coco que é O bolo, o que deu origem a todos os outros, e esse é minha avó que faz desde quando o meu mundo é mundo.

foi por isso que, hoje, vi falhar mais uma tentativa de ser vegana. minha mãe fez pizza de calabresa e vocês sabem: pra comida de mãe não se diz não.

continuo entusiasta do movimento, mas entendo minhas limitações: coração fraco e estômago forte. sorte que dia desses descobri o termo flexitariana. é essa gente que quer ser vegana, mas que não consegue ser tão vegana assim. que abre mão do bife todo dia mas sente dor no peito só de pensar que nunca mais comerá uma paella de frutos do mar. gente que tá nem aí pra sandália de couro, que se importa com o bem-estar animal e o futuro do planeta mas deus me livre nunca mais nessa vida comer um espetinho de panceta

parece bobagem inventar uma palavra pra definir gente que não tem tanta força de vontade. preguiçoso já servia bem, você pode pensar.  eu mesma cogitei isso. depois conclui que a palavra me contempla, sim. tá tudo ali no texto que linkei. vai além de dedicação, é coisa espiritual, de consciência de finitude da vida e medo de escolhas drásticas (vamos colocar uma explicação profunda para justificar nossas fraquezas, sim!). então ficamos acertados: sou flexitariana.

porque eu também gosto de palavra nova. menos body, que é maiô. e food truck, que, por favor, é trailer. 

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