in between days

JulienMauve-LonelyWindow-5

enquanto a dor não passa, a gente chora nos ombros de quem tiver um pedaço de pano ou de pele para oferecer, e acorda no meio da noite falando coisas sem sentido, sentindo medo, angústia e saudades. a gente sonha, acorda e não se acha.

você faz da minha casa sua casa, dos meus travesseiros os seus, e se encaixa debaixo do meu edredom enquanto a dor não passa. a gente conversa, se olha e entende dessa profunda solidão. enquanto a dor não passa a gente anda pelas ruas frias com o olhar perdido em algum ponto que vai além do mundo tangível. a gente se abraça, respira, relaxa, mas não esquece.

a gente vira a madrugada vendo filmes, comendo pipoca, chocolate, bebendo copos e copos de café. a gente traga cachaça, cerveja, farinha, fumaça, qualquer coisa que espante a dor que não passa. a gente procura horóscopo, budismo, yoga, meditação, hare krishna e reza. a gente trabalha e descansa, dança e esquece do mundo e finge não haver dor alguma até abrir os olhos e lembrar que a dor custa a passar. a gente telefona para a família para ouvir alguma voz conhecida e serena que sirva de acalanto. a gente queria estar mais perto, a gente deseja que seja tudo farsa, que não exista dor, que o tempo volte, que tudo isso se desfaça. a gente vai a restaurantes, festas, bares, e esquece a carteira em cima da mesa. a gente vira a noite na rua, na calçada, na farra, e se entrega a qualquer um que se encaixe num vazio confuso e ampliado pela dor que não passa. a gente perde o casaco, o telefone, o dinheiro, os documentos, a gente se deixa e tenta não ser mais a gente enquanto essa dor não passa. a gente planeja viagens, pensa no futuro, compra roupas, corta o cabelo, decora a casa. termina um livro e começa mais dois, estuda inglês, pensa em mudar de país, de vida, de destino. a gente vai dançando com a dor que não passa, fazendo e sentindo e vivendo e levando e criando, porque ela dói no peito, na alma, mas a gente sabe que se não tivesse dor não teria graça.

 

*Este texto estava no blog antigo. É de 2015. A foto é, outra vez, de Julien Mauve

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2 thoughts on “in between days

  1. “a realidade e a ficção ficam ao gosto do freguês”. Compreendo ao ler este texto. E ainda brinco: enquanto a dor não passa, a gente vai caçando textos e encontrando pérolas como o teu blog. Obrigada pela catarse! Sigo te lendo.

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