All posts by carol

caminhando, me senti em casa

DSC04344

a filosofia é a saudade-ânsia de se sentir em casa em todos os lugares. foi a primeira coisa que eu li depois de deixar a mala no chão do primeiro quarto onde morei depois de sair da casa dos meus pais. letras pretas num papelzinho amarelo grudado na porta do quarda-roupas de uma das minhas colegas. éramos 6, cada uma com sua cama naquele mesmo quarto grande de beliches e azulejos.

no começo vai ser agitado, tanta gente nova, mas quando você deitar na cama e olhar para o teto vai te bater uma solidão, tinha dito meu pai.

a frase do guarda-roupas da minha colega me salvou dos olhos vidrados no teto dentro do silêncio que faz um quarto de pensão quando todos já dormiram; e virou, dali pra frente, o lema que eu antes não sabia expressar. é parte de mim essa saudade-ânsia de me sentir em casa em todos os lugares. as vezes, esses lugares são pessoas.

foi esse lugar, por 7 dias, o solo sertanejo de minas gerais. não há forma mais fiel de estar no mundo do que andando sobre ele com os próprios pés, embrenhando-se no que cresce do chão e conversando com quem habita estas terras. eu estive em casa em tantos lugares nesses 7 dias. na terra vermelha que manchou para sempre minhas meias brancas, na água fria que aliviou meus pés machucados, na areia que antes foi rio e serviu de leito perfeito para minhas costas cansadas. estive em casa sob o teto de gente que, gentilmente, abriu as portas para nos receber. estive em casa olhando nas paredes retratos de pessoas que nunca vi, provando sabores que não conhecia, como doce de buriti e suco de araçá. estive em casa dentro de uma barraca que por 7 dias foi, de fato, minha casa, e aprendi o melhor jeito de arrumá-la, aceitando que areia não é sujeira. saudade-ânsia é resignificar o mundo, afinal, e olhar para as coisas como se já tivessem sido e como se nunca fossem ser. desmontar tudo, abrir espaço no peito e entender que nada é certo (nem o hábito de escovar os dentes, que, afinal vem antes ou depois do café?). então, eu estive em casa tomando banho frio, eu que amo água quente. e estive em casa comendo rapadura quando bateu a fome, eu que nunca começo uma refeição pelo doce.

estive em casa, com peso e sem poesia, em meio à vasta plantação que desvia água de quem precisa, porque é também minha casa esse país imenso e injusto. senti desejo de que fosse minha casa para sempre a casa de sêo romualdo, que planta mandioca e faz, no fogão à lenha com ajuda da família, a tapioca e o pão de queijo e avisa, quando está acabando que já já tem mais.

e me senti em casa, tão em casa, nas gentes que andaram comigo. é um mundo vasto e cheio pessoas de todo tipo, mas algumas dessas são mais um pouco do que a gente mesmo é. gente de ofícios, gostos e rostos diversos com o comum ansiar de dispor de tempo para o desconhecido. uma colega de caminhada contou que, naqueles 7 dias, era a primeira vez que ela vivia completamente no presente. outro comentou que poderia estar em outros tantos lugares, mas estava ali, por escolha. eu me senti em casa quando percebi que gente fazendo o que escolheu fazer, agente, ciente, buscando e desafiando, faz coisas lindas como que por natureza, como cantar e cuidar do outro.

considerei que talvez seja esta minha função no mundo: buscar meu lugar nele, mesmo sabendo que ele é em todo canto.

 

*para saber mais sobre o programa: O Caminho do Sertão. em breve, postarei textos lá no medium

Chuva

chuva-conto

A primeira gota caiu certeira na folha grossa da árvore, fez barulho de coisa rasgando. As outras, espatifadas no chão, levantaram do asfalto o cheiro morno. Limpando com a mão a primeira gota da testa, engoliu seco: havia saído sem guarda-chuva. Encarou a rua escura, soltando o ar pelo nariz: quanto se molharia no caminho dali até o toldo? Encostada ao muro, foi pouco a pouco ficando com as roupas encharcadas. Logo ele chega.

E chegou. Abriu a porta do carro, deu um beijo e riu.

Pensava que já era o quarto dia que chovia sem trégua. Por isso, talvez, merecesse não ir trabalhar hoje. O chefe entenderia? Não, ele não entende nada além de números. Calçou os sapatos. Soubesse que choveria tanto teria comprado as galochas. Horrorosas, mas de serventia numa hora dessas. Seria o caso de uma capa de chuva?

De segunda a sexta-feira, por volta das 8 da manhã, descia sete andares até a portaria, sorria bom dia, atravessava a rua, caminhava por dois quarteirões e esperava o ônibus. Nestes dias, a chuva irritava mas era gostoso observar a enxurrada, aquela água toda, as gotas caindo grossas uma a uma no metal da cobertura do ponto de ônibus. Então falava oi para o motorista, ignorava as vozes estridentes dos adolescentes-office-boys já cedo a rir, achava graça na despedida simpática do motorista “fica com deus, minha filha”, caminhava por três quarteirões e meio, chegava ao escritório às 9 em ponto.

“Essa chuva, olha, tá difícil, desisti de lavar as roupas, ainda bem que na esquina de casa mesmo tem uma lavanderia”, e os colegas não respondiam. Ninguém responde, esse pessoal é assim, só se empolga com suposições e maldizeres sobre a vida alheia.

Passadas as sete horas de trabalho, de novo a mesma coisa. Deixar o prédio do escritório, caminhar por três quarteirões, dobrar a esquina, passar por baixo da árvore de folhas grossas e chegar à papelaria onde ele sempre a encontrava em seu caminho de volta.

Esperava, agora observando as gotinhas que escorriam pelas folhas grossas da árvore e pingavam no asfalto. Pela esquina, cruzando a rua, todo dia passava um homem de bicicleta, e ele era indiferente àquela água toda: desde o primeiro dia seguia sem capa de chuva. As mãos do guidão molhado, os pneus finos fazendo ondas nas poças d’água, a camisa pouco a pouco colando ao corpo úmido.

Entrou no carro, ganhou dele um beijo, jogou no chão o guarda-chuva.

Sentado no sofá, na hora do noticiário, foi que ele falou meio assim se divertindo “olha, esse negócio de guarda-chuva… pra que isso?”. Como pra quê, se chovia há quatro dias, incessantemente, agora mesmo podia ouvir na janela as gotas batendo, amanhã certamente seria mais um dia de olhar a enxurrada escorrer pela rua e mais tarde ouvir as gotinhas no toldo da papelaria enquanto um rapaz passava sempre ao longe de bicicleta, nunca com capa de chuva, sempre a se molhar, devia morar por ali e gostava de chuva na volta pra casa depois do expediente, vai saber, vai entender essa gente.

O olhar dele vagou pelo teto, depois foi fundo nos olhos abertos diante dele, as mãos tocando de leve a coxa dela: o que tá acontecendo?

Eu é que te perguntou, ela falou, sem desarmar o sorriso. Ele esfregou a mão sobre a coxa dela e caminhou até a sacada: vem cá.

Ela encostou no parapeito, esticou o braço e reparou nas gotas estalando sobre a pele. Riu. Como não? Aquilo a escorrer era o quê? Olha cada pingo grosso. Lá embaixo, um casal caminhava pela rua escura. Nenhum deles se escondia debaixo de guarda chuva, num clichê romântico. Passou uma senhora com uma sacola de compras, e mais uma mulher segurando pela coleira um cachorro, com o capuz do moletom sobre a cabeça. Ah, olha lá! E insistiu que de repente o mundo havia mudado, as pessoas, vai ver, algumas delas, queriam aproveitar a chuva.

Ele juntou as folhas de jornal espalhadas pelo chão no canto da sala, entre outros jornais de outros dias, desajeitado procurou estre as páginas e voltou ao lado dela, apontando os desenhinhos de pequenos sóis na segunda, terça e quarta-feira. Olha: até na previsão. Ela apoiou o corpo contra o parapeito mais uma vez e ainda pôde ver a mulher com o cachorro virando a esquina, as gotas deveriam manchar o moletom cinza, se morassem três andares para baixo poderia ver, mas dali era impossível. Parado agora um passo atrás, ele mantinha a expressão de quem derruba café na camisa limpa 30 segundos antes da reunião. Esperou ela falar, mas ela não falou. Olhou de novo a água escorrer pela rua, se acumulando em pequenos lagos na esquina de baixo.

Quer ouvir esse conto? Clique aqui

Para ler outras coisinhas minhas chega no medium 😉

Devagar se vai longe

rose-dying-flower

Dias de longas horas arrastadas, outros de piscar os olhos e já ser breu. As manhãs de sol serviam para a roupa no varal, todas as outras eram tempo para dar de beber às plantas e cortar, descascar, ferver, mexer com o almoço.

Quando chovia, o céu se armava num cinza senhor do mundo, espalhando bolor em cantos de parede a ponto de se sair ao quintal segurando punhado de sal em pedido à Santa Clara. Fiou-se com olhar e paciência uma colcha de retalhos feita de dias sequenciados, uns de nuvens, outros tantos de panos brancos secando à sol e brisa. Entre o de se manter e o esperar, havia espaços para observar passarinhos juntando palha na quina do forro da varanda em cima da madeira. Trazia no biquinho os gravetos, depois amuava-se. E lagarta enrolando ela mesma em casulo de seda. Como será que a lagarta conta os dias, se em tão pouca vida minha ela vive duas ou três? Meu tempo, perto dela, sobra.

Resto de tempo é vida, chance de a gente se entender com a sutileza ou dar nome diverso para cada flor. Universo manda sinais, por exemplo: quando chega sorrateiro pela janela da cozinha o cheiro do amaciante da roupa no varal ali por volta do meio dia é que vem chuva de tardezinha. Em maio, formiga faz fila no quintal carregando folha na cabeça, ou qualquer migalha. Setembro a cigarra se estoura de cantar. No observar é que a gente se faz.

Que os primeiros versos assim foram: depois de uma vida. Na folha em branco, caíram por letra as coisas vistas. Ninguém faz poema de véspera.

Casa, memória e Rita Lee

casa

estou lendo “uma autobiografia”, da rita lee. ela inicia o livro de memórias – aleatórias e narradas com despretensão – descrevendo o casarão onde foi criada, na vila mariana, em são paulo. escada, quadro na parede, banheiro, tudo é rememorado em detalhes.

na sala da casa dos meus pais tem um espelho grande, emoldurado em madeira escura, pendurado sobre um aparador de madeira também escura. minha mãe conta que quis reproduzir naquele canto um pedacinho da casa onde moramos por 15 anos, em dois córregos, interior de são paulo. era uma casa com janelões de vidro voltados para a rua, de onde víamos as duas árvores grandes da calçada, os carros e as pessoas que passavam. não havia portão atrapalhando a vista, somente um portãozinho de madeira, mais baixo que as janelas.

o cantinho do espelho ficava num hall em frente à porta da cozinha, no início do corredor que dava para os quartos. entre uma sala e outra, tinha uma porta dupla de madeira, com mecânica de portão de saloon de filme de faroeste, que a gente empurrava teatralmente com as duas mãos, escancarando a abertura e dando tom triunfal à entrada na sala de visitas, onde ficava o rádio e um quadro grande e colorido – os músicos do central park era o nome da obra, que meu pai ganhou de um amigo  – enquanto as portas se fechavam às nossas costas, balançando. esses e outros detalhes, como o telhado da edícula ao fundo, facilmente acessado pelo muro lateral, onde eu e meu irmão subímos algumas vezes para admirar o céu, foram se desenhando na minha memória enquanto eu lia o relato da rita – que até o final do livro estarei chamando de amiga.

era uma casa grande, cheia de coisas que já estavam lá quando chegamos, como o espelho e a porta de madeira, e outras que trouxemos: quadros, móveis, marcas de pés nos muros usados de apoio para as escaladas. na casa onde meus pais vivem agora, eu nunca vi a mesa da sala totalmente arrumada. tem sempre papéis, vasos de planta, fotos e objetos dos mais diversos esquecidos por ali. no barzinho – aqueles de canto de sala de estar – sempre falta uma taça, que é frequentemente encontrada suja sobre a mesa da cozinha, com um restinho de vinho manchando o fundo. onde moro, o cinzeiro nunca está vazio e os livros se acumulam em pilhas sobre os móveis. é natural que, onde há gente, coisas se acumulem, quebrem, sejam transferidas de um canto para o outro. as casas moldam-se às vidas que transitam por ali. a gente é feliz quando e também é feliz onde, e felicidade de gente deixa marca em pessoas e lugares.  depois, vira tudo memória pra gente fechar o olho e lembrar do balcão da cozinha onde, encostados, jogamos tanto conversa fora.

esqueci de pessoas, festas e datas, mas lembro com detalhes dos ambientes onde vivi bons momentos, como as telhas da varanda da casa da minha avó, com a inscrição em alto relevo: são sebastião, que era o nome da olaria.

anos depois, quando voltei a dois córregos, quis passar em frente à casa do portãozinho de madeira. minha amiga advertiu: tem certeza?

seguimos em frente e demorei uns segundos para entender: as janelonas de vidro estavam totalmente escondidadas atrás de um portão alto, branco e metálico. a casa onde crescemos só existe agora na minha memória, num sinal claro de que nada, nem o que é de tijolo e cimento, dura para sempre no universo material.

2017 ainda me paga

2017

deram-me um ramo de lavanda. coloca no travesseiro, é bom. guardei na capa vermelha, surrada, já cheia de bolinhas de tecido muito lavado, e me enfiei no ônibus para enfrentar 900 e lá vai quilômetros com sorte sem ninguém ao lado. escolhi janela, na esperança de pegar, já no outro dia, o começo da manhã no cerrado brasileiro. na primeira parada sentou ao meu lado um homem espaçoso, como há de ser com quem não tem sorte, e pensei que seria difícil dali por diante levantar para ir ao banheiro. guardei na bolsa a garrafinha d’água e engoli um halls vermelho. na outra parada o homem mudou de poltrona, porque há de ser assim também com que não tem sorte: às vezes tudo vira. então dormi com a cabeça encostada no cheiro da lavanda do macio do travesseiro mais velho que a capa. de um lado, de outro, com os pés apoiados no encosto do banco da frente, com pés apoiados na mochila no chão, de todo jeito que se pode dormir no espaço de dois bancos de ônibus, acordando de hora em hora por causa da dor nas pernas ou para comer um pão de queijo, o máximo que a inteligência permite gastar nessas paradas no meio da estrada, onde um sanduíche custa mais que uma janta num restaurante italiano dentro da cidade. bafo, cansaço, dor no corpo, tudo, no fundo, é festa quando se terá em poucas horas um nascer do sol no meio do cerrado brasileiro e um abraço de chegada. e na chegada, casa nova, tudo novo, filtro dos sonhos e pés de majericão, 15 dias pra se viver uma vida em poucos metros quadrados com uma poltrona perto da varanda onde ficou, por 15 dias, o travesseiro alavandado. tanta vida pra viver, saudades pra matar, plantas pra cuidar, ruas vazias a serem caminhadas e lugares a serem descobertos, planos para fazer, que ficou pra lá a volta pra casa, a consciência entendeu que não era hora de pensar, como há de ser nos momentos que são vividos por inteiro: não existe antes nem depois. então, plantas saudáveis, casa acomodada ao meu ser, minhas roupas no varal, vizinhos brigando e rita lee no som pra espantar a voz que entra pela sacada. eu, cantando, no meio da sala, olho para o travesseiro de capa vermelha ainda repousado na poltrona. amanhã nos vemos de novo, 900 e lá vai quilômetro brasil abaixo, volta pra casa. enxuguei meus olhos na fronha vermelha e descobri que eles são sensíveis à lavanda.

belchior, o poeta deste país bonito e duro

Belchior; Cantor

não sou uma pessoa de religião, mas tenho comigo meia dúzia de textos que são minhas orações. um deles é a carta que o ator matheus nachtergaele escreveu em despedida a ariano suassuna. em certo ponto, matheus trata o brasil como “esse país bonito e duro”, e é ali que a carta me fisga.

porque são assim as minhas orações: desdobramentos do meu olhar. são palavras que me mostram que, no que diz respeito ao modo de ver o mundo, eu não estou sozinha. então, rezo com aqueles com quem concordo. ou com aqueles que gentilmente me mostram uma nova forma de ver as coisas antigas. por isso, por exemplo, é de manoel de barros outra das minhas orações, o texto em que ele fala sobre a importância das coisas. recomendo a você, também, que leia.

dito isso, vamos em frente. eu estava sentada numa cadeira de lata, numa barraca cheia de gente, num calor de um sol longe de ser de quase dezembro, comendo um acarajé, quando soube que belchior morreu. naquele exato momento em que me disseram: tenho uma coisa pra te contar que pode te deixar triste, mais uma vez eu lembrava que não gosto de acarajé, mas foi só depois da mordida que veio a lembrança, porque sempre me deixo enganar pela cor e pelo cheiro. eu comia um acarajé numa praça na capital do brasil, onde índios sentados na sargeta tocavam flauta e vendedores disputavam a atenção dos turistas, quando me foi dito que belchior, enfim, reapareceu, para sumir de vez. quem acompanha as notícias e burburinhos sabe que ele andava sumido fazia anos. fugiu pelo mundo, cheio de dívidas e enrolado com um novo amor, algo assim, totalmente confuso, bastantemente poético. o o globo falou sobre isso certa vez.

é de belchior, também, uma das minhas orações. se minha vida fosse filme, teria ele na trilha sonora, com essas músicas que tantas vezes embalaram meu olhar através de janelas de ônibus. longe de casa, nas noites solitárias num país frio e distante, era a voz do tio do bigode que me lembrava da certeza, áspera e gigante, de que tenho coisas novas para viver.

então, no meio da capital desse país bonito e duro, chega-me a notícia da morte do poeta que nunca negou essa dureza, e fez dela matéria prima duma obra que fala tanto da gente. enquanto eu mastigava, contrariada, a massa do acarajé, e botava pimenta à revelia, engolindo tudo com cerveja, lembrava de uma e outra frase. uma nova mudança em breve, vai acontecer, veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte, nunca mais seu pai falou she’s leaving home e meteu o pé na estrada. amigo, eu me desesperava, mas  presentemente posso me considerar sujeito de sorte, porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte e mais que tudo somos, sou e continuarei sendo essa menina latino americana que esquece dos próprios gostos, engole tanta coisa e se emociona com a morte. eis a minha oração:

in between days

JulienMauve-LonelyWindow-5

enquanto a dor não passa, a gente chora nos ombros de quem tiver um pedaço de pano ou de pele para oferecer, e acorda no meio da noite falando coisas sem sentido, sentindo medo, angústia e saudades. a gente sonha, acorda e não se acha.

você faz da minha casa sua casa, dos meus travesseiros os seus, e se encaixa debaixo do meu edredom enquanto a dor não passa. a gente conversa, se olha e entende dessa profunda solidão. enquanto a dor não passa a gente anda pelas ruas frias com o olhar perdido em algum ponto que vai além do mundo tangível. a gente se abraça, respira, relaxa, mas não esquece.

a gente vira a madrugada vendo filmes, comendo pipoca, chocolate, bebendo copos e copos de café. a gente traga cachaça, cerveja, farinha, fumaça, qualquer coisa que espante a dor que não passa. a gente procura horóscopo, budismo, yoga, meditação, hare krishna e reza. a gente trabalha e descansa, dança e esquece do mundo e finge não haver dor alguma até abrir os olhos e lembrar que a dor custa a passar. a gente telefona para a família para ouvir alguma voz conhecida e serena que sirva de acalanto. a gente queria estar mais perto, a gente deseja que seja tudo farsa, que não exista dor, que o tempo volte, que tudo isso se desfaça. a gente vai a restaurantes, festas, bares, e esquece a carteira em cima da mesa. a gente vira a noite na rua, na calçada, na farra, e se entrega a qualquer um que se encaixe num vazio confuso e ampliado pela dor que não passa. a gente perde o casaco, o telefone, o dinheiro, os documentos, a gente se deixa e tenta não ser mais a gente enquanto essa dor não passa. a gente planeja viagens, pensa no futuro, compra roupas, corta o cabelo, decora a casa. termina um livro e começa mais dois, estuda inglês, pensa em mudar de país, de vida, de destino. a gente vai dançando com a dor que não passa, fazendo e sentindo e vivendo e levando e criando, porque ela dói no peito, na alma, mas a gente sabe que se não tivesse dor não teria graça.

 

*Este texto estava no blog antigo. É de 2015. A foto é, outra vez, de Julien Mauve

20 coisas para fazer antes dos 30 (sem pressão)

aos30

eu tinha uns 28 anos quando vi uma daquelas listas de sei lá quantas coisas para se fazer antes dos 30 e senti que certamente não ia dar. sem chance. tenho que correr putaqueopariu como é que em dois anos eu vou conhecer mais 25 países pra inteirar 30 e ainda acampar sozinha na Islândia para fotografar uma aurora boeral?, pensei. bateu aquela palpitação e a certeza de que minha vida era muito chata porque eu nunca em 28 anos de existência tinha andado no lombo de um camelo nem cantado cantigas ancestrais com crianças vietnamitas.

cheguei aos 30 sem completar a tal da lista, obviamente, mas na minha, na paz, tranquilona, entendendo que 30 é só um número e que a vida não é uma disputa de quem pula de bung jump dos lugares mais ousados (inclusive deus me livre). então, fiz essa listinha de coisas realmente importantes para se fazer antes dos 30, que pode te ajudar a chegar lá com tranquilidade e autoconhecimento. se você é do time dos ansiosos, chega mais. esta lista é para você.

1. parar de ler revistas de beleza
sério. agora. já. porque é o seguinte: aos 30, o metabolismo fica mais lento, as marcas de expressão começam a aparecer, o cansaço aumenta e ler sobre a rotina semanal de aulas de boxe da fernanda souza só vai te fazer se sentir uma péssima pessoa. além disso, aquela pele é photoshop.

2. criar o hábito de ler diariamente
se não começou, comece e leve para a vida. é um hábito que só te acrescenta coisas boas. e tem tanta coisa pra ler nesse mundo: de notícias a livros, as possibilidade são infinitas.

3. aprender um novo idioma
falar outro idioma é bom não só para o currículo. ler livros na linguagem original ou ver séries sem legenda são pequenas felicidades cotidianas e eu juro pra você: é bom se apegar às felicidades cotidianas.

4. passar tempo com seus avós
se você tem a sorte de ainda contar com a pesença deles neste mundo, aproveite o quanto puder. quando você chegar aos 30, eles estarão com, mais ou menos, 80. e talvez estejam vivendo os últimos anos por aqui. é a triste e cruel realidade da nossa insignificância sobre a terra. a nós, cabe ser feliz e ficar perto de quem nos faz bem.

5. aprender a respirar
parece bizarro mas não é. a maioria de nós respira errado. a correria do dia a dia nos faz manter a respiração curta, aquela que não preenche o pulmão por completo. aulas de teatro, yoga ou canto são ótimas para nos ajudar a respirar corretamente e entender o mecanismo dessa coisa básica que nos mantém vivos.

6. aprender sobre manutenção básica de casa
trocar chuveiro, tirar teias de aranha do teto, renovar móveis. qualquer coisa que seja útil e que possa te salvar de um imprevisto, te distrair ou pelo menos ajudar a poupar uma grana.

7. desenvolver um hobbie
pode ser pintura em tecido, violão, bordado, cinema, poesia, culinária. há tanto nesse mundo para ser feito e aprendido, e parece que depois da faculdade a gente entra no modo automático e se afasta daquelas coisinhas que dão sentido ao cotidiano. se possível, não deixe isso acontecer.

8. aprender a se alimentar bem
alimentar-se de 3 em 3 horas, beber água, comer vegetais: não é tão difícil assim. o lance não é virar a louca da dieta, aliás, longe disso. o negócio é diminuir os industrializados, perceber o que te faz bem e o que faz mal e respeitar seu organismo. a saúde agradece (e você vai ver que faz uma grande diferença no dia a dia).

9. criar hábitos saudáveis
praticar atividades físicas, dormir bem, meditar, caminhar. existem milhares de possibilidades de mexer o corpo e cuidar da mente. o importante é chegar aos 30 com a cabeça boa e a saúde em dia.

10. avaliar seus hábitos de consumo
afinal, não faz sentido gastar dinheiro com coisas que a gente nem precisa, né não? maturidade tá aí pra ensinar que de repente aquela bolsa custa mais que 5 jantares no seu restaurante preferido, com bebida e tudo mais.

11. cuidar de plantas
além de ter hortaliças frescas em casa, cuidar de um jardinzinho proporciona minutos de higiene mental (e ver as plantinhas florescendo é coisamaislindaorgulhodamamãe).

gosta de plantas? leia também “sobre plantas e amadurecimento”.

12. botar as contas em dia
elas chegam todo mês sem falta, atrasam, acumulam. tem cartão de crédito, receita federal porque a gente cai na malha fina sim, cartão da renner. escuta a tia: para, faz as contas, organiza, se for o caso fica uns dois meses sem beber, sem comer fora, sem ir ao cinema mas pelamordedeus não deixa as contas virarem uma bola de neve porque essa avalanche vai uma hora te carregar pro fundo do poço do serasa.

13. viajar sozinha
não precisa ser para o vietnã. o brasil tem lugares lindos em qualquer canto. o que vale é tirar umas férias com você mesma e ver no que dá. vai ser delícia, vai ser gostoso.

14. aprender a cozinhar
ninguém aqui quer ser o próximo masterchef, mas é válido saber fazer pelo menos um arroz com feijão e uma lasanha bem gostosa pra quando quiser surpreender alguém com um jantarzinho.

15. rever seu filme preferido da adolescência
reassisti as patricinhas de berverly hills e descobri que a cher não é uma má pessoa.

16. sair da casa dos pais
se você ainda não saiu, agora é a hora. morar sozinho (ou com amigos) é maravilhoso! você vai descobrir o seu jeitinho de fazer as coisas e conhecer todo um novo universo feito de possibilidades, como receber quem quiser na hora quiser ou ficar sem açúcar no meio de um bolo e ter que pedir pro vizinho. e seus pais vão sentir sua falta mas, sério, vão curtir bastante porque queridão: 30 anos e morando com os pais num dá!

17. fazer a festa na loja de departamentos
comprar cortinas, tapetes, potes, velas aromáticas, prendedores de sacos plásticos, canecas, jogo de talher e mais um monte de coisas que você nem sabia que precisava até entrar numa dessas lojas é maravilhoso ❤

18. mudar o cabelo
na verdade, a ideia é: perder o medo de mudar o cabelo. cortar curtinho, ou deixar crescer, pintar de azul, descolorir. enfim, vale tentar pelo menos uma vez até porque em breve eles vão ficar brancos e você não terá escolha a não ser aceitar a mudança. rs

19. aceitar que haverá muitos sábados em casa
de pijama, vendo netflix. faz parte e é DELICIOSO.

20. ser legal com você mesma
a gente se cobra demais, vive se comparando e agora ainda tem a internet para jogar na nossa cara o sucesso alheio, mas olha só: todo mundo fica às vezes meio fudido. faz parte. o negócio é entender que cada um tem seu tempo. essa lista, inclusive, talvez nem sirva para você e nesse caso tudo bem, você pode me mandar tomar no cu porque eu tenho 30 anos e já sei lidar com comentários negativos.

se você tiver outras dicas, pode acrescentar nos comentários, e se quiser ler mais textos meus sobre universo feminino, eu escrevo lá no medium também 🙂