Category Archives: confissões

2017 ainda me paga

2017

deram-me um ramo de lavanda. coloca no travesseiro, é bom. guardei na capa vermelha, surrada, já cheia de bolinhas de tecido muito lavado, e me enfiei no ônibus para enfrentar 900 e lá vai quilômetros com sorte sem ninguém ao lado. escolhi janela, na esperança de pegar, já no outro dia, o começo da manhã no cerrado brasileiro. na primeira parada sentou ao meu lado um homem espaçoso, como há de ser com quem não tem sorte, e pensei que seria difícil dali por diante levantar para ir ao banheiro. guardei na bolsa a garrafinha d’água e engoli um halls vermelho. na outra parada o homem mudou de poltrona, porque há de ser assim também com que não tem sorte: às vezes tudo vira. então dormi com a cabeça encostada no cheiro da lavanda do macio do travesseiro mais velho que a capa. de um lado, de outro, com os pés apoiados no encosto do banco da frente, com pés apoiados na mochila no chão, de todo jeito que se pode dormir no espaço de dois bancos de ônibus, acordando de hora em hora por causa da dor nas pernas ou para comer um pão de queijo, o máximo que a inteligência permite gastar nessas paradas no meio da estrada, onde um sanduíche custa mais que uma janta num restaurante italiano dentro da cidade. bafo, cansaço, dor no corpo, tudo, no fundo, é festa quando se terá em poucas horas um nascer do sol no meio do cerrado brasileiro e um abraço de chegada. e na chegada, casa nova, tudo novo, filtro dos sonhos e pés de majericão, 15 dias pra se viver uma vida em poucos metros quadrados com uma poltrona perto da varanda onde ficou, por 15 dias, o travesseiro alavandado. tanta vida pra viver, saudades pra matar, plantas pra cuidar, ruas vazias a serem caminhadas e lugares a serem descobertos, planos para fazer, que ficou pra lá a volta pra casa, a consciência entendeu que não era hora de pensar, como há de ser nos momentos que são vividos por inteiro: não existe antes nem depois. então, plantas saudáveis, casa acomodada ao meu ser, minhas roupas no varal, vizinhos brigando e rita lee no som pra espantar a voz que entra pela sacada. eu, cantando, no meio da sala, olho para o travesseiro de capa vermelha ainda repousado na poltrona. amanhã nos vemos de novo, 900 e lá vai quilômetro brasil abaixo, volta pra casa. enxuguei meus olhos na fronha vermelha e descobri que eles são sensíveis à lavanda.

20 coisas para fazer antes dos 30 (sem pressão)

aos30

eu tinha uns 28 anos quando vi uma daquelas listas de sei lá quantas coisas para se fazer antes dos 30 e senti que certamente não ia dar. sem chance. tenho que correr putaqueopariu como é que em dois anos eu vou conhecer mais 25 países pra inteirar 30 e ainda acampar sozinha na Islândia para fotografar uma aurora boeral?, pensei. bateu aquela palpitação e a certeza de que minha vida era muito chata porque eu nunca em 28 anos de existência tinha andado no lombo de um camelo nem cantado cantigas ancestrais com crianças vietnamitas.

cheguei aos 30 sem completar a tal da lista, obviamente, mas na minha, na paz, tranquilona, entendendo que 30 é só um número e que a vida não é uma disputa de quem pula de bung jump dos lugares mais ousados (inclusive deus me livre). então, fiz essa listinha de coisas realmente importantes para se fazer antes dos 30, que pode te ajudar a chegar lá com tranquilidade e autoconhecimento. se você é do time dos ansiosos, chega mais. esta lista é para você.

1. parar de ler revistas de beleza
sério. agora. já. porque é o seguinte: aos 30, o metabolismo fica mais lento, as marcas de expressão começam a aparecer, o cansaço aumenta e ler sobre a rotina semanal de aulas de boxe da fernanda souza só vai te fazer se sentir uma péssima pessoa. além disso, aquela pele é photoshop.

2. criar o hábito de ler diariamente
se não começou, comece e leve para a vida. é um hábito que só te acrescenta coisas boas. e tem tanta coisa pra ler nesse mundo: de notícias a livros, as possibilidade são infinitas.

3. aprender um novo idioma
falar outro idioma é bom não só para o currículo. ler livros na linguagem original ou ver séries sem legenda são pequenas felicidades cotidianas e eu juro pra você: é bom se apegar às felicidades cotidianas.

4. passar tempo com seus avós
se você tem a sorte de ainda contar com a pesença deles neste mundo, aproveite o quanto puder. quando você chegar aos 30, eles estarão com, mais ou menos, 80. e talvez estejam vivendo os últimos anos por aqui. é a triste e cruel realidade da nossa insignificância sobre a terra. a nós, cabe ser feliz e ficar perto de quem nos faz bem.

5. aprender a respirar
parece bizarro mas não é. a maioria de nós respira errado. a correria do dia a dia nos faz manter a respiração curta, aquela que não preenche o pulmão por completo. aulas de teatro, yoga ou canto são ótimas para nos ajudar a respirar corretamente e entender o mecanismo dessa coisa básica que nos mantém vivos.

6. aprender sobre manutenção básica de casa
trocar chuveiro, tirar teias de aranha do teto, renovar móveis. qualquer coisa que seja útil e que possa te salvar de um imprevisto, te distrair ou pelo menos ajudar a poupar uma grana.

7. desenvolver um hobbie
pode ser pintura em tecido, violão, bordado, cinema, poesia, culinária. há tanto nesse mundo para ser feito e aprendido, e parece que depois da faculdade a gente entra no modo automático e se afasta daquelas coisinhas que dão sentido ao cotidiano. se possível, não deixe isso acontecer.

8. aprender a se alimentar bem
alimentar-se de 3 em 3 horas, beber água, comer vegetais: não é tão difícil assim. o lance não é virar a louca da dieta, aliás, longe disso. o negócio é diminuir os industrializados, perceber o que te faz bem e o que faz mal e respeitar seu organismo. a saúde agradece (e você vai ver que faz uma grande diferença no dia a dia).

9. criar hábitos saudáveis
praticar atividades físicas, dormir bem, meditar, caminhar. existem milhares de possibilidades de mexer o corpo e cuidar da mente. o importante é chegar aos 30 com a cabeça boa e a saúde em dia.

10. avaliar seus hábitos de consumo
afinal, não faz sentido gastar dinheiro com coisas que a gente nem precisa, né não? maturidade tá aí pra ensinar que de repente aquela bolsa custa mais que 5 jantares no seu restaurante preferido, com bebida e tudo mais.

11. cuidar de plantas
além de ter hortaliças frescas em casa, cuidar de um jardinzinho proporciona minutos de higiene mental (e ver as plantinhas florescendo é coisamaislindaorgulhodamamãe).

gosta de plantas? leia também “sobre plantas e amadurecimento”.

12. botar as contas em dia
elas chegam todo mês sem falta, atrasam, acumulam. tem cartão de crédito, receita federal porque a gente cai na malha fina sim, cartão da renner. escuta a tia: para, faz as contas, organiza, se for o caso fica uns dois meses sem beber, sem comer fora, sem ir ao cinema mas pelamordedeus não deixa as contas virarem uma bola de neve porque essa avalanche vai uma hora te carregar pro fundo do poço do serasa.

13. viajar sozinha
não precisa ser para o vietnã. o brasil tem lugares lindos em qualquer canto. o que vale é tirar umas férias com você mesma e ver no que dá. vai ser delícia, vai ser gostoso.

14. aprender a cozinhar
ninguém aqui quer ser o próximo masterchef, mas é válido saber fazer pelo menos um arroz com feijão e uma lasanha bem gostosa pra quando quiser surpreender alguém com um jantarzinho.

15. rever seu filme preferido da adolescência
reassisti as patricinhas de berverly hills e descobri que a cher não é uma má pessoa.

16. sair da casa dos pais
se você ainda não saiu, agora é a hora. morar sozinho (ou com amigos) é maravilhoso! você vai descobrir o seu jeitinho de fazer as coisas e conhecer todo um novo universo feito de possibilidades, como receber quem quiser na hora quiser ou ficar sem açúcar no meio de um bolo e ter que pedir pro vizinho. e seus pais vão sentir sua falta mas, sério, vão curtir bastante porque queridão: 30 anos e morando com os pais num dá!

17. fazer a festa na loja de departamentos
comprar cortinas, tapetes, potes, velas aromáticas, prendedores de sacos plásticos, canecas, jogo de talher e mais um monte de coisas que você nem sabia que precisava até entrar numa dessas lojas é maravilhoso ❤

18. mudar o cabelo
na verdade, a ideia é: perder o medo de mudar o cabelo. cortar curtinho, ou deixar crescer, pintar de azul, descolorir. enfim, vale tentar pelo menos uma vez até porque em breve eles vão ficar brancos e você não terá escolha a não ser aceitar a mudança. rs

19. aceitar que haverá muitos sábados em casa
de pijama, vendo netflix. faz parte e é DELICIOSO.

20. ser legal com você mesma
a gente se cobra demais, vive se comparando e agora ainda tem a internet para jogar na nossa cara o sucesso alheio, mas olha só: todo mundo fica às vezes meio fudido. faz parte. o negócio é entender que cada um tem seu tempo. essa lista, inclusive, talvez nem sirva para você e nesse caso tudo bem, você pode me mandar tomar no cu porque eu tenho 30 anos e já sei lidar com comentários negativos.

se você tiver outras dicas, pode acrescentar nos comentários, e se quiser ler mais textos meus sobre universo feminino, eu escrevo lá no medium também 🙂

Louro

louro

Vive no quintal da minha avó, atravessando gerações, uma goiabeira. Já deu frutos em mais de 40 verões. Serviu de suporte para balanço meu e brincadeiras do meu pai com o irmão. Árvore de família.

É normal, em dias de ventania, algumas folhas se soltarem e entrarem pela janela da cozinha. Repousam sobre o chão de azulejos até serem empurradas para fora com a vassoura.

Foi varrendo o chão que meu pai contou os minutos, ansioso, para comer pela primeira vez uma feijoada. Do fogão, a mãe dele – minha avó – cantarolava instruções: tem que ficar limpinho, que logo chegam as visitas. Tios, tias, primos e primas aos poucos encheram a casa no domingo. Mesa posta, guardanapos, garrafa de Tubaína, tudo nos conformes. Perto do fogão, meu pai erguia os pezinhos para filar um teco do caldo preto, nunca antes visto nos 8 anos de existência a base de arroz com feijão carioquinha.

Quando minha avó colocou na mesa a panelona de barro, o moleque xereta foi levantando a tampa pra enfiar as fuças na tão esperada. Nem bem levou na cara a baforada de calor, pegou a concha, meteu na panela, agiu rápido sem desviar a atenção do pessoal em volta, cada um na sua roda de conversa. Depois de todas as visitas já terem ido embora, correu pro lado da mãe, segurando a folha de louro coberta com uma crosta de caldo de feijão ressecado:

– Mãe! Tinha uma folha de goiabeira na feijoada, mas eu tirei rapidinho. Ninguém viu.

Para meus amigos que querem viajar

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Hoje o Facebook me mostrou a primeira foto que tirei na Irlanda, 3 anos atrás. De luva, toquinha e aquele sorriso de estou realizando um sonho.

Desde então, muitas pessoas vêm perguntar sobre a experiência. Como fazer, ir ou não ir, quanto de dinheiro é necessário. Meu conselho, além das dicas práticas sobre gastos e passeios é: se tem vontade, vá.

A ideia de conhecer o mundo não desgrudou de mim desde que eu tinha 5 anos, morava no sítio e um dia, olhando o horizonte, vi um monte branco sobre a pastagem.  Devia ser areia para construção ou serragem. Perguntei para minha mãe se lá era o Pólo Norte. Ela riu e me explicou que não, o Pólo Norte era muito mais longe, num tanto que eu não conseguiria ver só de esticar a vista. Saber que existia mais mundo do que meus olhos podiam enxergar deu nó na minha cabeça. Cresci querendo ver de perto, e minha mãe alimentando esses sonhos toda vez que chegava em casa com um livro novo do Pateta dando a volta ao mundo.

Eu sei que essas histórias de gente que largou tudo para viajar já encheram o saco, e são um recorte muito pequeno de uma geração. Poder dar um tempo na vida, fazer as malas e viver em outro país é um privilégio. Mas se te aconteceu de nascer nesse grupo de privilegiados que podem ter certo controle sobre o próprio destino, e se sua alma é atormentada pela vontade de sair para um passeio mais longo, vá. Se lá no fundo te bate de vez em quando a curiosidade de saber como é ouvir um sanfoneiro numa praça de Bogotá ou tomar um café numa calçada de Paris, organize-se para que isso aconteça. Guarde dinheiro, gaste menos com bobagens, venda o carro, procure por bolsas de estudo, faça o que estiver ao seu alcance, lembre-se que a vida é curta.

Eu tive medo de me afastar demais do mercado de trabalho. Temia voltar e nunca mais conseguir emprego. No fim, a gente volta mais preparado, ou tão mudado que percebe que aquela carreira que parecia importante não fazia sentido algum. É natural a gente estudar, estagiar, conseguir o primeiro emprego na área e fazer planos a partir daí, tudo de sopetão, sem tempo para pensar se é isso mesmo que queremos. E quando tudo flui assim, do jeito que o mundo espera que flua, dá medo de cair fora. Mas como esse papo é principalmente para aqueles que sentem uma certa inquietação com a vida como ela está, preciso contar uma coisa: provavelmente esse sentimento não vai passar enquanto você não fizer algo a respeito.  É como diz o tio Saramago: é necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não nos saímos de nós. Dar um passeio do lado de fora – da cidade, do país e de nós – faz bem.

De repente, acontece de você se encontrar. Pode acontecer de sentir saudades da vida antiga, emprego fixo e contas pagas, e a experiência vai ter servido para te mostrar que essa é a sua. Pode acontecer de você nunca mais voltar. Ou voltar tão diferente que, ao entrar no quarto antigo que você deixou para trás e mexer nas suas roupas velhas, sinta o impulso de pedir desculpas por estar fuçando no guarda-roupas de um estranho. E pode acontecer também de você voltar e nunca mais conseguir desfazer a mala, passar a apreciar paisagens que correm do lado de fora do ônibus, entendendo que até um passeio a 50 quilômetros de distância te acrescenta muita coisa. Foi o que aconteceu comigo, que aliás, faz meses que não desfaço minha mochila. Até porque eu ainda não conheci o Pólo Norte 🙂

***

Quer ler mais sobre o assunto? Clica aqui. Se você quer dicas sobre viagem, vem ler meus textos do DPB Intercâmbio.

Como lidar com fantasmas

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eu sou crente. não crente da forma como usamos no dia a dia para falar do vizinho que anda com a bíblia embaixo do braço ou da tia que frequenta o culto. crente dessas que crê. do lado oposto dos céticos. eu acredito em tudo, e vou desacreditando por exclusão, conforme vou vivendo. saci, por exemplo, estou a ponto de riscar da lista de tanto que ando em mato e nunca vi um.

se me falam que é preciso acreditar em alguma coisa para um dia ser salva, eu digo que acredito em todas – e também que não preciso ser salva porque já vivo suficientemente bem aqui, careço de esperar coisa melhor pra outra vida, não. vou levando fé em tudo e na hora que chegar o fim do meu mundo eu vejo se numa delas acertei. e se lá, no último suspiro, não me aparecer nada: nem jesus com cara de europeu, nem extraterrestre com aura iluminada, eu abraço a descrença. ou não abraço nada, porque já vou estar em outra – ou em nenhuma, nunca mais.

mas sobre fantasmas, afirmo: todo mundo tem, cada um com o seu. se eles vêm do além ou não, aí é outra história. teve uma época que eu tinha pesadelos constantes. zumbis me perseguiam, ou extraterrestres tentavam me levar para a nave. eu sentia muito medo, acordava assustada. então, alguém me disse: na próxima vez que um zumbi te importunar em sonho, bate um papo com ele. pergunta o que ele quer. tentem chegar a um acordo.

fiz. funcionou. pararam de me perseguir.

antigamente, eu ficava muito irritada com as pessoas que dizem: você tem que ter medo dos vivos, não dos mortos. pensava: com o vivo a gente conversa, tenta uma persuasão se for o caso. mas que posso eu fazer se no meio do corredor às 2 da madrugada me aparece o capeta? o desconhecido é assustador, ainda mais quando pintam ele com rabo, chifre e gosto por sofrimento alheio.

claro que isso foi uma fase, eu era muito nova. hoje, quando sinto uma energia estranha, começo logo a cantar uma música boa ou já vou perguntando: o que você quer aqui, ahn?. havendo ou não qualquer coisa no ar, ficamos ao menos conversados, deixo logo minhas intenções explícitas. visitas, só quando eu aceitar. e vocês sabem: a cabeça da gente inventa muita coisa, também.

o importante não é a procedência dos fantasmas, mas o modo como a gente lida com eles.

Eu nunca sei

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Eu nunca sei quando é a hora de falar de amor com você. Tenho tomado muita chuva por esses dias. Não sei se é porque sou desprevenida demais e saio sempre sem guarda-chuva, ou se tem chovido fora do normal em comparação aos últimos 26 anos, período no qual (pelo que me lembro) não tomei tanta chuva assim. Eu ia fazer uma metáfora sobre você e chuva, e ser pega de surpresa. Não fiz. Passou.

O fato é que tenho vivido um pouco sem rumo, dias encarrilados e eu passando por eles. É um grande problema quando crescemos com a certeza de que teremos um futuro brilhante, a gente fica parado esperando o futuro brilhante chegar e não faz nada para que ele chegue. Talvez porque na primeira série eu fui campeã no concurso de soletrar palavras, e passei a achar que a vida para mim seria fácil. Então fiz pouca coisa.

Tenho dissimulado mais do que vivido. A sensação constante da brevidade da vida é traiçoeira, se quer fazer muito e acaba-se privando de grande parte. Quero dizer: a gente vai listando o que é preciso ser feito e a lista embolora no bolso enquanto vamos ao supermercado toda quarta-feira.

Acontece que tem esses dias enfileirados, de chuva, de sol, de roupa se acumulando no cesto, e tem você. Eu olho para você e penso que é exatamente aquilo que eu preciso. Depois vem o medo de errar, de você querer fugir, medo de descobrir que não é nada disso, que é tudo coisa da minha cabeça. Tem mais essa: a constante sensação de que sempre estou fantasiando. A gente acha que quando crescer vai ser forte e dar conta de tudo. Então cresce e morre de medo o tempo todo.

O grande problema é que com gente que só se lança em terra firme não se brinca, e eu infelizmente sou esse tipo de pessoa. Digo infelizmente porque acabo perdendo parte da aventura, aquela coisa do incerto, de arriscar. Deve ser por isso que nunca fui viciada em jogo também.

Por outro lado, nunca me restou ao fim um coração esmigalhado, quem tá sempre de marreta na mão a postos pra despedaçar mais um sou eu, e antes isso fosse bom. Mas no fim eu saio dos amores e eles meio que nunca saem de mim, fica sempre uma mágoa do mal resolvido, aquele gosto amargo quando toca uma música que faz lembrar. Dor de estômago que chá nenhum cura.

Entende o que eu digo? Ontem choveu até as 4h. Da manhã. Eu não dormi, e pensava que seria perfeito se você estivesse por perto pra me abraçar, fazer café e deixar as meias jogadas no chão da sala. Depois pensei que você poderia ver comigo o filme que eu via, era Woody Allen, e eu não gosto dele o que me dá uma tristeza toda vez que vejo um e constato mais uma vez que perdi meu tempo me chateando.

O tempo tem passado assim, eu fazendo coisas sem um propósito muito claro e às vezes parando para pensar se ser adulto é isso mesmo. E no meio desse nevoeiro, dessas ideias frias com gosto de sabão em pó, aparece a salvação: você, ou algo assim. Talvez minha vida com você nela.

Das poucas coisas que sei, esta é uma delas: as pessoas com quem a gente iria até à puta que pariu não são de se deixar passar sem antes ter ido, pelo menos, um pouco mais longe. Eu penso, repenso e vejo que tempo eu já perco todo dia. Você, não. Você é lucro pra mim.

Do meio dessa chuva eu olho e te vejo um pouco com coração de marinheiro, o que me magoa. Eu, da minha terra firme.

***

Esse texto estava no blog antigo, e também foi para lá no Outras Palavras. Aqui, oh. Como tem chovido muito faz dias, lembrei dele. Gostou? Comenta, compartilha 🙂

A foto é do filme Y tu mama tambien, que não fala de chuva, mas fala de vida.

natal e óleo de coco

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cheguei de viagem e revitalizei as energias com meu mais novo tratamento de beleza: imersão em óleo de coco. imersão é só pra fazer charme no nome, a coisa é simples: passar o óleo no rosto e nos cabelos. tá na moda, inclusive para tomar (uma colher de sopa por dia, de preferência pela manhã). não tem quem negue que faz mil maravilhas para a saúde. e como tudo que é bom, hoje apareceu uma matéria falando que talvez não seja tão bom assim. tava demorando.

o universo das coisas que fazem bem gira rápido demais. ovo era bom, depois virou mau, agora parece que é bom de novo. linhaça era maravilhosa, de repente não é mais, tem que ter cuidado para usar. leite podia, agora não pode. azeite de oliva pode mas só se for frio e cru, fritou já era. batata frita não pode, nunca.

fiquei chateada com a notícia do óleo de coco, mais uma pras tristezas de 2016.

daí a campainha tocou.

era minha a vizinha da frente, junto da neta. elas trouxeram um cartão de natal, em agradecimento ao cartão e chocolates que deixamos na caixinha dos correios dos nossos vizinhos.

o prédio aqui é pequeno, são 6 apartamentos. foi um achado. prédio antigo, cômodos grandes, preço baixo, gente simpática. alguém do condomínio enfeitou com florzinhas os espaços comuns. achamos tudo tão singelo, um lugar tão bonito que nos recebeu com tanto amor, que resolvemos retribuir com lembrancinhas de natal.

então a vizinha veio dizer que ficou emocionada, porque nunca havia ganhado lembrancinhas natalinas. foi um dia agradável, também porque, já que é natal, compramos para nós mesmos uma caixa de chocolates.

chocolate continua podendo. sempre pode, sempre poderá. café também.

e gentilezas.

feliz natal 🙂

Black mirror e a morte

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o ano tá acabando, mas antes de falar de natal e planos para 2017 eu quero falar da morte. na verdade, de black mirror e da morte, porque ambos foram muito presentes em 2016. a morte porque ela é sempre presente. e black mirror porque isso tudo é muito black mirror, mêo.

ontem numa livraria encontrei um dicionário de psicanálise e sonhos. parei numa página que dizia que a criança, quando sonha que alguém morreu, é porque quer que essa pessoa desapareça. ela não entende da morte e suas implicações. até certa idade, a criança sabe apenas que morrer é desaparecer.

mais tarde, passa a perceber que morrer é desaparecer para sempre e para todos, de modo trágico ou não. quando cheguei nessa fase da vida, de compreender o sentido amplo da morte – eu devia ter uns 11 anos, pelo que lembro – eu pensava: não é possível que eu vou morrer um dia.

não fazia sentido. eu tinha que ir à escola toda manhã, de uniforme e cabelo penteado, estudar, fazer provas, responder pra gente adulta o que é que eu quero ser quando crescer, pensar em futuro. e pra isso: morrer.

era ridículo.

vivi então anos da adolescência pensando que eu não deveria me preocupar com a morte porque quando chegasse a minha hora a ciência já teria evoluído a ponto de ninguém mais morrer. ufa.

cresci e entendi que, se a gente não morre, isso aqui vira um caos. a comida acaba, a terra superaquece, vêm os maremotos, tudo isso que a gente sabe que pode acontecer a qualquer instante porque nosso mundo está cheio com gente que suga todos os recursos e energias e joga lixo na rua.

pensei: ok, vamos fazer tudo isso mesmo, todas essas festas de formatura, batizados, cursos de pós graduação, e morrer. segue o baile.

e aqui estou eu, ser vivo nesse mundo em busca de prazer e distração e que, ciente da morte, come chocolate, namora, dança e assiste séries no netflix. a da vez foi black mirror. para quem não viu, recomendo. tem uns episódios muito bons, e o el país fez uma lista dos melhores, embora eu discorde dessa ordem.

o lance é que dois episódios mexeram comigo porque eles falam disso mesmo: morte. ou uma possibilidade de vida eterna. o episódio be right back traz o ponto de vista de quem fica aqui, vivendo, enquanto alguém querido morreu. uma moça grávida e recém casada perde o marido num acidente. sofrendo com o luto, ela recebe uma proposta de aplicativo que, com base em tudo o que o marido fez em vida no universo online – fotos, textos, mensagens de voz, vídeos – cria um programa que reproduz falas dele. eles podem conversar por telefone e tudo mais. tipo o filme her, só que com uma personalidade que já existe, tudo mapeado e simulado para tapear a ausência definitiva. é interessante para pensar coisas bobas como, por exemplo, o quanto as pessoas podem ser substituíveis – ou não. ou o quanto somos carentes e precisamos de conforto perante a morte. ou ainda, o quanto não sabemos lidar com ela.

o outro episódio, e este é o meu preferido, é san junipero. eu não quero dar spoilers, mas garanto que se você tem coração mole, vai chorar. o roteiro gira em torno da possibilidade de se manter a consciência viva, mesmo depois da morte do corpo.

outro dia li uma matéria muito bonita sobre o segredo da felicidade dos moradores do butão. as pessoas desse pequeno país asiático são felizes – ou menos tristes que a gente – porque lidam com a morte de forma natural. é parte da vida.

coisa que por muito tempo me neguei a entender.

mas voltando ao black mirror, o que achei interessante nesses episódios – além de outras coisas – é que eles trazem para a morte uma saída que eu, nos meus anos de negação, nunca pensei (também porque lá nos anos 90 não vivíamos tanto junto da tecnologia, inteligência artificial e tudo mais). a proposta agora parece óbvia: se um dia existir vida eterna, talvez ela parta da desvinculação entre corpo e consciência.

antes de black mirror me trazer essa nova possibilidade de vida eterna, eu gostava de pensar a morte como pensa chicó, personagem de o auto da compadecida. diante de uma cachorrinha morta, ele diz:

cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.

se a contemporaneidade for mesmo todo esse black mirror, talvez um dia tenhamos acesso à vida eterna, mas ela vai custar dinheiro e chicó vai estar errado. nem mais a morte vai ser aquilo que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados, porque, a não ser que vençamos a desigualdade social, vai ter gente sem dinheiro para gastar com aparatos tecnológicos que abrem as portas da eternidade. a vida eterna, se um dia existir, vai ser só para quem pode pagar.

e eu nem queria mesmo.

 

Sobre ser irmã mais velha

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já contei essa história, mas vou repetir. certa vez minha mãe sumiu por três dias. voltou com um bebê, que me chamaram para ver. eu esperava menina, e quando vi a roupinha azul fiz cara feia e voltei pro quintal.

ser irmã mais velha é assim, a gente vai desde cedo lidando com decepções. primeiro, porque da noite pro dia nada mais é só para nós. depois, porque haja paciência. é choro, brinquedo quebrado, e um dia ele jogou pela janela as minhas bonecas de porcelana por pura diversão.

é mordida na coxa quando a gente está distraída assistindo desenho e ele quer treinar os dentinhos que acabaram de nascer. é amar e odiar, porque a gente não aguenta mais ouvir o próprio nome gritado por aquela vozinha estridente e fica querendo dar uns tapas quando a mãe não vê, mas o filho do vizinho que não ouse relar um dedo.

é cabaninha na sala, puxão de cabelo, video game quebrado e alguém para levar a culpa. briga que ninguém sabe onde começou, tapa, grito, mordida e silêncio absoluto quando o pai chega.

carinho dividido quando tem mais uma, pequena, e de repente a gente se sente madura porque agora quem sente ciúmes da nova criança é ele. e a nova criança começa tudo de novo, as mordidas, o choro inconveniente, os brinquedos quebrados, a vontade de dar uns tapas mas ai do filho do vizinho se ousar relar um dedo.

é na marra aprender a dividir chocolate, cama, travesseiro, colo, televisão, controle de video game, segredo. e multiplicar atenção e paciência porque eles caem, se quebram, perdem e quebram coisas. é também entender que idade é só data no calendário, porque as vezes quem chora, quebra e perde coisas é a gente, que nasceu antes mas nem por isso sabe de tudo nessa vida.

é piada que só a gente entende, decepção porque as ideologias não batem, piercing que a mãe não sabe, tatuagem escondida e se você não contar eu também não conto. haja lição de pilantragem, flagra, ameaça, formação de quadrilha e delação premiada.

é abrir caminho, porque irmão mais velho é, via de regra, o primeiro a tomar um porre e envergonhar os pais, trazer namorado pra casa, querer dormir fora e viajar para longe. os outros já chegam já com tudo amaciado.

é também ter que ser exemplo, mas não ser exemplo algum. é interceder em favor da viagem com os amigos, ele merece mãe! e policiar as liberdades porque comigo não era essa moleza, vocês mimam demais.

e ser zelo e carinho. um dia, quando a gente vê não tem mais video game para dividir, cada um tem o seu canto, sua casa, sua vida, e não sobra espaço para brigas quando se encontram porque o tempo é curto. então, são telefonemas, você lembra onde ficou aquele disco?, vem passar o natal, manda fotos da viagem, cuidado na estrada, peguei seu livro emprestado, devolve minhas roupas.

é sobretudo orgulho, porque de repente a gente está no meio de uma multidão numa sala de cerimônia, alguém falando no microfone umas palavras bonitas enquanto ele vem andando em nossa direção vestido de azul mais uma vez, azul e preto, agora com um sorriso no rosto e um diploma na mão, a gente olha com brilho nos olhos e pensa que as crianças cresceram.

***

a foto é do filme The Darjeeling Limited.

Ela não quis

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minha primeira lição de empatia foi um soco no estômago.

eu tinha 17 anos e algumas boas amigas. júlia era das mais chegadas. naquela época a gente se preocupava com pouca coisa, a vida era basicamente música, cuba libre, caminhadas sem rumo e cigarros de menta. eu começava a ouvir oasis, ela curtia bon jovi. eu fazia teatro, ela era dos esportes. gastávamos tempo falando do futuro, paupável e absurdo, de alienígenas aos cursos de faculdade, nota de corte da fuvest, será que estaremos vivas em 2020? coisas assim.

estávamos sentadas no meio fio, era fim de tarde, ela disse que queria me contar uma coisa, depois desconversou. fazia dias, andava triste, eu sabia mas fingia que não, porque fugir das coisas sempre foi meu jeito de lidar com elas. quando a pessoa quer, ela fala, não adianta forçar, eu pensava. deixei pra lá, pra que estragar o pôr do sol com uma conversa séria? nada poderia ser tão sério afinal, a gente tinha 17 anos e vestibular dali 3 meses.

ela entrou numa farmácia, falou pra eu esperar do lado de fora, fiquei chutando pedrinhas na rua, ela saiu com uma sacolinha na mão. olha, se eu não estiver aqui daqui uns dias, passa em casa e pega seu cd. eu ri. que é isso? bobagem.

hoje eu sei que até a leveza tem sua hora, mas ali no começo dos anos 2000 eu não sabia. um dia ela apareceu em casa com outra amiga. vamos pro quarto, a gente precisa conversar, falou. sentou na minha cama com lágrimas nos olhos. tô grávida.

eu falei: que bom, uau, que lindo, vamos ter um bebê, a gente cuida todas juntas. carol , você não tá ententendo, mariana chamou minha atenção. foi um acidente, eu não queria, eu não sabia, ele não quer, ele me deu o link de um site que falava para tomar chá de cravo com cachaça, foi tudo que ele fez.

mas a gente pode dar um jeito, vai ficar tudo bem, calma, eu te ajudo, eu pensava. não ia ficar tudo bem. o papo era sério, e eu queria brincar de casinha, de vida simples, vida linda, eu queria ter 17 anos pra sempre, mesmo que isso custasse a sanidade da minha amiga. olha, não vai dar, ela tá decidida, mariana explicou. eu ria. falei que aquilo estava errado.

depois disso, júlia viajou. eu ouvia cartola dia e noite, “ainda é cedo, amor, mal começaste a conhecer a vida…”. nessa época, fiz uma prova de teatro, cantei alto essa música, não passei, reconsiderei o futuro, pensei em júlia e ela não voltava. perdeu todas as provas, mandou poucas notícias, um dia reapareceu. contou da dor, do sangue, do médico apático que perguntou se ela queria ver o feto, do medo e do que seria a vida dela dali pra frente.

arrumei uma festa, espairecer ia ser bom. ela saiu correndo do salão. corri atrás, encontrei ela do lado de fora, encostada numa parede, vomitando. era assim, ela explicou, um trauma. lembrei dos vídeos que as professoras nos enfiavam goela abaixo, fetos destruídos, sangue, mulheres desmaiadas, objetos de tortura. então era isto: minha amiga precisava de ajuda. porque na hora de encher nossa cabeça de culpa, a sociedade apresenta suas armas: bíblia, lei, moralismo. mas certeza de que, optando pelo sim, seguiremos normalmente nossas vidas, concluíremos nossos planos, isso aí ninguém garante. menina que dá tem mais é que que sofrer.

o universo alheio é terreno incerto. nem para nós a coisa é certa, de repente vem a vida e muda tudo. hoje eu sei que naquele dia, sentada na calçada, ela queria ter certeza de que eu estava pronta para ouvir. eu queria que minhas crenças fossem verdade universal e que o mundo seguisse sendo um lugar onde a maior preocupação é com a prova no fim do ano, mas eu tive que abrir mão.

anos depois, já trabalhando num jornal, fiz uma matéria sobre a facilidade de se obter pílulas abortivas. é possível encomendar pela internet ou comprar em camelôs. a vendedora ainda aconselha: na hora que doer, você tem que aguentar o tranco. não pode contar pro médico o que você fez, senão dá problema.

se tem venda, é porque tem demanda. não são mulheres criminosas. são adolescentes sem rumo, mulheres adultas sem dinheiro, negligenciadas, abandonadas, confusas. que precisam de quem as ouça. mas enquanto a gente continuar tratando como caso de polícia ou coisa de outro mundo, ninguém vai se sentir a vontade para falar.

não dá para ter 17 anos pra sempre, infelizmente. a vida exige sensatez e peito aberto.