Category Archives: confissões

caminhando, me senti em casa

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a filosofia é a saudade-ânsia de se sentir em casa em todos os lugares. foi a primeira coisa que eu li depois de deixar a mala no chão do primeiro quarto onde morei depois de sair da casa dos meus pais. letras pretas num papelzinho amarelo grudado na porta do quarda-roupas de uma das minhas colegas. éramos 6, cada uma com sua cama naquele mesmo quarto grande de beliches e azulejos.

no começo vai ser agitado, tanta gente nova, mas quando você deitar na cama e olhar para o teto vai te bater uma solidão, tinha dito meu pai.

a frase do guarda-roupas da minha colega me salvou dos olhos vidrados no teto dentro do silêncio que faz um quarto de pensão quando todos já dormiram; e virou, dali pra frente, o lema que eu antes não sabia expressar. é parte de mim essa saudade-ânsia de me sentir em casa em todos os lugares. as vezes, esses lugares são pessoas.

foi esse lugar, por 7 dias, o solo sertanejo de minas gerais. não há forma mais fiel de estar no mundo do que andando sobre ele com os próprios pés, embrenhando-se no que cresce do chão e conversando com quem habita estas terras. eu estive em casa em tantos lugares nesses 7 dias. na terra vermelha que manchou para sempre minhas meias brancas, na água fria que aliviou meus pés machucados, na areia que antes foi rio e serviu de leito perfeito para minhas costas cansadas. estive em casa sob o teto de gente que, gentilmente, abriu as portas para nos receber. estive em casa olhando nas paredes retratos de pessoas que nunca vi, provando sabores que não conhecia, como doce de buriti e suco de araçá. estive em casa dentro de uma barraca que por 7 dias foi, de fato, minha casa, e aprendi o melhor jeito de arrumá-la, aceitando que areia não é sujeira. saudade-ânsia é resignificar o mundo, afinal, e olhar para as coisas como se já tivessem sido e como se nunca fossem ser. desmontar tudo, abrir espaço no peito e entender que nada é certo (nem o hábito de escovar os dentes, que, afinal vem antes ou depois do café?). então, eu estive em casa tomando banho frio, eu que amo água quente. e estive em casa comendo rapadura quando bateu a fome, eu que nunca começo uma refeição pelo doce.

estive em casa, com peso e sem poesia, em meio à vasta plantação que desvia água de quem precisa, porque é também minha casa esse país imenso e injusto. senti desejo de que fosse minha casa para sempre a casa de sêo romualdo, que planta mandioca e faz, no fogão à lenha com ajuda da família, a tapioca e o pão de queijo e avisa, quando está acabando que já já tem mais.

e me senti em casa, tão em casa, nas gentes que andaram comigo. é um mundo vasto e cheio pessoas de todo tipo, mas algumas dessas são mais um pouco do que a gente mesmo é. gente de ofícios, gostos e rostos diversos com o comum ansiar de dispor de tempo para o desconhecido. uma colega de caminhada contou que, naqueles 7 dias, era a primeira vez que ela vivia completamente no presente. outro comentou que poderia estar em outros tantos lugares, mas estava ali, por escolha. eu me senti em casa quando percebi que gente fazendo o que escolheu fazer, agente, ciente, buscando e desafiando, faz coisas lindas como que por natureza, como cantar e cuidar do outro.

considerei que talvez seja esta minha função no mundo: buscar meu lugar nele, mesmo sabendo que ele está em todo canto.

 

*para saber mais sobre o programa: O Caminho do Sertão. em breve, postarei textos lá no medium

Chuva

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A primeira gota caiu certeira na folha grossa da árvore, fez barulho de coisa rasgando. As outras, espatifadas no chão, levantaram do asfalto o cheiro morno. Limpando com a mão a primeira gota da testa, engoliu seco: havia saído sem guarda-chuva. Encarou a rua escura, soltando o ar pelo nariz: quanto se molharia no caminho dali até o toldo? Encostada ao muro, foi pouco a pouco ficando com as roupas encharcadas. Logo ele chega.

E chegou. Abriu a porta do carro, deu um beijo e riu.

Pensava que já era o quarto dia que chovia sem trégua. Por isso, talvez, merecesse não ir trabalhar hoje. O chefe entenderia? Não, ele não entende nada além de números. Calçou os sapatos. Soubesse que choveria tanto teria comprado as galochas. Horrorosas, mas de serventia numa hora dessas. Seria o caso de uma capa de chuva?

De segunda a sexta-feira, por volta das 8 da manhã, descia sete andares até a portaria, sorria bom dia, atravessava a rua, caminhava por dois quarteirões e esperava o ônibus. Nestes dias, a chuva irritava mas era gostoso observar a enxurrada, aquela água toda, as gotas caindo grossas uma a uma no metal da cobertura do ponto de ônibus. Então falava oi para o motorista, ignorava as vozes estridentes dos adolescentes-office-boys já cedo a rir, achava graça na despedida simpática do motorista “fica com deus, minha filha”, caminhava por três quarteirões e meio, chegava ao escritório às 9 em ponto.

“Essa chuva, olha, tá difícil, desisti de lavar as roupas, ainda bem que na esquina de casa mesmo tem uma lavanderia”, e os colegas não respondiam. Ninguém responde, esse pessoal é assim, só se empolga com suposições e maldizeres sobre a vida alheia.

Passadas as sete horas de trabalho, de novo a mesma coisa. Deixar o prédio do escritório, caminhar por três quarteirões, dobrar a esquina, passar por baixo da árvore de folhas grossas e chegar à papelaria onde ele sempre a encontrava em seu caminho de volta.

Esperava, agora observando as gotinhas que escorriam pelas folhas grossas da árvore e pingavam no asfalto. Pela esquina, cruzando a rua, todo dia passava um homem de bicicleta, e ele era indiferente àquela água toda: desde o primeiro dia seguia sem capa de chuva. As mãos do guidão molhado, os pneus finos fazendo ondas nas poças d’água, a camisa pouco a pouco colando ao corpo úmido.

Entrou no carro, ganhou dele um beijo, jogou no chão o guarda-chuva.

Sentado no sofá, na hora do noticiário, foi que ele falou meio assim se divertindo “olha, esse negócio de guarda-chuva… pra que isso?”. Como pra quê, se chovia há quatro dias, incessantemente, agora mesmo podia ouvir na janela as gotas batendo, amanhã certamente seria mais um dia de olhar a enxurrada escorrer pela rua e mais tarde ouvir as gotinhas no toldo da papelaria enquanto um rapaz passava sempre ao longe de bicicleta, nunca com capa de chuva, sempre a se molhar, devia morar por ali e gostava de chuva na volta pra casa depois do expediente, vai saber, vai entender essa gente.

O olhar dele vagou pelo teto, depois foi fundo nos olhos abertos diante dele, as mãos tocando de leve a coxa dela: o que tá acontecendo?

Eu é que te perguntou, ela falou, sem desarmar o sorriso. Ele esfregou a mão sobre a coxa dela e caminhou até a sacada: vem cá.

Ela encostou no parapeito, esticou o braço e reparou nas gotas estalando sobre a pele. Riu. Como não? Aquilo a escorrer era o quê? Olha cada pingo grosso. Lá embaixo, um casal caminhava pela rua escura. Nenhum deles se escondia debaixo de guarda chuva, num clichê romântico. Passou uma senhora com uma sacola de compras, e mais uma mulher segurando pela coleira um cachorro, com o capuz do moletom sobre a cabeça. Ah, olha lá! E insistiu que de repente o mundo havia mudado, as pessoas, vai ver, algumas delas, queriam aproveitar a chuva.

Ele juntou as folhas de jornal espalhadas pelo chão no canto da sala, entre outros jornais de outros dias, desajeitado procurou estre as páginas e voltou ao lado dela, apontando os desenhinhos de pequenos sóis na segunda, terça e quarta-feira. Olha: até na previsão. Ela apoiou o corpo contra o parapeito mais uma vez e ainda pôde ver a mulher com o cachorro virando a esquina, as gotas deveriam manchar o moletom cinza, se morassem três andares para baixo poderia ver, mas dali era impossível. Parado agora um passo atrás, ele mantinha a expressão de quem derruba café na camisa limpa 30 segundos antes da reunião. Esperou ela falar, mas ela não falou. Olhou de novo a água escorrer pela rua, se acumulando em pequenos lagos na esquina de baixo.

Quer ouvir esse conto? Clique aqui

Para ler outras coisinhas minhas chega no medium 😉

Devagar se vai longe

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Dias de longas horas arrastadas, outros de piscar os olhos e já ser breu. As manhãs de sol serviam para a roupa no varal, todas as outras eram tempo para dar de beber às plantas e cortar, descascar, ferver, mexer com o almoço.

Quando chovia, o céu se armava num cinza senhor do mundo, espalhando bolor em cantos de parede a ponto de se sair ao quintal segurando punhado de sal em pedido à Santa Clara. Fiou-se com olhar e paciência uma colcha de retalhos feita de dias sequenciados, uns de nuvens, outros tantos de panos brancos secando à sol e brisa. Entre o de se manter e o esperar, havia espaços para observar passarinhos juntando palha na quina do forro da varanda em cima da madeira. Trazia no biquinho os gravetos, depois amuava-se. E lagarta enrolando ela mesma em casulo de seda. Como será que a lagarta conta os dias, se em tão pouca vida minha ela vive duas ou três? Meu tempo, perto dela, sobra.

Resto de tempo é vida, chance de a gente se entender com a sutileza ou dar nome diverso para cada flor. Universo manda sinais, por exemplo: quando chega sorrateiro pela janela da cozinha o cheiro do amaciante da roupa no varal ali por volta do meio dia é que vem chuva de tardezinha. Em maio, formiga faz fila no quintal carregando folha na cabeça, ou qualquer migalha. Setembro a cigarra se estoura de cantar. No observar é que a gente se faz.

Que os primeiros versos assim foram: depois de uma vida. Na folha em branco, caíram por letra as coisas vistas. Ninguém faz poema de véspera.

2017 ainda me paga

2017

deram-me um ramo de lavanda. coloca no travesseiro, é bom. guardei na capa vermelha, surrada, já cheia de bolinhas de tecido muito lavado, e me enfiei no ônibus para enfrentar 900 e lá vai quilômetros com sorte sem ninguém ao lado. escolhi janela, na esperança de pegar, já no outro dia, o começo da manhã no cerrado brasileiro. na primeira parada sentou ao meu lado um homem espaçoso, como há de ser com quem não tem sorte, e pensei que seria difícil dali por diante levantar para ir ao banheiro. guardei na bolsa a garrafinha d’água e engoli um halls vermelho. na outra parada o homem mudou de poltrona, porque há de ser assim também com que não tem sorte: às vezes tudo vira. então dormi com a cabeça encostada no cheiro da lavanda do macio do travesseiro mais velho que a capa. de um lado, de outro, com os pés apoiados no encosto do banco da frente, com pés apoiados na mochila no chão, de todo jeito que se pode dormir no espaço de dois bancos de ônibus, acordando de hora em hora por causa da dor nas pernas ou para comer um pão de queijo, o máximo que a inteligência permite gastar nessas paradas no meio da estrada, onde um sanduíche custa mais que uma janta num restaurante italiano dentro da cidade. bafo, cansaço, dor no corpo, tudo, no fundo, é festa quando se terá em poucas horas um nascer do sol no meio do cerrado brasileiro e um abraço de chegada. e na chegada, casa nova, tudo novo, filtro dos sonhos e pés de majericão, 15 dias pra se viver uma vida em poucos metros quadrados com uma poltrona perto da varanda onde ficou, por 15 dias, o travesseiro alavandado. tanta vida pra viver, saudades pra matar, plantas pra cuidar, ruas vazias a serem caminhadas e lugares a serem descobertos, planos para fazer, que ficou pra lá a volta pra casa, a consciência entendeu que não era hora de pensar, como há de ser nos momentos que são vividos por inteiro: não existe antes nem depois. então, plantas saudáveis, casa acomodada ao meu ser, minhas roupas no varal, vizinhos brigando e rita lee no som pra espantar a voz que entra pela sacada. eu, cantando, no meio da sala, olho para o travesseiro de capa vermelha ainda repousado na poltrona. amanhã nos vemos de novo, 900 e lá vai quilômetro brasil abaixo, volta pra casa. enxuguei meus olhos na fronha vermelha e descobri que eles são sensíveis à lavanda.

20 coisas para fazer antes dos 30 (sem pressão)

aos30

eu tinha uns 28 anos quando vi uma daquelas listas de sei lá quantas coisas para se fazer antes dos 30 e senti que certamente não ia dar. sem chance. tenho que correr putaqueopariu como é que em dois anos eu vou conhecer mais 25 países pra inteirar 30 e ainda acampar sozinha na Islândia para fotografar uma aurora boeral?, pensei. bateu aquela palpitação e a certeza de que minha vida era muito chata porque eu nunca em 28 anos de existência tinha andado no lombo de um camelo nem cantado cantigas ancestrais com crianças vietnamitas.

cheguei aos 30 sem completar a tal da lista, obviamente, mas na minha, na paz, tranquilona, entendendo que 30 é só um número e que a vida não é uma disputa de quem pula de bung jump dos lugares mais ousados (inclusive deus me livre). então, fiz essa listinha de coisas realmente importantes para se fazer antes dos 30, que pode te ajudar a chegar lá com tranquilidade e autoconhecimento. se você é do time dos ansiosos, chega mais. esta lista é para você.

1. parar de ler revistas de beleza
sério. agora. já. porque é o seguinte: aos 30, o metabolismo fica mais lento, as marcas de expressão começam a aparecer, o cansaço aumenta e ler sobre a rotina semanal de aulas de boxe da fernanda souza só vai te fazer se sentir uma péssima pessoa. além disso, aquela pele é photoshop.

2. criar o hábito de ler diariamente
se não começou, comece e leve para a vida. é um hábito que só te acrescenta coisas boas. e tem tanta coisa pra ler nesse mundo: de notícias a livros, as possibilidade são infinitas.

3. aprender um novo idioma
falar outro idioma é bom não só para o currículo. ler livros na linguagem original ou ver séries sem legenda são pequenas felicidades cotidianas e eu juro pra você: é bom se apegar às felicidades cotidianas.

4. passar tempo com seus avós
se você tem a sorte de ainda contar com a pesença deles neste mundo, aproveite o quanto puder. quando você chegar aos 30, eles estarão com, mais ou menos, 80. e talvez estejam vivendo os últimos anos por aqui. é a triste e cruel realidade da nossa insignificância sobre a terra. a nós, cabe ser feliz e ficar perto de quem nos faz bem.

5. aprender a respirar
parece bizarro mas não é. a maioria de nós respira errado. a correria do dia a dia nos faz manter a respiração curta, aquela que não preenche o pulmão por completo. aulas de teatro, yoga ou canto são ótimas para nos ajudar a respirar corretamente e entender o mecanismo dessa coisa básica que nos mantém vivos.

6. aprender sobre manutenção básica de casa
trocar chuveiro, tirar teias de aranha do teto, renovar móveis. qualquer coisa que seja útil e que possa te salvar de um imprevisto, te distrair ou pelo menos ajudar a poupar uma grana.

7. desenvolver um hobbie
pode ser pintura em tecido, violão, bordado, cinema, poesia, culinária. há tanto nesse mundo para ser feito e aprendido, e parece que depois da faculdade a gente entra no modo automático e se afasta daquelas coisinhas que dão sentido ao cotidiano. se possível, não deixe isso acontecer.

8. aprender a se alimentar bem
alimentar-se de 3 em 3 horas, beber água, comer vegetais: não é tão difícil assim. o lance não é virar a louca da dieta, aliás, longe disso. o negócio é diminuir os industrializados, perceber o que te faz bem e o que faz mal e respeitar seu organismo. a saúde agradece (e você vai ver que faz uma grande diferença no dia a dia).

9. criar hábitos saudáveis
praticar atividades físicas, dormir bem, meditar, caminhar. existem milhares de possibilidades de mexer o corpo e cuidar da mente. o importante é chegar aos 30 com a cabeça boa e a saúde em dia.

10. avaliar seus hábitos de consumo
afinal, não faz sentido gastar dinheiro com coisas que a gente nem precisa, né não? maturidade tá aí pra ensinar que de repente aquela bolsa custa mais que 5 jantares no seu restaurante preferido, com bebida e tudo mais.

11. cuidar de plantas
além de ter hortaliças frescas em casa, cuidar de um jardinzinho proporciona minutos de higiene mental (e ver as plantinhas florescendo é coisamaislindaorgulhodamamãe).

gosta de plantas? leia também “sobre plantas e amadurecimento”.

12. botar as contas em dia
elas chegam todo mês sem falta, atrasam, acumulam. tem cartão de crédito, receita federal porque a gente cai na malha fina sim, cartão da renner. escuta a tia: para, faz as contas, organiza, se for o caso fica uns dois meses sem beber, sem comer fora, sem ir ao cinema mas pelamordedeus não deixa as contas virarem uma bola de neve porque essa avalanche vai uma hora te carregar pro fundo do poço do serasa.

13. viajar sozinha
não precisa ser para o vietnã. o brasil tem lugares lindos em qualquer canto. o que vale é tirar umas férias com você mesma e ver no que dá. vai ser delícia, vai ser gostoso.

14. aprender a cozinhar
ninguém aqui quer ser o próximo masterchef, mas é válido saber fazer pelo menos um arroz com feijão e uma lasanha bem gostosa pra quando quiser surpreender alguém com um jantarzinho.

15. rever seu filme preferido da adolescência
reassisti as patricinhas de berverly hills e descobri que a cher não é uma má pessoa.

16. sair da casa dos pais
se você ainda não saiu, agora é a hora. morar sozinho (ou com amigos) é maravilhoso! você vai descobrir o seu jeitinho de fazer as coisas e conhecer todo um novo universo feito de possibilidades, como receber quem quiser na hora quiser ou ficar sem açúcar no meio de um bolo e ter que pedir pro vizinho. e seus pais vão sentir sua falta mas, sério, vão curtir bastante porque queridão: 30 anos e morando com os pais num dá!

17. fazer a festa na loja de departamentos
comprar cortinas, tapetes, potes, velas aromáticas, prendedores de sacos plásticos, canecas, jogo de talher e mais um monte de coisas que você nem sabia que precisava até entrar numa dessas lojas é maravilhoso ❤

18. mudar o cabelo
na verdade, a ideia é: perder o medo de mudar o cabelo. cortar curtinho, ou deixar crescer, pintar de azul, descolorir. enfim, vale tentar pelo menos uma vez até porque em breve eles vão ficar brancos e você não terá escolha a não ser aceitar a mudança. rs

19. aceitar que haverá muitos sábados em casa
de pijama, vendo netflix. faz parte e é DELICIOSO.

20. ser legal com você mesma
a gente se cobra demais, vive se comparando e agora ainda tem a internet para jogar na nossa cara o sucesso alheio, mas olha só: todo mundo fica às vezes meio fudido. faz parte. o negócio é entender que cada um tem seu tempo. essa lista, inclusive, talvez nem sirva para você e nesse caso tudo bem, você pode me mandar tomar no cu porque eu tenho 30 anos e já sei lidar com comentários negativos.

se você tiver outras dicas, pode acrescentar nos comentários, e se quiser ler mais textos meus sobre universo feminino, eu escrevo lá no medium também 🙂

Louro

louro

Vive no quintal da minha avó, atravessando gerações, uma goiabeira. Já deu frutos em mais de 40 verões. Serviu de suporte para balanço meu e brincadeiras do meu pai com o irmão. Árvore de família.

É normal, em dias de ventania, algumas folhas se soltarem e entrarem pela janela da cozinha. Repousam sobre o chão de azulejos até serem empurradas para fora com a vassoura.

Foi varrendo o chão que meu pai contou os minutos, ansioso, para comer pela primeira vez uma feijoada. Do fogão, a mãe dele – minha avó – cantarolava instruções: tem que ficar limpinho, que logo chegam as visitas. Tios, tias, primos e primas aos poucos encheram a casa no domingo. Mesa posta, guardanapos, garrafa de Tubaína, tudo nos conformes. Perto do fogão, meu pai erguia os pezinhos para filar um teco do caldo preto, nunca antes visto nos 8 anos de existência a base de arroz com feijão carioquinha.

Quando minha avó colocou na mesa a panelona de barro, o moleque xereta foi levantando a tampa pra enfiar as fuças na tão esperada. Nem bem levou na cara a baforada de calor, pegou a concha, meteu na panela, agiu rápido sem desviar a atenção do pessoal em volta, cada um na sua roda de conversa. Depois de todas as visitas já terem ido embora, correu pro lado da mãe, segurando a folha de louro coberta com uma crosta de caldo de feijão ressecado:

– Mãe! Tinha uma folha de goiabeira na feijoada, mas eu tirei rapidinho. Ninguém viu.

Para meus amigos que querem viajar

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Hoje o Facebook me mostrou a primeira foto que tirei na Irlanda, 3 anos atrás. De luva, toquinha e aquele sorriso de estou realizando um sonho.

Desde então, muitas pessoas vêm perguntar sobre a experiência. Como fazer, ir ou não ir, quanto de dinheiro é necessário. Meu conselho, além das dicas práticas sobre gastos e passeios é: se tem vontade, vá.

A ideia de conhecer o mundo não desgrudou de mim desde que eu tinha 5 anos, morava no sítio e um dia, olhando o horizonte, vi um monte branco sobre a pastagem.  Devia ser areia para construção ou serragem. Perguntei para minha mãe se lá era o Pólo Norte. Ela riu e me explicou que não, o Pólo Norte era muito mais longe, num tanto que eu não conseguiria ver só de esticar a vista. Saber que existia mais mundo do que meus olhos podiam enxergar deu nó na minha cabeça. Cresci querendo ver de perto, e minha mãe alimentando esses sonhos toda vez que chegava em casa com um livro novo do Pateta dando a volta ao mundo.

Eu sei que essas histórias de gente que largou tudo para viajar já encheram o saco, e são um recorte muito pequeno de uma geração. Poder dar um tempo na vida, fazer as malas e viver em outro país é um privilégio. Mas se te aconteceu de nascer nesse grupo de privilegiados que podem ter certo controle sobre o próprio destino, e se sua alma é atormentada pela vontade de sair para um passeio mais longo, vá. Se lá no fundo te bate de vez em quando a curiosidade de saber como é ouvir um sanfoneiro numa praça de Bogotá ou tomar um café numa calçada de Paris, organize-se para que isso aconteça. Guarde dinheiro, gaste menos com bobagens, venda o carro, procure por bolsas de estudo, faça o que estiver ao seu alcance, lembre-se que a vida é curta.

Eu tive medo de me afastar demais do mercado de trabalho. Temia voltar e nunca mais conseguir emprego. No fim, a gente volta mais preparado, ou tão mudado que percebe que aquela carreira que parecia importante não fazia sentido algum. É natural a gente estudar, estagiar, conseguir o primeiro emprego na área e fazer planos a partir daí, tudo de sopetão, sem tempo para pensar se é isso mesmo que queremos. E quando tudo flui assim, do jeito que o mundo espera que flua, dá medo de cair fora. Mas como esse papo é principalmente para aqueles que sentem uma certa inquietação com a vida como ela está, preciso contar uma coisa: provavelmente esse sentimento não vai passar enquanto você não fizer algo a respeito.  É como diz o tio Saramago: é necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não nos saímos de nós. Dar um passeio do lado de fora – da cidade, do país e de nós – faz bem.

De repente, acontece de você se encontrar. Pode acontecer de sentir saudades da vida antiga, emprego fixo e contas pagas, e a experiência vai ter servido para te mostrar que essa é a sua. Pode acontecer de você nunca mais voltar. Ou voltar tão diferente que, ao entrar no quarto antigo que você deixou para trás e mexer nas suas roupas velhas, sinta o impulso de pedir desculpas por estar fuçando no guarda-roupas de um estranho. E pode acontecer também de você voltar e nunca mais conseguir desfazer a mala, passar a apreciar paisagens que correm do lado de fora do ônibus, entendendo que até um passeio a 50 quilômetros de distância te acrescenta muita coisa. Foi o que aconteceu comigo, que aliás, faz meses que não desfaço minha mochila. Até porque eu ainda não conheci o Pólo Norte 🙂

***

Quer ler mais sobre o assunto? Clica aqui. Se você quer dicas sobre viagem, vem ler meus textos do DPB Intercâmbio.

Como lidar com fantasmas

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eu sou crente. não crente da forma como usamos no dia a dia para falar do vizinho que anda com a bíblia embaixo do braço ou da tia que frequenta o culto. crente dessas que crê. do lado oposto dos céticos. eu acredito em tudo, e vou desacreditando por exclusão, conforme vou vivendo. saci, por exemplo, estou a ponto de riscar da lista de tanto que ando em mato e nunca vi um.

se me falam que é preciso acreditar em alguma coisa para um dia ser salva, eu digo que acredito em todas – e também que não preciso ser salva porque já vivo suficientemente bem aqui, careço de esperar coisa melhor pra outra vida, não. vou levando fé em tudo e na hora que chegar o fim do meu mundo eu vejo se numa delas acertei. e se lá, no último suspiro, não me aparecer nada: nem jesus com cara de europeu, nem extraterrestre com aura iluminada, eu abraço a descrença. ou não abraço nada, porque já vou estar em outra – ou em nenhuma, nunca mais.

mas sobre fantasmas, afirmo: todo mundo tem, cada um com o seu. se eles vêm do além ou não, aí é outra história. teve uma época que eu tinha pesadelos constantes. zumbis me perseguiam, ou extraterrestres tentavam me levar para a nave. eu sentia muito medo, acordava assustada. então, alguém me disse: na próxima vez que um zumbi te importunar em sonho, bate um papo com ele. pergunta o que ele quer. tentem chegar a um acordo.

fiz. funcionou. pararam de me perseguir.

antigamente, eu ficava muito irritada com as pessoas que dizem: você tem que ter medo dos vivos, não dos mortos. pensava: com o vivo a gente conversa, tenta uma persuasão se for o caso. mas que posso eu fazer se no meio do corredor às 2 da madrugada me aparece o capeta? o desconhecido é assustador, ainda mais quando pintam ele com rabo, chifre e gosto por sofrimento alheio.

claro que isso foi uma fase, eu era muito nova. hoje, quando sinto uma energia estranha, começo logo a cantar uma música boa ou já vou perguntando: o que você quer aqui, ahn?. havendo ou não qualquer coisa no ar, ficamos ao menos conversados, deixo logo minhas intenções explícitas. visitas, só quando eu aceitar. e vocês sabem: a cabeça da gente inventa muita coisa, também.

o importante não é a procedência dos fantasmas, mas o modo como a gente lida com eles.

Eu nunca sei

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Eu nunca sei quando é a hora de falar de amor com você. Tenho tomado muita chuva por esses dias. Não sei se é porque sou desprevenida demais e saio sempre sem guarda-chuva, ou se tem chovido fora do normal em comparação aos últimos 26 anos, período no qual (pelo que me lembro) não tomei tanta chuva assim. Eu ia fazer uma metáfora sobre você e chuva, e ser pega de surpresa. Não fiz. Passou.

O fato é que tenho vivido um pouco sem rumo, dias encarrilados e eu passando por eles. É um grande problema quando crescemos com a certeza de que teremos um futuro brilhante, a gente fica parado esperando o futuro brilhante chegar e não faz nada para que ele chegue. Talvez porque na primeira série eu fui campeã no concurso de soletrar palavras, e passei a achar que a vida para mim seria fácil. Então fiz pouca coisa.

Tenho dissimulado mais do que vivido. A sensação constante da brevidade da vida é traiçoeira, se quer fazer muito e acaba-se privando de grande parte. Quero dizer: a gente vai listando o que é preciso ser feito e a lista embolora no bolso enquanto vamos ao supermercado toda quarta-feira.

Acontece que tem esses dias enfileirados, de chuva, de sol, de roupa se acumulando no cesto, e tem você. Eu olho para você e penso que é exatamente aquilo que eu preciso. Depois vem o medo de errar, de você querer fugir, medo de descobrir que não é nada disso, que é tudo coisa da minha cabeça. Tem mais essa: a constante sensação de que sempre estou fantasiando. A gente acha que quando crescer vai ser forte e dar conta de tudo. Então cresce e morre de medo o tempo todo.

O grande problema é que com gente que só se lança em terra firme não se brinca, e eu infelizmente sou esse tipo de pessoa. Digo infelizmente porque acabo perdendo parte da aventura, aquela coisa do incerto, de arriscar. Deve ser por isso que nunca fui viciada em jogo também.

Por outro lado, nunca me restou ao fim um coração esmigalhado, quem tá sempre de marreta na mão a postos pra despedaçar mais um sou eu, e antes isso fosse bom. Mas no fim eu saio dos amores e eles meio que nunca saem de mim, fica sempre uma mágoa do mal resolvido, aquele gosto amargo quando toca uma música que faz lembrar. Dor de estômago que chá nenhum cura.

Entende o que eu digo? Ontem choveu até as 4h. Da manhã. Eu não dormi, e pensava que seria perfeito se você estivesse por perto pra me abraçar, fazer café e deixar as meias jogadas no chão da sala. Depois pensei que você poderia ver comigo o filme que eu via, era Woody Allen, e eu não gosto dele o que me dá uma tristeza toda vez que vejo um e constato mais uma vez que perdi meu tempo me chateando.

O tempo tem passado assim, eu fazendo coisas sem um propósito muito claro e às vezes parando para pensar se ser adulto é isso mesmo. E no meio desse nevoeiro, dessas ideias frias com gosto de sabão em pó, aparece a salvação: você, ou algo assim. Talvez minha vida com você nela.

Das poucas coisas que sei, esta é uma delas: as pessoas com quem a gente iria até à puta que pariu não são de se deixar passar sem antes ter ido, pelo menos, um pouco mais longe. Eu penso, repenso e vejo que tempo eu já perco todo dia. Você, não. Você é lucro pra mim.

Do meio dessa chuva eu olho e te vejo um pouco com coração de marinheiro, o que me magoa. Eu, da minha terra firme.

***

Esse texto estava no blog antigo, e também foi para lá no Outras Palavras. Aqui, oh. Como tem chovido muito faz dias, lembrei dele. Gostou? Comenta, compartilha 🙂

A foto é do filme Y tu mama tambien, que não fala de chuva, mas fala de vida.