Category Archives: crônica

caminhando, me senti em casa

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a filosofia é a saudade-ânsia de se sentir em casa em todos os lugares. foi a primeira coisa que eu li depois de deixar a mala no chão do primeiro quarto onde morei depois de sair da casa dos meus pais. letras pretas num papelzinho amarelo grudado na porta do quarda-roupas de uma das minhas colegas. éramos 6, cada uma com sua cama naquele mesmo quarto grande de beliches e azulejos.

no começo vai ser agitado, tanta gente nova, mas quando você deitar na cama e olhar para o teto vai te bater uma solidão, tinha dito meu pai.

a frase do guarda-roupas da minha colega me salvou dos olhos vidrados no teto dentro do silêncio que faz um quarto de pensão quando todos já dormiram; e virou, dali pra frente, o lema que eu antes não sabia expressar. é parte de mim essa saudade-ânsia de me sentir em casa em todos os lugares. as vezes, esses lugares são pessoas.

foi esse lugar, por 7 dias, o solo sertanejo de minas gerais. não há forma mais fiel de estar no mundo do que andando sobre ele com os próprios pés, embrenhando-se no que cresce do chão e conversando com quem habita estas terras. eu estive em casa em tantos lugares nesses 7 dias. na terra vermelha que manchou para sempre minhas meias brancas, na água fria que aliviou meus pés machucados, na areia que antes foi rio e serviu de leito perfeito para minhas costas cansadas. estive em casa sob o teto de gente que, gentilmente, abriu as portas para nos receber. estive em casa olhando nas paredes retratos de pessoas que nunca vi, provando sabores que não conhecia, como doce de buriti e suco de araçá. estive em casa dentro de uma barraca que por 7 dias foi, de fato, minha casa, e aprendi o melhor jeito de arrumá-la, aceitando que areia não é sujeira. saudade-ânsia é resignificar o mundo, afinal, e olhar para as coisas como se já tivessem sido e como se nunca fossem ser. desmontar tudo, abrir espaço no peito e entender que nada é certo (nem o hábito de escovar os dentes, que, afinal vem antes ou depois do café?). então, eu estive em casa tomando banho frio, eu que amo água quente. e estive em casa comendo rapadura quando bateu a fome, eu que nunca começo uma refeição pelo doce.

estive em casa, com peso e sem poesia, em meio à vasta plantação que desvia água de quem precisa, porque é também minha casa esse país imenso e injusto. senti desejo de que fosse minha casa para sempre a casa de sêo romualdo, que planta mandioca e faz, no fogão à lenha com ajuda da família, a tapioca e o pão de queijo e avisa, quando está acabando que já já tem mais.

e me senti em casa, tão em casa, nas gentes que andaram comigo. é um mundo vasto e cheio pessoas de todo tipo, mas algumas dessas são mais um pouco do que a gente mesmo é. gente de ofícios, gostos e rostos diversos com o comum ansiar de dispor de tempo para o desconhecido. uma colega de caminhada contou que, naqueles 7 dias, era a primeira vez que ela vivia completamente no presente. outro comentou que poderia estar em outros tantos lugares, mas estava ali, por escolha. eu me senti em casa quando percebi que gente fazendo o que escolheu fazer, agente, ciente, buscando e desafiando, faz coisas lindas como que por natureza, como cantar e cuidar do outro.

considerei que talvez seja esta minha função no mundo: buscar meu lugar nele, mesmo sabendo que ele é em todo canto.

 

*para saber mais sobre o programa: O Caminho do Sertão. em breve, postarei textos lá no medium

Casa, memória e Rita Lee

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estou lendo “uma autobiografia”, da rita lee. ela inicia o livro de memórias – aleatórias e narradas com despretensão – descrevendo o casarão onde foi criada, na vila mariana, em são paulo. escada, quadro na parede, banheiro, tudo é rememorado em detalhes.

na sala da casa dos meus pais tem um espelho grande, emoldurado em madeira escura, pendurado sobre um aparador de madeira também escura. minha mãe conta que quis reproduzir naquele canto um pedacinho da casa onde moramos por 15 anos, em dois córregos, interior de são paulo. era uma casa com janelões de vidro voltados para a rua, de onde víamos as duas árvores grandes da calçada, os carros e as pessoas que passavam. não havia portão atrapalhando a vista, somente um portãozinho de madeira, mais baixo que as janelas.

o cantinho do espelho ficava num hall em frente à porta da cozinha, no início do corredor que dava para os quartos. entre uma sala e outra, tinha uma porta dupla de madeira, com mecânica de portão de saloon de filme de faroeste, que a gente empurrava teatralmente com as duas mãos, escancarando a abertura e dando tom triunfal à entrada na sala de visitas, onde ficava o rádio e um quadro grande e colorido – os músicos do central park era o nome da obra, que meu pai ganhou de um amigo  – enquanto as portas se fechavam às nossas costas, balançando. esses e outros detalhes, como o telhado da edícula ao fundo, facilmente acessado pelo muro lateral, onde eu e meu irmão subímos algumas vezes para admirar o céu, foram se desenhando na minha memória enquanto eu lia o relato da rita – que até o final do livro estarei chamando de amiga.

era uma casa grande, cheia de coisas que já estavam lá quando chegamos, como o espelho e a porta de madeira, e outras que trouxemos: quadros, móveis, marcas de pés nos muros usados de apoio para as escaladas. na casa onde meus pais vivem agora, eu nunca vi a mesa da sala totalmente arrumada. tem sempre papéis, vasos de planta, fotos e objetos dos mais diversos esquecidos por ali. no barzinho – aqueles de canto de sala de estar – sempre falta uma taça, que é frequentemente encontrada suja sobre a mesa da cozinha, com um restinho de vinho manchando o fundo. onde moro, o cinzeiro nunca está vazio e os livros se acumulam em pilhas sobre os móveis. é natural que, onde há gente, coisas se acumulem, quebrem, sejam transferidas de um canto para o outro. as casas moldam-se às vidas que transitam por ali. a gente é feliz quando e também é feliz onde, e felicidade de gente deixa marca em pessoas e lugares.  depois, vira tudo memória pra gente fechar o olho e lembrar do balcão da cozinha onde, encostados, jogamos tanto conversa fora.

esqueci de pessoas, festas e datas, mas lembro com detalhes dos ambientes onde vivi bons momentos, como as telhas da varanda da casa da minha avó, com a inscrição em alto relevo: são sebastião, que era o nome da olaria.

anos depois, quando voltei a dois córregos, quis passar em frente à casa do portãozinho de madeira. minha amiga advertiu: tem certeza?

seguimos em frente e demorei uns segundos para entender: as janelonas de vidro estavam totalmente escondidadas atrás de um portão alto, branco e metálico. a casa onde crescemos só existe agora na minha memória, num sinal claro de que nada, nem o que é de tijolo e cimento, dura para sempre no universo material.

belchior, o poeta deste país bonito e duro

Belchior; Cantor

não sou uma pessoa de religião, mas tenho comigo meia dúzia de textos que são minhas orações. um deles é a carta que o ator matheus nachtergaele escreveu em despedida a ariano suassuna. em certo ponto, matheus trata o brasil como “esse país bonito e duro”, e é ali que a carta me fisga.

porque são assim as minhas orações: desdobramentos do meu olhar. são palavras que me mostram que, no que diz respeito ao modo de ver o mundo, eu não estou sozinha. então, rezo com aqueles com quem concordo. ou com aqueles que gentilmente me mostram uma nova forma de ver as coisas antigas. por isso, por exemplo, é de manoel de barros outra das minhas orações, o texto em que ele fala sobre a importância das coisas. recomendo a você, também, que leia.

dito isso, vamos em frente. eu estava sentada numa cadeira de lata, numa barraca cheia de gente, num calor de um sol longe de ser de quase dezembro, comendo um acarajé, quando soube que belchior morreu. naquele exato momento em que me disseram: tenho uma coisa pra te contar que pode te deixar triste, mais uma vez eu lembrava que não gosto de acarajé, mas foi só depois da mordida que veio a lembrança, porque sempre me deixo enganar pela cor e pelo cheiro. eu comia um acarajé numa praça na capital do brasil, onde índios sentados na sargeta tocavam flauta e vendedores disputavam a atenção dos turistas, quando me foi dito que belchior, enfim, reapareceu, para sumir de vez. quem acompanha as notícias e burburinhos sabe que ele andava sumido fazia anos. fugiu pelo mundo, cheio de dívidas e enrolado com um novo amor, algo assim, totalmente confuso, bastantemente poético. o o globo falou sobre isso certa vez.

é de belchior, também, uma das minhas orações. se minha vida fosse filme, teria ele na trilha sonora, com essas músicas que tantas vezes embalaram meu olhar através de janelas de ônibus. longe de casa, nas noites solitárias num país frio e distante, era a voz do tio do bigode que me lembrava da certeza, áspera e gigante, de que tenho coisas novas para viver.

então, no meio da capital desse país bonito e duro, chega-me a notícia da morte do poeta que nunca negou essa dureza, e fez dela matéria prima duma obra que fala tanto da gente. enquanto eu mastigava, contrariada, a massa do acarajé, e botava pimenta à revelia, engolindo tudo com cerveja, lembrava de uma e outra frase. uma nova mudança em breve, vai acontecer, veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte, nunca mais seu pai falou she’s leaving home e meteu o pé na estrada. amigo, eu me desesperava, mas  presentemente posso me considerar sujeito de sorte, porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte e mais que tudo somos, sou e continuarei sendo essa menina latino americana que esquece dos próprios gostos, engole tanta coisa e se emociona com a morte. eis a minha oração:

Louro

louro

Vive no quintal da minha avó, atravessando gerações, uma goiabeira. Já deu frutos em mais de 40 verões. Serviu de suporte para balanço meu e brincadeiras do meu pai com o irmão. Árvore de família.

É normal, em dias de ventania, algumas folhas se soltarem e entrarem pela janela da cozinha. Repousam sobre o chão de azulejos até serem empurradas para fora com a vassoura.

Foi varrendo o chão que meu pai contou os minutos, ansioso, para comer pela primeira vez uma feijoada. Do fogão, a mãe dele – minha avó – cantarolava instruções: tem que ficar limpinho, que logo chegam as visitas. Tios, tias, primos e primas aos poucos encheram a casa no domingo. Mesa posta, guardanapos, garrafa de Tubaína, tudo nos conformes. Perto do fogão, meu pai erguia os pezinhos para filar um teco do caldo preto, nunca antes visto nos 8 anos de existência a base de arroz com feijão carioquinha.

Quando minha avó colocou na mesa a panelona de barro, o moleque xereta foi levantando a tampa pra enfiar as fuças na tão esperada. Nem bem levou na cara a baforada de calor, pegou a concha, meteu na panela, agiu rápido sem desviar a atenção do pessoal em volta, cada um na sua roda de conversa. Depois de todas as visitas já terem ido embora, correu pro lado da mãe, segurando a folha de louro coberta com uma crosta de caldo de feijão ressecado:

– Mãe! Tinha uma folha de goiabeira na feijoada, mas eu tirei rapidinho. Ninguém viu.

lendas e histórias pra dormir

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o chocolate surpresa vai voltar para fazer a alegria da galera de 30 e poucos anos. nada mais infância anos 90 que isso e o chiclete ploc com álbum dos animais da amazônia. foi lá que eu descobri o que era uma víbora. e foi nos anos 90 que eu peguei trauma de chocolate galak porque um dia comi até vomitar.

pelo sabor e pelo cheiro a gente consegue reviver muita coisa.

eu lembro do xampu vital ervas, de frasco cilíndrico e tampa verde. quando minha mãe levantava de manhã, eu encostava a cabeça no travesseiro que ela dormia e pegava no sono respirando o cheirinho do xampu que o cabelo dela deixava ali. quem me lembrou disso foi gabriel, meu amigo, numa conversa nostálgica que tivemos enquanto assistíamos a um documentário sobre sacis. segundo o especialista, eles nascem em ninhadas de 7, crescem até 77 cm e morrem aos 77 anos. há machos e fêmeas, andam no meio de rodamoinhos e é preciso paciência para ver um. “não pode ter ansiedade para ver saci”, disse.

eu nunca vi.

minha avó diz que viu, quando era criança. a avó do gabriel falava de lobisomem. foi nessa conversa sobre coisas antigas que chegamos ao travesseiro das nossas mães com cheiro de vital ervas.

meu pai contava histórias pra gente dormir. inventava, enchia de detalhes, fazia suspense. no fim, ele dormia e a gente ficava acordado imaginando tudo aquilo que acabáramos de ouvir. noite escura, um velho andando sozinho numa estrada de terra. relâmpagos no céu, um uivo à distância. ele aperta o passo, o arrastar da bota levanta poeira do chão.

o pai descrevia o barulho da bota do homem raspando na terra batida. eu sei até hoje como é o rosto desse homem que nunca vi.

cresci com apreço por narrativas. gosto mais de história que de fato. mais de roteiro que de efeito especial. uma boa história não precisa de nada além de alguém que conte bem.

se você também gosta, eu te sugiro o filme Um Conto Chinês. tem no netflix. é essa dica, afinal, o único propósito desse post. além de jogar conversa fora. 

Para meus amigos que querem viajar

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Hoje o Facebook me mostrou a primeira foto que tirei na Irlanda, 3 anos atrás. De luva, toquinha e aquele sorriso de estou realizando um sonho.

Desde então, muitas pessoas vêm perguntar sobre a experiência. Como fazer, ir ou não ir, quanto de dinheiro é necessário. Meu conselho, além das dicas práticas sobre gastos e passeios é: se tem vontade, vá.

A ideia de conhecer o mundo não desgrudou de mim desde que eu tinha 5 anos, morava no sítio e um dia, olhando o horizonte, vi um monte branco sobre a pastagem.  Devia ser areia para construção ou serragem. Perguntei para minha mãe se lá era o Pólo Norte. Ela riu e me explicou que não, o Pólo Norte era muito mais longe, num tanto que eu não conseguiria ver só de esticar a vista. Saber que existia mais mundo do que meus olhos podiam enxergar deu nó na minha cabeça. Cresci querendo ver de perto, e minha mãe alimentando esses sonhos toda vez que chegava em casa com um livro novo do Pateta dando a volta ao mundo.

Eu sei que essas histórias de gente que largou tudo para viajar já encheram o saco, e são um recorte muito pequeno de uma geração. Poder dar um tempo na vida, fazer as malas e viver em outro país é um privilégio. Mas se te aconteceu de nascer nesse grupo de privilegiados que podem ter certo controle sobre o próprio destino, e se sua alma é atormentada pela vontade de sair para um passeio mais longo, vá. Se lá no fundo te bate de vez em quando a curiosidade de saber como é ouvir um sanfoneiro numa praça de Bogotá ou tomar um café numa calçada de Paris, organize-se para que isso aconteça. Guarde dinheiro, gaste menos com bobagens, venda o carro, procure por bolsas de estudo, faça o que estiver ao seu alcance, lembre-se que a vida é curta.

Eu tive medo de me afastar demais do mercado de trabalho. Temia voltar e nunca mais conseguir emprego. No fim, a gente volta mais preparado, ou tão mudado que percebe que aquela carreira que parecia importante não fazia sentido algum. É natural a gente estudar, estagiar, conseguir o primeiro emprego na área e fazer planos a partir daí, tudo de sopetão, sem tempo para pensar se é isso mesmo que queremos. E quando tudo flui assim, do jeito que o mundo espera que flua, dá medo de cair fora. Mas como esse papo é principalmente para aqueles que sentem uma certa inquietação com a vida como ela está, preciso contar uma coisa: provavelmente esse sentimento não vai passar enquanto você não fizer algo a respeito.  É como diz o tio Saramago: é necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não nos saímos de nós. Dar um passeio do lado de fora – da cidade, do país e de nós – faz bem.

De repente, acontece de você se encontrar. Pode acontecer de sentir saudades da vida antiga, emprego fixo e contas pagas, e a experiência vai ter servido para te mostrar que essa é a sua. Pode acontecer de você nunca mais voltar. Ou voltar tão diferente que, ao entrar no quarto antigo que você deixou para trás e mexer nas suas roupas velhas, sinta o impulso de pedir desculpas por estar fuçando no guarda-roupas de um estranho. E pode acontecer também de você voltar e nunca mais conseguir desfazer a mala, passar a apreciar paisagens que correm do lado de fora do ônibus, entendendo que até um passeio a 50 quilômetros de distância te acrescenta muita coisa. Foi o que aconteceu comigo, que aliás, faz meses que não desfaço minha mochila. Até porque eu ainda não conheci o Pólo Norte 🙂

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Quer ler mais sobre o assunto? Clica aqui. Se você quer dicas sobre viagem, vem ler meus textos do DPB Intercâmbio.

dia do amigo

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fazia 5 anos que a gente não se encontrava. as coisas que eu sabia, era a internet que contava. e de repente, a gente estava ali de novo, descalças, sentadas num degrau, conversando como se a última vez tivesse sido ontem. amizade é uma coisa muito bonita, a gente se assenta na vida da pessoa, ela na nossa e aquele cantinho que é dela vai sempre ser.

quando o amigo é muito parecido com a gente, é um alívio, porque a gente sente que não está sozinho no mundo. e quando ele é muito diferente, o bom é saber que tem gente pra tudo nesse mundo, até pra aceitar nosso jeito e seguir amando, apesar. amigo é nosso canto de conforto, é traquilidade na vida.

porque a vida é. chega uma hora que a gente entende que não tem definição. é, vai ser, está sendo. caldo de onda do mar, rasteira, vendaval e calmaria. se no meio de tudo isso a gente encontrar um tempinho para sentar no banco da praça, tomar um sorvete, abrir uma cerveja, ouvir um disco antigo, colocar as malas no carro, traçar um roteiro que nunca vai sair do papel, escrever uma carta, inventar um apelido, emprestar roupas, tirar fotos e rir, rir muito, o sentido da vida já está dado.

ou, como disse vinícius de moraes, a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

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a foto foi tirada na Itália.

Como lidar com fantasmas

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eu sou crente. não crente da forma como usamos no dia a dia para falar do vizinho que anda com a bíblia embaixo do braço ou da tia que frequenta o culto. crente dessas que crê. do lado oposto dos céticos. eu acredito em tudo, e vou desacreditando por exclusão, conforme vou vivendo. saci, por exemplo, estou a ponto de riscar da lista de tanto que ando em mato e nunca vi um.

se me falam que é preciso acreditar em alguma coisa para um dia ser salva, eu digo que acredito em todas – e também que não preciso ser salva porque já vivo suficientemente bem aqui, careço de esperar coisa melhor pra outra vida, não. vou levando fé em tudo e na hora que chegar o fim do meu mundo eu vejo se numa delas acertei. e se lá, no último suspiro, não me aparecer nada: nem jesus com cara de europeu, nem extraterrestre com aura iluminada, eu abraço a descrença. ou não abraço nada, porque já vou estar em outra – ou em nenhuma, nunca mais.

mas sobre fantasmas, afirmo: todo mundo tem, cada um com o seu. se eles vêm do além ou não, aí é outra história. teve uma época que eu tinha pesadelos constantes. zumbis me perseguiam, ou extraterrestres tentavam me levar para a nave. eu sentia muito medo, acordava assustada. então, alguém me disse: na próxima vez que um zumbi te importunar em sonho, bate um papo com ele. pergunta o que ele quer. tentem chegar a um acordo.

fiz. funcionou. pararam de me perseguir.

antigamente, eu ficava muito irritada com as pessoas que dizem: você tem que ter medo dos vivos, não dos mortos. pensava: com o vivo a gente conversa, tenta uma persuasão se for o caso. mas que posso eu fazer se no meio do corredor às 2 da madrugada me aparece o capeta? o desconhecido é assustador, ainda mais quando pintam ele com rabo, chifre e gosto por sofrimento alheio.

claro que isso foi uma fase, eu era muito nova. hoje, quando sinto uma energia estranha, começo logo a cantar uma música boa ou já vou perguntando: o que você quer aqui, ahn?. havendo ou não qualquer coisa no ar, ficamos ao menos conversados, deixo logo minhas intenções explícitas. visitas, só quando eu aceitar. e vocês sabem: a cabeça da gente inventa muita coisa, também.

o importante não é a procedência dos fantasmas, mas o modo como a gente lida com eles.

bustiê

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hoje minha avó falou piruá. fazia uns 10 anos que eu não ouvia essa palavra. ela disse que minha tia não sabe fazer pipoca, botou um pacote inteiro de milho na panela e só saiu piruá. minha avó reverteu o caso e tivemos muita pipoca. eu, que nem com vontade estava, fui comer por causa dos piruás, que depois da magia da cozinheira-chefa eram poucos. mas é que o assunto despertou vontade.

piruá é coisa que eu ouvia quando criança, igual cafona e bustiê. eu gosto de coisa velha. palavra, objeto, casa. moro num apartamento antigo, desses de cômodo grande, varanda, pé direito alto e traça. tenho um monte de velharia. semana passada resgatei um bule que era do meu bisavô.

e de receita velha, gosto muito. coisa tradicional, de família. arroz de mãe. vocês podem me apresentar um milhão de bolos de coco e eu posso amar todos eles de formas diferentes, mas tem um bolo de coco que é O bolo, o que deu origem a todos os outros, e esse é minha avó que faz desde quando o meu mundo é mundo.

foi por isso que, hoje, vi falhar mais uma tentativa de ser vegana. minha mãe fez pizza de calabresa e vocês sabem: pra comida de mãe não se diz não.

continuo entusiasta do movimento, mas entendo minhas limitações: coração fraco e estômago forte. sorte que dia desses descobri o termo flexitariana. é essa gente que quer ser vegana, mas que não consegue ser tão vegana assim. que abre mão do bife todo dia mas sente dor no peito só de pensar que nunca mais comerá uma paella de frutos do mar. gente que tá nem aí pra sandália de couro, que se importa com o bem-estar animal e o futuro do planeta mas deus me livre nunca mais nessa vida comer um espetinho de panceta

parece bobagem inventar uma palavra pra definir gente que não tem tanta força de vontade. preguiçoso já servia bem, você pode pensar.  eu mesma cogitei isso. depois conclui que a palavra me contempla, sim. tá tudo ali no texto que linkei. vai além de dedicação, é coisa espiritual, de consciência de finitude da vida e medo de escolhas drásticas (vamos colocar uma explicação profunda para justificar nossas fraquezas, sim!). então ficamos acertados: sou flexitariana.

porque eu também gosto de palavra nova. menos body, que é maiô. e food truck, que, por favor, é trailer. 

Eu nunca sei

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Eu nunca sei quando é a hora de falar de amor com você. Tenho tomado muita chuva por esses dias. Não sei se é porque sou desprevenida demais e saio sempre sem guarda-chuva, ou se tem chovido fora do normal em comparação aos últimos 26 anos, período no qual (pelo que me lembro) não tomei tanta chuva assim. Eu ia fazer uma metáfora sobre você e chuva, e ser pega de surpresa. Não fiz. Passou.

O fato é que tenho vivido um pouco sem rumo, dias encarrilados e eu passando por eles. É um grande problema quando crescemos com a certeza de que teremos um futuro brilhante, a gente fica parado esperando o futuro brilhante chegar e não faz nada para que ele chegue. Talvez porque na primeira série eu fui campeã no concurso de soletrar palavras, e passei a achar que a vida para mim seria fácil. Então fiz pouca coisa.

Tenho dissimulado mais do que vivido. A sensação constante da brevidade da vida é traiçoeira, se quer fazer muito e acaba-se privando de grande parte. Quero dizer: a gente vai listando o que é preciso ser feito e a lista embolora no bolso enquanto vamos ao supermercado toda quarta-feira.

Acontece que tem esses dias enfileirados, de chuva, de sol, de roupa se acumulando no cesto, e tem você. Eu olho para você e penso que é exatamente aquilo que eu preciso. Depois vem o medo de errar, de você querer fugir, medo de descobrir que não é nada disso, que é tudo coisa da minha cabeça. Tem mais essa: a constante sensação de que sempre estou fantasiando. A gente acha que quando crescer vai ser forte e dar conta de tudo. Então cresce e morre de medo o tempo todo.

O grande problema é que com gente que só se lança em terra firme não se brinca, e eu infelizmente sou esse tipo de pessoa. Digo infelizmente porque acabo perdendo parte da aventura, aquela coisa do incerto, de arriscar. Deve ser por isso que nunca fui viciada em jogo também.

Por outro lado, nunca me restou ao fim um coração esmigalhado, quem tá sempre de marreta na mão a postos pra despedaçar mais um sou eu, e antes isso fosse bom. Mas no fim eu saio dos amores e eles meio que nunca saem de mim, fica sempre uma mágoa do mal resolvido, aquele gosto amargo quando toca uma música que faz lembrar. Dor de estômago que chá nenhum cura.

Entende o que eu digo? Ontem choveu até as 4h. Da manhã. Eu não dormi, e pensava que seria perfeito se você estivesse por perto pra me abraçar, fazer café e deixar as meias jogadas no chão da sala. Depois pensei que você poderia ver comigo o filme que eu via, era Woody Allen, e eu não gosto dele o que me dá uma tristeza toda vez que vejo um e constato mais uma vez que perdi meu tempo me chateando.

O tempo tem passado assim, eu fazendo coisas sem um propósito muito claro e às vezes parando para pensar se ser adulto é isso mesmo. E no meio desse nevoeiro, dessas ideias frias com gosto de sabão em pó, aparece a salvação: você, ou algo assim. Talvez minha vida com você nela.

Das poucas coisas que sei, esta é uma delas: as pessoas com quem a gente iria até à puta que pariu não são de se deixar passar sem antes ter ido, pelo menos, um pouco mais longe. Eu penso, repenso e vejo que tempo eu já perco todo dia. Você, não. Você é lucro pra mim.

Do meio dessa chuva eu olho e te vejo um pouco com coração de marinheiro, o que me magoa. Eu, da minha terra firme.

***

Esse texto estava no blog antigo, e também foi para lá no Outras Palavras. Aqui, oh. Como tem chovido muito faz dias, lembrei dele. Gostou? Comenta, compartilha 🙂

A foto é do filme Y tu mama tambien, que não fala de chuva, mas fala de vida.