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Casa, memória e Rita Lee

casa

estou lendo “uma autobiografia”, da rita lee. ela inicia o livro de memórias – aleatórias e narradas com despretensão – descrevendo o casarão onde foi criada, na vila mariana, em são paulo. escada, quadro na parede, banheiro, tudo é rememorado em detalhes.

na sala da casa dos meus pais tem um espelho grande, emoldurado em madeira escura, pendurado sobre um aparador de madeira também escura. minha mãe conta que quis reproduzir naquele canto um pedacinho da casa onde moramos por 15 anos, em dois córregos, interior de são paulo. era uma casa com janelões de vidro voltados para a rua, de onde víamos as duas árvores grandes da calçada, os carros e as pessoas que passavam. não havia portão atrapalhando a vista, somente um portãozinho de madeira, mais baixo que as janelas.

o cantinho do espelho ficava num hall em frente à porta da cozinha, no início do corredor que dava para os quartos. entre uma sala e outra, tinha uma porta dupla de madeira, com mecânica de portão de saloon de filme de faroeste, que a gente empurrava teatralmente com as duas mãos, escancarando a abertura e dando tom triunfal à entrada na sala de visitas, onde ficava o rádio e um quadro grande e colorido – os músicos do central park era o nome da obra, que meu pai ganhou de um amigo  – enquanto as portas se fechavam às nossas costas, balançando. esses e outros detalhes, como o telhado da edícula ao fundo, facilmente acessado pelo muro lateral, onde eu e meu irmão subímos algumas vezes para admirar o céu, foram se desenhando na minha memória enquanto eu lia o relato da rita – que até o final do livro estarei chamando de amiga.

era uma casa grande, cheia de coisas que já estavam lá quando chegamos, como o espelho e a porta de madeira, e outras que trouxemos: quadros, móveis, marcas de pés nos muros usados de apoio para as escaladas. na casa onde meus pais vivem agora, eu nunca vi a mesa da sala totalmente arrumada. tem sempre papéis, vasos de planta, fotos e objetos dos mais diversos esquecidos por ali. no barzinho – aqueles de canto de sala de estar – sempre falta uma taça, que é frequentemente encontrada suja sobre a mesa da cozinha, com um restinho de vinho manchando o fundo. onde moro, o cinzeiro nunca está vazio e os livros se acumulam em pilhas sobre os móveis. é natural que, onde há gente, coisas se acumulem, quebrem, sejam transferidas de um canto para o outro. as casas moldam-se às vidas que transitam por ali. a gente é feliz quando e também é feliz onde, e felicidade de gente deixa marca em pessoas e lugares.  depois, vira tudo memória pra gente fechar o olho e lembrar do balcão da cozinha onde, encostados, jogamos tanto conversa fora.

esqueci de pessoas, festas e datas, mas lembro com detalhes dos ambientes onde vivi bons momentos, como as telhas da varanda da casa da minha avó, com a inscrição em alto relevo: são sebastião, que era o nome da olaria.

anos depois, quando voltei a dois córregos, quis passar em frente à casa do portãozinho de madeira. minha amiga advertiu: tem certeza?

seguimos em frente e demorei uns segundos para entender: as janelonas de vidro estavam completamente escondidadas atrás de um portão alto, branco, metálico. a casa onde crescemos só existe agora na minha memória, num sinal claro de que nada, nem o que é de tijolo e cimento, dura para sempre no universo material.

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20 coisas para fazer antes dos 30 (sem pressão)

aos30

eu tinha uns 28 anos quando vi uma daquelas listas de sei lá quantas coisas para se fazer antes dos 30 e senti que certamente não ia dar. sem chance. tenho que correr putaqueopariu como é que em dois anos eu vou conhecer mais 25 países pra inteirar 30 e ainda acampar sozinha na Islândia para fotografar uma aurora boeral?, pensei. bateu aquela palpitação e a certeza de que minha vida era muito chata porque eu nunca em 28 anos de existência tinha andado no lombo de um camelo nem cantado cantigas ancestrais com crianças vietnamitas.

cheguei aos 30 sem completar a tal da lista, obviamente, mas na minha, na paz, tranquilona, entendendo que 30 é só um número e que a vida não é uma disputa de quem pula de bung jump dos lugares mais ousados (inclusive deus me livre). então, fiz essa listinha de coisas realmente importantes para se fazer antes dos 30, que pode te ajudar a chegar lá com tranquilidade e autoconhecimento. se você é do time dos ansiosos, chega mais. esta lista é para você.

1. parar de ler revistas de beleza
sério. agora. já. porque é o seguinte: aos 30, o metabolismo fica mais lento, as marcas de expressão começam a aparecer, o cansaço aumenta e ler sobre a rotina semanal de aulas de boxe da fernanda souza só vai te fazer se sentir uma péssima pessoa. além disso, aquela pele é photoshop.

2. criar o hábito de ler diariamente
se não começou, comece e leve para a vida. é um hábito que só te acrescenta coisas boas. e tem tanta coisa pra ler nesse mundo: de notícias a livros, as possibilidade são infinitas.

3. aprender um novo idioma
falar outro idioma é bom não só para o currículo. ler livros na linguagem original ou ver séries sem legenda são pequenas felicidades cotidianas e eu juro pra você: é bom se apegar às felicidades cotidianas.

4. passar tempo com seus avós
se você tem a sorte de ainda contar com a pesença deles neste mundo, aproveite o quanto puder. quando você chegar aos 30, eles estarão com, mais ou menos, 80. e talvez estejam vivendo os últimos anos por aqui. é a triste e cruel realidade da nossa insignificância sobre a terra. a nós, cabe ser feliz e ficar perto de quem nos faz bem.

5. aprender a respirar
parece bizarro mas não é. a maioria de nós respira errado. a correria do dia a dia nos faz manter a respiração curta, aquela que não preenche o pulmão por completo. aulas de teatro, yoga ou canto são ótimas para nos ajudar a respirar corretamente e entender o mecanismo dessa coisa básica que nos mantém vivos.

6. aprender sobre manutenção básica de casa
trocar chuveiro, tirar teias de aranha do teto, renovar móveis. qualquer coisa que seja útil e que possa te salvar de um imprevisto, te distrair ou pelo menos ajudar a poupar uma grana.

7. desenvolver um hobbie
pode ser pintura em tecido, violão, bordado, cinema, poesia, culinária. há tanto nesse mundo para ser feito e aprendido, e parece que depois da faculdade a gente entra no modo automático e se afasta daquelas coisinhas que dão sentido ao cotidiano. se possível, não deixe isso acontecer.

8. aprender a se alimentar bem
alimentar-se de 3 em 3 horas, beber água, comer vegetais: não é tão difícil assim. o lance não é virar a louca da dieta, aliás, longe disso. o negócio é diminuir os industrializados, perceber o que te faz bem e o que faz mal e respeitar seu organismo. a saúde agradece (e você vai ver que faz uma grande diferença no dia a dia).

9. criar hábitos saudáveis
praticar atividades físicas, dormir bem, meditar, caminhar. existem milhares de possibilidades de mexer o corpo e cuidar da mente. o importante é chegar aos 30 com a cabeça boa e a saúde em dia.

10. avaliar seus hábitos de consumo
afinal, não faz sentido gastar dinheiro com coisas que a gente nem precisa, né não? maturidade tá aí pra ensinar que de repente aquela bolsa custa mais que 5 jantares no seu restaurante preferido, com bebida e tudo mais.

11. cuidar de plantas
além de ter hortaliças frescas em casa, cuidar de um jardinzinho proporciona minutos de higiene mental (e ver as plantinhas florescendo é coisamaislindaorgulhodamamãe).

gosta de plantas? leia também “sobre plantas e amadurecimento”.

12. botar as contas em dia
elas chegam todo mês sem falta, atrasam, acumulam. tem cartão de crédito, receita federal porque a gente cai na malha fina sim, cartão da renner. escuta a tia: para, faz as contas, organiza, se for o caso fica uns dois meses sem beber, sem comer fora, sem ir ao cinema mas pelamordedeus não deixa as contas virarem uma bola de neve porque essa avalanche vai uma hora te carregar pro fundo do poço do serasa.

13. viajar sozinha
não precisa ser para o vietnã. o brasil tem lugares lindos em qualquer canto. o que vale é tirar umas férias com você mesma e ver no que dá. vai ser delícia, vai ser gostoso.

14. aprender a cozinhar
ninguém aqui quer ser o próximo masterchef, mas é válido saber fazer pelo menos um arroz com feijão e uma lasanha bem gostosa pra quando quiser surpreender alguém com um jantarzinho.

15. rever seu filme preferido da adolescência
reassisti as patricinhas de berverly hills e descobri que a cher não é uma má pessoa.

16. sair da casa dos pais
se você ainda não saiu, agora é a hora. morar sozinho (ou com amigos) é maravilhoso! você vai descobrir o seu jeitinho de fazer as coisas e conhecer todo um novo universo feito de possibilidades, como receber quem quiser na hora quiser ou ficar sem açúcar no meio de um bolo e ter que pedir pro vizinho. e seus pais vão sentir sua falta mas, sério, vão curtir bastante porque queridão: 30 anos e morando com os pais num dá!

17. fazer a festa na loja de departamentos
comprar cortinas, tapetes, potes, velas aromáticas, prendedores de sacos plásticos, canecas, jogo de talher e mais um monte de coisas que você nem sabia que precisava até entrar numa dessas lojas é maravilhoso ❤

18. mudar o cabelo
na verdade, a ideia é: perder o medo de mudar o cabelo. cortar curtinho, ou deixar crescer, pintar de azul, descolorir. enfim, vale tentar pelo menos uma vez até porque em breve eles vão ficar brancos e você não terá escolha a não ser aceitar a mudança. rs

19. aceitar que haverá muitos sábados em casa
de pijama, vendo netflix. faz parte e é DELICIOSO.

20. ser legal com você mesma
a gente se cobra demais, vive se comparando e agora ainda tem a internet para jogar na nossa cara o sucesso alheio, mas olha só: todo mundo fica às vezes meio fudido. faz parte. o negócio é entender que cada um tem seu tempo. essa lista, inclusive, talvez nem sirva para você e nesse caso tudo bem, você pode me mandar tomar no cu porque eu tenho 30 anos e já sei lidar com comentários negativos.

se você tiver outras dicas, pode acrescentar nos comentários, e se quiser ler mais textos meus sobre universo feminino, eu escrevo lá no medium também 🙂

lendas e histórias pra dormir

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o chocolate surpresa vai voltar para fazer a alegria da galera de 30 e poucos anos. nada mais infância anos 90 que isso e o chiclete ploc com álbum dos animais da amazônia. foi lá que eu descobri o que era uma víbora. e foi nos anos 90 que eu peguei trauma de chocolate galak porque um dia comi até vomitar.

pelo sabor e pelo cheiro a gente consegue reviver muita coisa.

eu lembro do xampu vital ervas, de frasco cilíndrico e tampa verde. quando minha mãe levantava de manhã, eu encostava a cabeça no travesseiro que ela dormia e pegava no sono respirando o cheirinho do xampu que o cabelo dela deixava ali. quem me lembrou disso foi gabriel, meu amigo, numa conversa nostálgica que tivemos enquanto assistíamos a um documentário sobre sacis. segundo o especialista, eles nascem em ninhadas de 7, crescem até 77 cm e morrem aos 77 anos. há machos e fêmeas, andam no meio de rodamoinhos e é preciso paciência para ver um. “não pode ter ansiedade para ver saci”, disse.

eu nunca vi.

minha avó diz que viu, quando era criança. a avó do gabriel falava de lobisomem. foi nessa conversa sobre coisas antigas que chegamos ao travesseiro das nossas mães com cheiro de vital ervas.

meu pai contava histórias pra gente dormir. inventava, enchia de detalhes, fazia suspense. no fim, ele dormia e a gente ficava acordado imaginando tudo aquilo que acabáramos de ouvir. noite escura, um velho andando sozinho numa estrada de terra. relâmpagos no céu, um uivo à distância. ele aperta o passo, o arrastar da bota levanta poeira do chão.

o pai descrevia o barulho da bota do homem raspando na terra batida. eu sei até hoje como é o rosto desse homem que nunca vi.

cresci com apreço por narrativas. gosto mais de história que de fato. mais de roteiro que de efeito especial. uma boa história não precisa de nada além de alguém que conte bem.

se você também gosta, eu te sugiro o filme Um Conto Chinês. tem no netflix. é essa dica, afinal, o único propósito desse post. além de jogar conversa fora. 

Para meus amigos que querem viajar

irlanda

Hoje o Facebook me mostrou a primeira foto que tirei na Irlanda, 3 anos atrás. De luva, toquinha e aquele sorriso de estou realizando um sonho.

Desde então, muitas pessoas vêm perguntar sobre a experiência. Como fazer, ir ou não ir, quanto de dinheiro é necessário. Meu conselho, além das dicas práticas sobre gastos e passeios é: se tem vontade, vá.

A ideia de conhecer o mundo não desgrudou de mim desde que eu tinha 5 anos, morava no sítio e um dia, olhando o horizonte, vi um monte branco sobre a pastagem.  Devia ser areia para construção ou serragem. Perguntei para minha mãe se lá era o Pólo Norte. Ela riu e me explicou que não, o Pólo Norte era muito mais longe, num tanto que eu não conseguiria ver só de esticar a vista. Saber que existia mais mundo do que meus olhos podiam enxergar deu nó na minha cabeça. Cresci querendo ver de perto, e minha mãe alimentando esses sonhos toda vez que chegava em casa com um livro novo do Pateta dando a volta ao mundo.

Eu sei que essas histórias de gente que largou tudo para viajar já encheram o saco, e são um recorte muito pequeno de uma geração. Poder dar um tempo na vida, fazer as malas e viver em outro país é um privilégio. Mas se te aconteceu de nascer nesse grupo de privilegiados que podem ter certo controle sobre o próprio destino, e se sua alma é atormentada pela vontade de sair para um passeio mais longo, vá. Se lá no fundo te bate de vez em quando a curiosidade de saber como é ouvir um sanfoneiro numa praça de Bogotá ou tomar um café numa calçada de Paris, organize-se para que isso aconteça. Guarde dinheiro, gaste menos com bobagens, venda o carro, procure por bolsas de estudo, faça o que estiver ao seu alcance, lembre-se que a vida é curta.

Eu tive medo de me afastar demais do mercado de trabalho. Temia voltar e nunca mais conseguir emprego. No fim, a gente volta mais preparado, ou tão mudado que percebe que aquela carreira que parecia importante não fazia sentido algum. É natural a gente estudar, estagiar, conseguir o primeiro emprego na área e fazer planos a partir daí, tudo de sopetão, sem tempo para pensar se é isso mesmo que queremos. E quando tudo flui assim, do jeito que o mundo espera que flua, dá medo de cair fora. Mas como esse papo é principalmente para aqueles que sentem uma certa inquietação com a vida como ela está, preciso contar uma coisa: provavelmente esse sentimento não vai passar enquanto você não fizer algo a respeito.  É como diz o tio Saramago: é necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não nos saímos de nós. Dar um passeio do lado de fora – da cidade, do país e de nós – faz bem.

De repente, acontece de você se encontrar. Pode acontecer de sentir saudades da vida antiga, emprego fixo e contas pagas, e a experiência vai ter servido para te mostrar que essa é a sua. Pode acontecer de você nunca mais voltar. Ou voltar tão diferente que, ao entrar no quarto antigo que você deixou para trás e mexer nas suas roupas velhas, sinta o impulso de pedir desculpas por estar fuçando no guarda-roupas de um estranho. E pode acontecer também de você voltar e nunca mais conseguir desfazer a mala, passar a apreciar paisagens que correm do lado de fora do ônibus, entendendo que até um passeio a 50 quilômetros de distância te acrescenta muita coisa. Foi o que aconteceu comigo, que aliás, faz meses que não desfaço minha mochila. Até porque eu ainda não conheci o Pólo Norte 🙂

***

Quer ler mais sobre o assunto? Clica aqui. Se você quer dicas sobre viagem, vem ler meus textos do DPB Intercâmbio.

Eu nunca sei

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Eu nunca sei quando é a hora de falar de amor com você. Tenho tomado muita chuva por esses dias. Não sei se é porque sou desprevenida demais e saio sempre sem guarda-chuva, ou se tem chovido fora do normal em comparação aos últimos 26 anos, período no qual (pelo que me lembro) não tomei tanta chuva assim. Eu ia fazer uma metáfora sobre você e chuva, e ser pega de surpresa. Não fiz. Passou.

O fato é que tenho vivido um pouco sem rumo, dias encarrilados e eu passando por eles. É um grande problema quando crescemos com a certeza de que teremos um futuro brilhante, a gente fica parado esperando o futuro brilhante chegar e não faz nada para que ele chegue. Talvez porque na primeira série eu fui campeã no concurso de soletrar palavras, e passei a achar que a vida para mim seria fácil. Então fiz pouca coisa.

Tenho dissimulado mais do que vivido. A sensação constante da brevidade da vida é traiçoeira, se quer fazer muito e acaba-se privando de grande parte. Quero dizer: a gente vai listando o que é preciso ser feito e a lista embolora no bolso enquanto vamos ao supermercado toda quarta-feira.

Acontece que tem esses dias enfileirados, de chuva, de sol, de roupa se acumulando no cesto, e tem você. Eu olho para você e penso que é exatamente aquilo que eu preciso. Depois vem o medo de errar, de você querer fugir, medo de descobrir que não é nada disso, que é tudo coisa da minha cabeça. Tem mais essa: a constante sensação de que sempre estou fantasiando. A gente acha que quando crescer vai ser forte e dar conta de tudo. Então cresce e morre de medo o tempo todo.

O grande problema é que com gente que só se lança em terra firme não se brinca, e eu infelizmente sou esse tipo de pessoa. Digo infelizmente porque acabo perdendo parte da aventura, aquela coisa do incerto, de arriscar. Deve ser por isso que nunca fui viciada em jogo também.

Por outro lado, nunca me restou ao fim um coração esmigalhado, quem tá sempre de marreta na mão a postos pra despedaçar mais um sou eu, e antes isso fosse bom. Mas no fim eu saio dos amores e eles meio que nunca saem de mim, fica sempre uma mágoa do mal resolvido, aquele gosto amargo quando toca uma música que faz lembrar. Dor de estômago que chá nenhum cura.

Entende o que eu digo? Ontem choveu até as 4h. Da manhã. Eu não dormi, e pensava que seria perfeito se você estivesse por perto pra me abraçar, fazer café e deixar as meias jogadas no chão da sala. Depois pensei que você poderia ver comigo o filme que eu via, era Woody Allen, e eu não gosto dele o que me dá uma tristeza toda vez que vejo um e constato mais uma vez que perdi meu tempo me chateando.

O tempo tem passado assim, eu fazendo coisas sem um propósito muito claro e às vezes parando para pensar se ser adulto é isso mesmo. E no meio desse nevoeiro, dessas ideias frias com gosto de sabão em pó, aparece a salvação: você, ou algo assim. Talvez minha vida com você nela.

Das poucas coisas que sei, esta é uma delas: as pessoas com quem a gente iria até à puta que pariu não são de se deixar passar sem antes ter ido, pelo menos, um pouco mais longe. Eu penso, repenso e vejo que tempo eu já perco todo dia. Você, não. Você é lucro pra mim.

Do meio dessa chuva eu olho e te vejo um pouco com coração de marinheiro, o que me magoa. Eu, da minha terra firme.

***

Esse texto estava no blog antigo, e também foi para lá no Outras Palavras. Aqui, oh. Como tem chovido muito faz dias, lembrei dele. Gostou? Comenta, compartilha 🙂

A foto é do filme Y tu mama tambien, que não fala de chuva, mas fala de vida.

flamboyants e serendipitys

elena

serendipity é uma palavra de origem britânica que não tem um significado exato. descreve não uma coisa, ou sentimento, mas um sentimento que acontece num espaço-tempo. é quando a gente encontra algo que não estava procurando e, no momento do encontro, percebe que precisava exatamente daquilo naquele momento. tipo mágica.

você entra num sebo, abre um livro desconhecido e cai numa página que fala sobre partidas, exatamente no dia em que sua amiga está indo viajar para longe. então, aquele livro passa a ser o melhor presente de despedida que você poderia dar a ela. serendipity.

eu gosto quando acontece com músicas. há dois dias, falei para o meu namorado sobre o quanto acho bonitos os flamboyants, essas árvores que dão flores vermelhas no verão.

músicas são boas para causar serendipitys. você escuta uma por anos sem prestar atenção, porque está sempre distraída ou porque aquela não é a sua preferida no álbum, e você as vezes pula ela para ouvir as outras. até que um dia acontece.

faz tempo que toca no meu celular o show do alceu valença com a orquestra de ouro preto. ontem eu estava na estrada, olhando o dia pela janela do ônibus, quando tocou sete desejos. lá fora, céu azul, grama verde e flamboyants. era como se eu ouvisse pela primeira vez. fiquei maravilhada com a lindeza dessa música.

o olho da gente é que nem concha, que guarda poesia do lado de fora.

as vezes a gente acha uma pérola.

 

*A foto é de Elena Simona Craciun.

desejos para 2017

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quem é ligado em astrologia já deve estar sabendo que 2016 encerra um ciclo de 36 anos, período em quem ficamos sob domínio do sol. foi um tempo de egoísmo, individualismo e imediatismo, dizem.

que está acabando. passaremos, pelos próximos 36 anos, a ser regidos por saturno.

só que a coisa não melhora tanto assim, porque saturno não é um cara tão legal. na ordem de distância da terra, só perde pra urano, netuno e plutão. ou seja, longe demais. e também muito afastado do sol. é frio, escuro e por lá venta muito. um astro nada simpático, na minha humilde opinião.

o que ele traz de bom? amadurecimento, dizem.

para quem não é de astrologia, e eu acho que eu não sou, servem as dicas seguintes: em 2017, leia bons livros. faça uma lista e tente seguí-la. veja filmes e séries, converse com as pessoas de quem você gosta, e com as que não gosta também. ficar isolado na internet trocando ideias com quem concorda com a gente é tentador, mas até o seu tio reaça pode estar disposto a ouvir, não necessariamente sobre a teoria queer ou a luta pelo fim do patriarcado, mas sobre uma receita de bolo de laranja, e ele pode dar uma dica de cobertura, há chances de vocês trocarem algumas frases gentis e um dia, quem sabe, conversarem amigavelmente sobre política.

e se o tio reaça for realmente tão reaça a ponto de barrar qualquer diálogo, por mais fútil que seja, siga a filosofia jorge ben jor e então evite qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido. é necessário, em alguns casos.

não subestime o fútil, aliás. as futilidades são bem-vindas, fazem parte da vida e aliviam um tanto o peso dos dias. da comédia romântica da sessão da tarde ao novo corte de cabelo, futilidades caem bem. inclusive para boas conversas. profundidade demais cansa, ninguém aguenta.

perca tempo necessário com filosofias desnecessárias, como o porquê da lagartixa conseguir ficar grudada na parede ou o tamanho do coração de um beija-flor. esteja munido de bons pensamentos, entre eles os extremamente desnecessários, mas que trazem leveza à alma.

seja – ou torne-se – uma pessoa leve, partidária dessa leveza que prega maria bethania ao dizer que não fala mal de quem não está presente e não pronuncia o nome de gente que faz maldade. adote isso para a vida.

ou dessa leveza de que fala hilda hilst, uma leveza ainda que fantasiosa mas que pode fazer o caminho alheio um tanto mais suave:

nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho

apegue-se a ídolos improváveis. se for o caso creia em um deus, mas aceite, sobretudo, a sabedoria de pequenos deuses de carne e osso, como sua avó, sua professora da primeira série, a aranha que, como diz gil, vive do que tece; ou a sua própria mente.

aprenda novas receitas, faça novos amigos, retome amizade com amigos antigos, abra mão da presença de quem não acrescenta nada de positivo (mas saiba que quase todo mundo tem algo acrescentar), mude um hábito, ouse praticar um esporte diferente, procure cursos gratuitos e vá em frente: teatro, canto, francês, estamparia, escultura, confeitaria; e ajude alguém: com lições de matemática, com a mudança de casa, com as compras que caíram da sacola ou com um abraço.

viaje muitos quilômetros para ver alguém que você gosta, mesmo que custe algum dinheiro. você não precisa trocar o celular por um modelo mais novo, mas ver a sua amiga de infância você precisa sim, com certeza. planejar uma viagem dá preguiça, sair da zona de conforto é um saco, mas depois que a gente parte só pensa em porque é que não fez isso antes. então, faça isso pelo menos uma vez neste ano.

seja honesto com você mesmo, e entenda suas prioridades.

sobretudo, não dê tanta importância ao que não merece. lembre-se que numa terra onde dinoussauros foram extintos; e que vive sob risco de novos meteoros, pouquíssimas coisas são realmente importantes, por mais que a nasa garanta que está usando as tecnologias mais avançadas para prevenir novos desastres. porque até a nasa pode errar.

assim espero.

 

*A sugestão da música é do Márcio

*A foto é de Jordan Matter

 

Black mirror e a morte

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o ano tá acabando, mas antes de falar de natal e planos para 2017 eu quero falar da morte. na verdade, de black mirror e da morte, porque ambos foram muito presentes em 2016. a morte porque ela é sempre presente. e black mirror porque isso tudo é muito black mirror, mêo.

ontem numa livraria encontrei um dicionário de psicanálise e sonhos. parei numa página que dizia que a criança, quando sonha que alguém morreu, é porque quer que essa pessoa desapareça. ela não entende da morte e suas implicações. até certa idade, a criança sabe apenas que morrer é desaparecer.

mais tarde, passa a perceber que morrer é desaparecer para sempre e para todos, de modo trágico ou não. quando cheguei nessa fase da vida, de compreender o sentido amplo da morte – eu devia ter uns 11 anos, pelo que lembro – eu pensava: não é possível que eu vou morrer um dia.

não fazia sentido. eu tinha que ir à escola toda manhã, de uniforme e cabelo penteado, estudar, fazer provas, responder pra gente adulta o que é que eu quero ser quando crescer, pensar em futuro. e pra isso: morrer.

era ridículo.

vivi então anos da adolescência pensando que eu não deveria me preocupar com a morte porque quando chegasse a minha hora a ciência já teria evoluído a ponto de ninguém mais morrer. ufa.

cresci e entendi que, se a gente não morre, isso aqui vira um caos. a comida acaba, a terra superaquece, vêm os maremotos, tudo isso que a gente sabe que pode acontecer a qualquer instante porque nosso mundo está cheio com gente que suga todos os recursos e energias e joga lixo na rua.

pensei: ok, vamos fazer tudo isso mesmo, todas essas festas de formatura, batizados, cursos de pós graduação, e morrer. segue o baile.

e aqui estou eu, ser vivo nesse mundo em busca de prazer e distração e que, ciente da morte, come chocolate, namora, dança e assiste séries no netflix. a da vez foi black mirror. para quem não viu, recomendo. tem uns episódios muito bons, e o el país fez uma lista dos melhores, embora eu discorde dessa ordem.

o lance é que dois episódios mexeram comigo porque eles falam disso mesmo: morte. ou uma possibilidade de vida eterna. o episódio be right back traz o ponto de vista de quem fica aqui, vivendo, enquanto alguém querido morreu. uma moça grávida e recém casada perde o marido num acidente. sofrendo com o luto, ela recebe uma proposta de aplicativo que, com base em tudo o que o marido fez em vida no universo online – fotos, textos, mensagens de voz, vídeos – cria um programa que reproduz falas dele. eles podem conversar por telefone e tudo mais. tipo o filme her, só que com uma personalidade que já existe, tudo mapeado e simulado para tapear a ausência definitiva. é interessante para pensar coisas bobas como, por exemplo, o quanto as pessoas podem ser substituíveis – ou não. ou o quanto somos carentes e precisamos de conforto perante a morte. ou ainda, o quanto não sabemos lidar com ela.

o outro episódio, e este é o meu preferido, é san junipero. eu não quero dar spoilers, mas garanto que se você tem coração mole, vai chorar. o roteiro gira em torno da possibilidade de se manter a consciência viva, mesmo depois da morte do corpo.

outro dia li uma matéria muito bonita sobre o segredo da felicidade dos moradores do butão. as pessoas desse pequeno país asiático são felizes – ou menos tristes que a gente – porque lidam com a morte de forma natural. é parte da vida.

coisa que por muito tempo me neguei a entender.

mas voltando ao black mirror, o que achei interessante nesses episódios – além de outras coisas – é que eles trazem para a morte uma saída que eu, nos meus anos de negação, nunca pensei (também porque lá nos anos 90 não vivíamos tanto junto da tecnologia, inteligência artificial e tudo mais). a proposta agora parece óbvia: se um dia existir vida eterna, talvez ela parta da desvinculação entre corpo e consciência.

antes de black mirror me trazer essa nova possibilidade de vida eterna, eu gostava de pensar a morte como pensa chicó, personagem de o auto da compadecida. diante de uma cachorrinha morta, ele diz:

cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.

se a contemporaneidade for mesmo todo esse black mirror, talvez um dia tenhamos acesso à vida eterna, mas ela vai custar dinheiro e chicó vai estar errado. nem mais a morte vai ser aquilo que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados, porque, a não ser que vençamos a desigualdade social, vai ter gente sem dinheiro para gastar com aparatos tecnológicos que abrem as portas da eternidade. a vida eterna, se um dia existir, vai ser só para quem pode pagar.

e eu nem queria mesmo.

 

Sweet home Alabama

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era 1996 e o mundo, eu começava a perceber, era maior do que eu pensava. o silêncio da noite lá fora, cheiro de verão, luzes de natal, casa da minha avó. na televisão, Forrest Gump, eu sentei no cantinho do sofá, minha mãe lá fora gritando para eu ir tomar banho, eu falando “espera”, o filme começando, não era Disney nem ET, era um filme de gente grande.

minha mãe chega na sala, a luz da TV desenhando silhuetas e as janelas todas abertas, brisa de verão passando de um canto a outro, minha mãe parada na porta: esse filme demora pra acabar, hein? eu suja de terra, mas o banho podia esperar.

pés descalços, cabeça no encosto do sofá, copo de tuibaína na mão, que minha tia trouxe. de repente, eu queria chorar. chorei baixinho, enxugando todas as lágrimas, com medo de um adulto entrar e me ver chorando. as costas das mãos não davam conta do tanto de lágrima que caía, mas se eu levantasse pra pegar um pedaço de papel um adulto podia ver e como é que eu ia explicar? o filme era muito bonito, quem é que chora de beleza?

o mundo aumentando diante dos meus olhos.

é 2016 e eu e um amigo gravamos um vídeo, narrando um poema. demos um tom diferente daquele que a autora pensava quando criou. ela estranhou. nós refletimos muito sobre a liberdade da produção artística. quando escrevo este texto, recorro à minha memória. lembro da sala da casa da minha avó e de um sofá que nem existe mais, da cena do filme, e da minha roupa. você, que me lê, imagina sua sala, imagina minha face, ou de qualquer outra criança, triste ou não.

é 2016 e eu estava trabalhando em um evento, tudo de primeira, muito fino, muito chique. a banda subiu no palco e tocou Sweet Home Alabama. eu sorria para convidados, conversava amenidades: mercado, carreira, sobremesa; e me controlava para não correr para a frente do palco, gritar, cantar, pegar um copo de uísque e abraçar alguém. meses atrás, quando voltei para casa, para o exato lugar onde, 20 anos antes, chorei pela primeira vez ao ver um filme, tirei uma foto do horizonte. mato, árvores. na legenda: sweet home duartina.

é ainda 2016, vinte anos depois de eu ter chorado assistindo a um filme, e hoje encontrei uma lista com as melhores trilhas sonoras do cinema. estava lá: Forrest Gump, Sweet Home Alabama.

vinte anos depois me dei conta: é a música do primeiro filme que me fez chorar, e isso me faz gostar tanto. Forrest Gump é um filme longo, incrível, com um roteiro sensacional. ele fala de uma época, de conflitos, ideologias e relações humanas.

para mim, fala sobre voltar para casa.

Para uma casa sem beija-flor

beijaflor

Altura das portas, tamanho das janelas e vazões nas paredes são importantes se você pretende ter uma casa no campo.

Porque, se você quer ter uma casa no campo, precisa saber que eventualmente pode entrar nela um beija-flor. Além de bonitinhos e muito pequenos (alguns pesam só 2 gramas), são animais bastante ágeis. Alguns podem voar numa velociade de até 60 km por hora. São os únicos pássaros que param no ar, voam para trás e dão cambalhota. Mas eles têm dificuldade para sair de lugares fechados.

Quando um beija-flor entra em casa, fica voando no alto, perto do teto, procurando pela saída. Você pode abrir a porta, mas se ela for muito baixa ele não vai perceber. Por isso, é importante também que as janelas sejam grandes ou que haja buracos nas paredes, se isso for possível. Existe a opção de tijolos vazados, que funcionam bem em alguns ambientes.

Um beija-flor vivem em média 5 anos. O coração dele bate até 2 mil vezes por minuto. Ele gasta muita energia e se cansa com facilidade. Dentro de uma casa, pode passar toda uma tarde procurando pela saída, e se cansar além da conta. Uma tarde perdida é muito tempo na vida de um beija-flor. Para um animal que se alimenta de quatro em quatro horas, uma tarde sem parar de bater as asas pode ser fatal.

Os engenheiros e arquitetos vão te ajudar com a disposição dos cômodos, materiais, alicerce e outras coisas de igual importância. A mim, que gosto de observar a vida, cabe deixar o conselho: considere a hipótese de ter dentro de casa um beija-flor aprisionado. E faça o possível para facilitar a saída.

Você não vai querer um beija-flor trancado dentro de casa voando em desespero. É uma coisa muito, muito triste.