Category Archives: poesia

temática

chagall-arte

escreva porque sim

porque existe na sua alma
tal sequência de fonemas
que jamais saiu da boca de outra pessoa
um sentimento que você não sabe
como definir
se não for
em versos
porque ontem o sol incidiu no olho do gato da vizinha
de uma forma nunca vista
porque na esquina do quarteirão de baixo
um menino sentou no meio fio às três da tarde
ou porque seu pai acaba de morrer
escreva porque você não pode
jogar seu corpo no caminho do pedestre
e falar essas palavras diante dos olhos dele
ou porque mais uma vez fomos saqueados
escreva porque dói
porque não tem cura
porque fica melhor no papel
do que no pensamento
ou na boca
porque daqui mil anos
não haverá qualquer rastro seu
sobre essa terra
escreva porque há dias você tenta lapidar essas palavras
que te sussurram
e que serão lidas por uma senhora de 43 anos que
acabou de limpar as lágrimas
por uma moça de 30 que jamais saberá o nome do autor
por um rapaz de 16 que por dois segundos vai arquear as sobrancelhas
por um homem que encontra todo dia uma pedra no caminho
só não escreva para receber os aplausos
de uma mulher
que sequer existe
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Para quando os ipês florirem

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por alguns anos, daqui pra frente, dezembro vai ter as cores da igrejinha da minha rua. é uma construção bonita, cheia de pontas e janelas, que passa despercebida porque divide o espaço com casas vizinhas, sem praça ao redor. perto do último natal, iluminaram a fachada e montaram um coral na escadaria. eu voltava do supermercado segurando duas sacolas e dei de frente com os cavaletes interditando o quarteirão. um mocinho tentava juntar as crianças e duas senhoras no alto da escada ajeitavam os vestidos. no telão, exibiam estrelas e fogos de artifícios. as vozes saíram dançando pela rua enquanto as luzes da fachada mudavam de cor. coloquei as sacolas no chão e encostei num muro. cantaram uma música que falava de compras, presentes de natal e hora de ir ao shopping, o que me desapontou a ponto de me fazer pegar as sacolas do chão e tomar rumo de casa. tem certas coisas que ainda não consigo misturar: arroz com passas, estampas com listras, espiritualidade e consumo. um mês atrás minha avó me contou que foi batizada nessa igrejinha, num tempo em que ainda não existia shopping center no brasil. quando foi que inauguraram o primeiro nestas terras? eu não sei. de repente, tudo ficou tão rápido.

do outro lado da igreja tem um bar. o dono ainda não colocou a churrasqueira para fora, mas setembro vem chegando. faz três dias que ando menos alegre, talvez por causa dos hormônios, talvez porque tem sempre alguma coisa indo embora. vai chegar a época dos ipês e isso abre em meu peito uma vereda de felicidade. é comum que, antes da alegria, venha um pouco da falta dela. estou na gestação.

tem tanta beleza no mundo.

setembro são três degraus para o fim do ano, e cada natal é um a menos, embora eu não me importe com religião. neste ano, arrumamos um cachorro, algumas plantas, rodamos quilômetros e em algum lugar desse planeta alguém chora com saudades do brasil. tem uma brisa morna no ar, estrelas um pouco mais baixas, folhas verdes na árvore do caminho para o trabalho e um setembro que acaba de chegar

mais uma vez.

Uma carta para Guimarães Rosa

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João,
Agora que pisei no seu chão, sinto-me à vontade para contar. Foi um ocorrido de anos antes, muitos, pra mais de dez. Naquela época, encontrei na poeira duma estante um livro de literatura brasileira. Vivia com ele na mochila, porque precisava garantir as boas notas nas provas. Tinha a frente cheia de frases e nomes. Do meio pra direita, estava escrito: qualquer amor já é um pouquinho de saú, com o “u” já pela metade, perdendo-se na esquina da capa, nem se via o acento. Você bem sabe que a cabeça da gente não dá conta de coisas inacabadas e completa por si só o que ficou pela metade. Completei assim: qualquer amor já é um pouquinho de saudade. E dei por certo. Amei essa frase, e deixei-a definir meus amores. Escrevi em capa de caderno, cantarolei. Depois, só depois, é que encontrei sua frase feita: Qualquer amor já é um pouquinho de saúde. Estranhei, porque da saudade pra saúde há um rio de semântica. 


Quando descobri a saúde da saudade, descobri você, João. Você sentou ao meu lado e falou assim: menina, o mundo é maior, muito maior. Eu, Miguilim sem as lentes, botei óculos que foram seus, de Clarice, Kerouac, Lygia, Hilda, James Joyce. Fui confirmar lugares tantos. 


Quando então ponderava com que lentes me assentar, você apareceu mais uma vez, chamando: vem cá. Era hora de ter com Riobaldo. Era tempo de enfrentar Hermógenes. Eu, que também já tive lentes de Cervantes, montei no cavalo e fui. 


Então deu-se a magia, João. Foi só descansar a vista nos seus pastos que carecem de fechos que deixei solta minha alma. Por sete dias eu não fiz outra coisa que não fosse olhar ao redor. Por sete dias na sua terra, eu estive ali e só, acordando cedo, comendo quando batia fome, dormindo quando chegava o sono, gastando a energia dos músculos, ajudando quando podia, sendo ajudada quando precisava. Não fizemos outra coisa que não fosse viver e cantar. Então eu entendi, João, sua esperteza de juntar num mesmo canto gente que gosta de sonhar. Ou gente que precisa sonhar, tudo assim, gente que andou junta e encontrou ali gente parecida, outros tantos Miguilins querendo ver mais adiante. Como é bonito quando a gente consegue descansar longe a vista!

Agora estamos, de novo, cada qual no seu canto. Cada um com um pouco do outro no peito. Ganhamos lentes novas. 


Era verdade, também. Qualquer amor já é um pouquinho de saudade.

**

*Uma das propostas de depois d’O Caminho do Sertão foi escrever uma carta para João Guimarães Rosa. Um mês depois, finalmente escrevi a minha. 

*A foto é da Agatha Azevedo, companheira de sertão e, agora, da vida. 

Devagar se vai longe

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Dias de longas horas arrastadas, outros de piscar os olhos e já ser breu. As manhãs de sol serviam para a roupa no varal, todas as outras eram tempo para dar de beber às plantas e cortar, descascar, ferver, mexer com o almoço.

Quando chovia, o céu se armava num cinza senhor do mundo, espalhando bolor em cantos de parede a ponto de se sair ao quintal segurando punhado de sal em pedido a Santa Clara. Fiou-se com olhar e paciência uma colcha de retalhos feita de dias sequenciados, uns de nuvens, outros tantos de panos brancos secando à sol e brisa. Entre o de se manter e o esperar, havia espaços para observar passarinhos juntando palha na quina do forro da varanda em cima da madeira. Trazia no biquinho os gravetos, depois amuava-se. E lagarta enrolando ela mesma em casulo de seda. Como será que a lagarta conta os dias, se em tão pouca vida minha ela vive duas ou três? Meu tempo, perto dela, sobra.

Resto de tempo é vida, chance de a gente se entender com a sutileza ou dar nome diverso para cada flor. Universo manda sinais, por exemplo: quando chega sorrateiro pela janela da cozinha o cheiro do amaciante da roupa no varal ali por volta do meio dia é que vem chuva de tardezinha. Em maio, formiga faz fila no quintal carregando folha na cabeça, ou migalha qualquer. Setembro a cigarra se estoura de cantar. No observar é que a gente se faz.

Que os primeiros versos assim foram: depois de uma vida. Na folha em branco, caíram por letra as coisas vistas. Ninguém faz poema de véspera.

Tdah

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três linhas

uma pausa

uma linha

três pausas

um poema

uma saudade

uma música só

não faz verão

na minha janela

três plantas precisam

de água

uma precisa

de transplante

três linhas podem esperar

***

 

a foto é do #365nus

preta, pretinha

de fevereiro, de 2015:

eu estava andando pela rua, sozinha, toda encolhida de frio, pensando na sua pergunta de outro dia: “menina, você não tá sofrendo aí nessa tar de dublin, não?”, quando o assovio da natalia mallo bateu fundo no meu ouvido e me lembrou de um sábado em que eu cheguei em casa às 10h30 da manhã, sem dormir.

fazia um sol lindo, eu estava sorridente, descabelada e com a cara borrada de maquiagem; e pensava em onde é que tava você. liguei o computador pra saber notícias suas e você tinha me mandado essa música. você já estava em casa. bem, sã, salva e linda. a gente tinha se dispersado lá pelas quatro da manhã.

eu pensei agora: que saudades de você, das nossas noites e de tudo que a gente foi. nos encontramos em londres depois de tantos planos sonhados debaixo de sol tropical, tal qual um conto. a gente dançou, riu, e brigou na rua, fez as pazes, receosas; e se despediu. eu tentei ficar ressentida porque na minha volta prai você não fez questão de me ver, mas eu olhei suas fotos do carnaval. eu não consigo me ressentir. você é só amor, não tem jeito.

lembrei da nossa última longa conversa por meio de cabos de fibra óptica e ondas eletromagnéticas, e a gente falava de amor. embora não tenhamos dito, ficou nas entrelinhas esta ideia de que a gente não presta muito pro amor egoísta e romântico. a gente tem um coração arisco, mas nele cabe um mundo inteiro, o que é uma bela contradição.

nessa toada de saudades, eu entendi que meu amor é todo gasto com meus amigos mais queridos, e fica gravado nesses momentos alegres e sutis que a gente compartilha. meu amor romântico é todo seu, pretinha.

(e só agora notei que a sua declaração pública de amor por mim acabou de completar um ano).

***

de hoje:

meu amor romântico ganhou destinatário, se expandiu, eu voltei, nós vivemos noites mornas na janela do apartamento novo cheio de frida, muito café, muita cerveja, muita risada, gente antiga e gente nova. e agora quem vai é você, esvazia esse apartamento e leva esse sorriso bonito pro lado frio e cinza do mundo. a gente fica, agora virtualmente unidos por um projeto de vídeos de poesia, esperando você voltar. quem sabe também com um livro bonito que a gente tem escrito todos juntos ao longo desses anos de idas e vindas, de amor e distância, de filosofia, paixão e medo, de frio e de calor.