Category Archives: poesia

Tdah

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três linhas

uma pausa

uma linha

três pausas

um poema

uma saudade

uma música só

não faz verão

na minha janela

três plantas precisam

de água

uma precisa

de transplante

três linhas podem esperar

***

 

a foto é do #365nus

preta, pretinha

de fevereiro, de 2015:

eu estava andando pela rua, sozinha, toda encolhida de frio, pensando na sua pergunta de outro dia: “menina, você não tá sofrendo aí nessa tar de dublin, não?”, quando o assovio da natalia mallo bateu fundo no meu ouvido e me lembrou de um sábado em que eu cheguei em casa às 10h30 da manhã, sem dormir.

fazia um sol lindo, eu estava sorridente, descabelada e com a cara borrada de maquiagem; e pensava em onde é que tava você. liguei o computador pra saber notícias suas e você tinha me mandado essa música. você já estava em casa. bem, sã, salva e linda. a gente tinha se dispersado lá pelas quatro da manhã.

eu pensei agora: que saudades de você, das nossas noites e de tudo que a gente foi. nos encontramos em londres depois de tantos planos sonhados debaixo de sol tropical, tal qual um conto. a gente dançou, riu, e brigou na rua, fez as pazes, receosas; e se despediu. eu tentei ficar ressentida porque na minha volta prai você não fez questão de me ver, mas eu olhei suas fotos do carnaval. eu não consigo me ressentir. você é só amor, não tem jeito.

lembrei da nossa última longa conversa por meio de cabos de fibra óptica e ondas eletromagnéticas, e a gente falava de amor. embora não tenhamos dito, ficou nas entrelinhas esta ideia de que a gente não presta muito pro amor egoísta e romântico. a gente tem um coração arisco, mas nele cabe um mundo inteiro, o que é uma bela contradição.

nessa toada de saudades, eu entendi que meu amor é todo gasto com meus amigos mais queridos, e fica gravado nesses momentos alegres e sutis que a gente compartilha. meu amor romântico é todo seu, pretinha.

(e só agora notei que a sua declaração pública de amor por mim acabou de completar um ano).

***

de hoje:

meu amor romântico ganhou destinatário, se expandiu, eu voltei, nós vivemos noites mornas na janela do apartamento novo cheio de frida, muito café, muita cerveja, muita risada, gente antiga e gente nova. e agora quem vai é você, esvazia esse apartamento e leva esse sorriso bonito pro lado frio e cinza do mundo. a gente fica, agora virtualmente unidos por um projeto de vídeos de poesia, esperando você voltar. quem sabe também com um livro bonito que a gente tem escrito todos juntos ao longo desses anos de idas e vindas, de amor e distância, de filosofia, paixão e medo, de frio e de calor.

3 de novembro

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acordei
debrucei na janela
31 anos antes eu chegava por aqui. antes disso, o mundo era tal como está – subtraídos os detalhes da vida cotidiana, tecnologia e desenvolvimento – era esse mesmo mundo com árvores e alvoradas.

daqui alguns anos eu não vou estar mais aqui, e ele vai continuar sendo o mesmo mundo, e em outros tantos anos não vai existir sobre a terra qualquer lembrança do que eu fui. e o mundo vai seguir inabalável. Então, o que vale a pena?

tudo. ou nada.

tanto faz. para mim, vale o que me cerca. valem as certezas das quais eu não abro mão, mas que podem ser mutáveis: essa a única certeza; e as pessoas com quem eu compartilho a existência.

o sentido da vida para mim é esse: ser essa pessoa que não depende de calendários para saber que tem a vida toda pela frente.

 

*Foto do Julien Mauve

Ridículo

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Nenhum ser que pisa sobre terra é ridículo
por que nós, em nossa condição de poeira estelar

nós que vivemos na terra habitada por seres gigantes e indestrutíveis –
que foram destruídos um a um

e que podemos ser destruídos por um ser que tem um centésimo do nosso tamanho

ou nunca mais acordar depois de um tombo com a nuca batendo direto no concreto da esquina

nós que não vamos ver o depois de tudo isso, e nunca saberemos do antes dos seres gigantes que habitaram o mesmo planeta que nós habitamos

e que 100 anos depois de batermos a cabeça no concreto da esquina não vamos ter nosso nome lembrado por ninguém

não temos tempo para ser ridículos.

 

***

 

A foto é deste ensaio

Estrada da vida


Quando uma pessoa morre, ela não morre uma vez só. Tem a morte de fato, que é quando a gente encara aquela face inexpressiva dentro de um caixão e entende o que as pessoas falam sobre “sentir um vazio no peito”. É o momento do baque, e a gente cai de cara na realidade de que tudo acaba; e é também o começo de um processo que pode durar todo o resto da nossa vida.

Depois que uma pessoa morre, seguem-se outras mil pequenas mortes. Faz dez anos que meu avô morreu. Era fim de verão, eu havia acabado de entrar na faculdade e deixar a casa dos meus pais. O mundo era um lugar perfeito, até que o telefone tocou e minha mãe, do outro lado da linha, quase não conseguiu terminar a frase: “O vô morreu. Pega o ônibus amanhã cedo e vem pra casa”.

Eu não consegui arrumar a mala, e na manhã seguinte saí com a roupa do corpo. Passei frio na rodoviária e fiz uma viagem dolorosa. O mundo não fazia sentido, e naquele dia de vento eu me despedi, agoniada. Era março, mas parecia agosto. Eu não sabia que depois daquele adeus seguiriam-se outras tantas despedidas.

O segundo adeus aconteceu na primeira vez em que eu cheguei no sítio onde ele morava e vi na varanda a cadeira vazia. Depois vieram outros, cada vez que eu me deparava com uma coisa que nunca mais seria a mesma sem ele.

Hoje, já muitos anos depois e tantas mortes silenciosamente aceitas às vezes com amargura, muitas vezes com ternura, tivemos eu e ele mais uma despedida.

Morreu José Rico, o parceiro do Milionário. José Rico cantava na vitrola da sala daquela casa no sítio onde não há mais a cadeira de tirinhas de plástico verde na varanda.

Um dia, a dupla foi cantar lá na cidade e fomos juntos, eu e meu avô, ver o show. Com essas pequenas mortes que se seguem à morte de fato, vão sumindo aos pouquinhos as feições de quem partiu. Mas eu lembro com detalhes o sorriso dele olhando para o palco, admirando os homens que sempre cantaram na vitrola lá do sítio.

Se existe céu, hoje meu vô está sorrindo por lá. Eu, por aqui, chorei um pouquinho. É que essas mil mortes mexem com a gente. Mas eu estou feliz, como no dia em que fomos ver o show. Espero que José Rico tenha chegado lá em cima cantando uma bem bonita pra pôr de novo aquele sorriso no rosto dele.

 

*Publicado em 3 de março de 2015, no blog antigo.

Brasil Universo

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Pela minha compra — tomate, umas ervas, frutas — o irlandês da lojinha orgânica deduziu que eu fosse de algum lugar ali pelo mediterrâneo. Eu falei que não, que sou do Brasil, daí ele abriu um sorrisão e contou que quer muito ir para o Brasil, mas que não lembrava o nome da cidade. Chutei “Rio”, e ele falou que não, que era muito, mas muito melhor. Fiquei pensativa, ele também, e depois lembrou: era Curitiba. Eu achei bem estranho, ninguém aqui quer saber de Curitiba.

– É que eu preciso ver um cara. O Hermeto Pascoal.

– Eu não sabia que ele era de lá.

– E não é. Mas mora lá, ele e a mulher dele.

– Legal.

– Ele é um gênio, sabe? Um gênio. Ele tá acima.

Depois ele falou do Caetano Veloso e do Gilberto Gil, me perguntou qual dos dois tinha sido ministro da cultura, e disse que achava isso sensacional, quer dizer, o cara além de fazer música boa, ainda tinha sido ministro. Falou de Tom Zé, disse que precisava ouvir mais músicas do Tom Zé, porque só conhecia duas e achava incrível.

– Eu conheço pouca coisa da música brasileira, mas o pouco que eu conheço é genial. Sabe? É tipo planta. Se dá fruto bom, é porque o solo deve ser bom também.

Eu tento não ver poesia em tudo, mas até quando vou comprar tomate orgânico ela aparece.