Category Archives: poesia

Devagar se vai longe

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Dias de longas horas arrastadas, outros de piscar os olhos e já ser breu. As manhãs de sol serviam para a roupa no varal, todas as outras eram tempo para dar de beber às plantas e cortar, descascar, ferver, mexer com o almoço.

Quando chovia, o céu se armava num cinza senhor do mundo, espalhando bolor em cantos de parede a ponto de se sair ao quintal segurando punhado de sal em pedido à Santa Clara. Fiou-se com olhar e paciência uma colcha de retalhos feita de dias sequenciados, uns de nuvens, outros tantos de panos brancos secando à sol e brisa. Entre o de se manter e o esperar, havia espaços para observar passarinhos juntando palha na quina do forro da varanda em cima da madeira. Trazia no biquinho os gravetos, depois amuava-se. E lagarta enrolando ela mesma em casulo de seda. Como será que a lagarta conta os dias, se em tão pouca vida minha ela vive duas ou três? Meu tempo, perto dela, sobra.

Resto de tempo é vida, chance de a gente se entender com a sutileza ou dar nome diverso para cada flor. Universo manda sinais, por exemplo: quando chega sorrateiro pela janela da cozinha o cheiro do amaciante da roupa no varal ali por volta do meio dia é que vem chuva de tardezinha. Em maio, formiga faz fila no quintal carregando folha na cabeça, ou qualquer migalha. Setembro a cigarra se estoura de cantar. No observar é que a gente se faz.

Que os primeiros versos assim foram: depois de uma vida. Na folha em branco, caíram por letra as coisas vistas. Ninguém faz poema de véspera.

Tdah

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três linhas

uma pausa

uma linha

três pausas

um poema

uma saudade

uma música só

não faz verão

na minha janela

três plantas precisam

de água

uma precisa

de transplante

três linhas podem esperar

***

 

a foto é do #365nus

preta, pretinha

de fevereiro, de 2015:

eu estava andando pela rua, sozinha, toda encolhida de frio, pensando na sua pergunta de outro dia: “menina, você não tá sofrendo aí nessa tar de dublin, não?”, quando o assovio da natalia mallo bateu fundo no meu ouvido e me lembrou de um sábado em que eu cheguei em casa às 10h30 da manhã, sem dormir.

fazia um sol lindo, eu estava sorridente, descabelada e com a cara borrada de maquiagem; e pensava em onde é que tava você. liguei o computador pra saber notícias suas e você tinha me mandado essa música. você já estava em casa. bem, sã, salva e linda. a gente tinha se dispersado lá pelas quatro da manhã.

eu pensei agora: que saudades de você, das nossas noites e de tudo que a gente foi. nos encontramos em londres depois de tantos planos sonhados debaixo de sol tropical, tal qual um conto. a gente dançou, riu, e brigou na rua, fez as pazes, receosas; e se despediu. eu tentei ficar ressentida porque na minha volta prai você não fez questão de me ver, mas eu olhei suas fotos do carnaval. eu não consigo me ressentir. você é só amor, não tem jeito.

lembrei da nossa última longa conversa por meio de cabos de fibra óptica e ondas eletromagnéticas, e a gente falava de amor. embora não tenhamos dito, ficou nas entrelinhas esta ideia de que a gente não presta muito pro amor egoísta e romântico. a gente tem um coração arisco, mas nele cabe um mundo inteiro, o que é uma bela contradição.

nessa toada de saudades, eu entendi que meu amor é todo gasto com meus amigos mais queridos, e fica gravado nesses momentos alegres e sutis que a gente compartilha. meu amor romântico é todo seu, pretinha.

(e só agora notei que a sua declaração pública de amor por mim acabou de completar um ano).

***

de hoje:

meu amor romântico ganhou destinatário, se expandiu, eu voltei, nós vivemos noites mornas na janela do apartamento novo cheio de frida, muito café, muita cerveja, muita risada, gente antiga e gente nova. e agora quem vai é você, esvazia esse apartamento e leva esse sorriso bonito pro lado frio e cinza do mundo. a gente fica, agora virtualmente unidos por um projeto de vídeos de poesia, esperando você voltar. quem sabe também com um livro bonito que a gente tem escrito todos juntos ao longo desses anos de idas e vindas, de amor e distância, de filosofia, paixão e medo, de frio e de calor.

3 de novembro

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acordei
debrucei na janela
31 anos antes eu chegava por aqui. antes disso, o mundo era tal como está – subtraídos os detalhes da vida cotidiana, tecnologia e desenvolvimento – era esse mesmo mundo com árvores e alvoradas.

daqui alguns anos eu não vou estar mais aqui, e ele vai continuar sendo o mesmo mundo, e em outros tantos anos não vai existir sobre a terra qualquer lembrança do que eu fui. e o mundo vai seguir inabalável. Então, o que vale a pena?

tudo. ou nada.

tanto faz. para mim, vale o que me cerca. valem as certezas das quais eu não abro mão, mas que podem ser mutáveis: essa a única certeza; e as pessoas com quem eu compartilho a existência.

o sentido da vida para mim é esse: ser essa pessoa que não depende de calendários para saber que tem a vida toda pela frente.

 

*Foto do Julien Mauve

Ridículo

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Nenhum ser que pisa sobre terra é ridículo
por que nós, em nossa condição de poeira estelar

nós que vivemos na terra habitada por seres gigantes e indestrutíveis –
que foram destruídos um a um

e que podemos ser destruídos por um ser que tem um centésimo do nosso tamanho

ou nunca mais acordar depois de um tombo com a nuca batendo direto no concreto da esquina

nós que não vamos ver o depois de tudo isso, e nunca saberemos do antes dos seres gigantes que habitaram o mesmo planeta que nós habitamos

e que 100 anos depois de batermos a cabeça no concreto da esquina não vamos ter nosso nome lembrado por ninguém

não temos tempo para ser ridículos.

 

***

 

A foto é deste ensaio