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in between days

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enquanto a dor não passa, a gente chora nos ombros de quem tiver um pedaço de pano ou de pele para oferecer, e acorda no meio da noite falando coisas sem sentido, sentindo medo, angústia e saudades. a gente sonha, acorda e não se acha.

você faz da minha casa sua casa, dos meus travesseiros os seus, e se encaixa debaixo do meu edredom enquanto a dor não passa. a gente conversa, se olha e entende dessa profunda solidão. enquanto a dor não passa a gente anda pelas ruas frias com o olhar perdido em algum ponto que vai além do mundo tangível. a gente se abraça, respira, relaxa, mas não esquece.

a gente vira a madrugada vendo filmes, comendo pipoca, chocolate, bebendo copos e copos de café. a gente traga cachaça, cerveja, farinha, fumaça, qualquer coisa que espante a dor que não passa. a gente procura horóscopo, budismo, yoga, meditação, hare krishna e reza. a gente trabalha e descansa, dança e esquece do mundo e finge não haver dor alguma até abrir os olhos e lembrar que a dor custa a passar. a gente telefona para a família para ouvir alguma voz conhecida e serena que sirva de acalanto. a gente queria estar mais perto, a gente deseja que seja tudo farsa, que não exista dor, que o tempo volte, que tudo isso se desfaça. a gente vai a restaurantes, festas, bares, e esquece a carteira em cima da mesa. a gente vira a noite na rua, na calçada, na farra, e se entrega a qualquer um que se encaixe num vazio confuso e ampliado pela dor que não passa. a gente perde o casaco, o telefone, o dinheiro, os documentos, a gente se deixa e tenta não ser mais a gente enquanto essa dor não passa. a gente planeja viagens, pensa no futuro, compra roupas, corta o cabelo, decora a casa. termina um livro e começa mais dois, estuda inglês, pensa em mudar de país, de vida, de destino. a gente vai dançando com a dor que não passa, fazendo e sentindo e vivendo e levando e criando, porque ela dói no peito, na alma, mas a gente sabe que se não tivesse dor não teria graça.

 

*Este texto estava no blog antigo. É de 2015. A foto é, outra vez, de Julien Mauve

as dores e a leveza da vida

vó

sócrates deu uma desdenhada e falou que a escrita nem era tudo isso. acreditava ele que o hábito de anotar coisas poderia nos deixar meio burros. escrevendo, acabaríamos por usar menos a memória, o aprendizado prático e o bate papo olho no olho – a tal da dialética. na umbanda, o preto velho alertou meu amigo: é importante conhecer – e respeitar – nossos antepassados.

sócrates nasceu em 469 a.C., o que dá 2.486 anos pra trás na história, se não me perdi nas contas. minha avó, que quase não lê, pouco escreve e nada manja de filosofia ocidental, chegou na terra há 79 anos. ela deixa a desejar na escrita, mas tira de letra a dialética e faz o melhor café que existe. ciente da minha total aprovação, faz questão de deixar sobre a mesa uma garrafa de cafezinho fresco pela manhã, sempre que estou em visita à casa da família, menos quando preciso sair muito cedo. nesse caso, eu que me vire, porque ela não sai da cama antes das 9, luxo adquirido nos últimos 12 anos, depois que meu avô morreu.

antes da viuvez, acordava às 5 da manhã todosantodia para deixar pronta a marmita do velho. mesmo depois que ele veio trabalhar perto de casa, logo cedo a mesa estava pronta para o café. nem bem eram recolhidas as xícaras e os farelos de pão, já dava início às preparações do almoço, que no mais tardar às 11 se anunciava em cheiro de refogado casa adentro.

então, quando sento para tomar café, sem pressa e com o dia já bem amanhecido, ela puxa a cadeira ao meu lado. faz perguntas sobre minha vida e eu retruco com outros questionários. tem ali, por trás daqueles olhinhos espremidos e operados da catarata, 50 anos de mundo que eu não vivi. nascida e criada em sítio, filha de imigrante italiana, mãe de 3, avó de 5, irmã de 6.

diz que a primeira filha quase morreu de doença. nos últimos dias de gravidez da segunda – minha mãe – meu avô, saindo cedo para a roça, deixava com ela um mapa desenhado em papel de pão. um círculo feito a caneta indicava o ponto exato onde estaria entre tantos pés de plantação. deixava também de sobreaviso o único taxista da cidade. sentindo romper a bolsa, ela deveria chamar o motorista, seguir para o hospital e entregar a ele o mapa, para que fosse buscar o pai da criança. no nascimento da terceira, o médico avisou: salvo você ou salvo ela. depois de horas de dor, choro e gritos, o doutor sentou ao lado da genitora. exausto, suado, tinha o jaleco coberto de sangue. salvou as duas.

outro dia, mexendo as panelas no fogão, minha avó conversava com a irmã mais nova. eu, encostada no batente da porta, pescava uma frase e outra:

num tem nada pior que cozinhá com gente em volta, esperano – ela falou, e as duas riam.

muié antiga sofria calada – continuou –  hoje é diferente, hoje eu tô no céu.

minha avó sabe de chás, receitas, remédios e prepara a própria comida, saudável, que garante diabetes sob controle e disposição suficiente para torná-la aluna exemplar nas aulas de pilates. outro dia, na fanpage da academia, postaram uma foto: ela, com tecidos enrolados na canela, pendurada de cabeça pra baixo, rindo. eu ouvi daqui as gargalhadas. perguntei como é que se faz aquele movimento, o da cabeça pra baixo. ela falou: ué, é simples. cê apoia, sigura e vai tombano o corpo, assim. ela não perde por nada as aulas de pilates, não passa um dia sem cuidar da horta, das flores e das galinhas do quintal. ri muito, de qualquer bobagem, faz piada com quase tudo e não fala mal de ninguém. o caminho para chegar a essa leveza foi longo. 79 anos. os detalhes da estrada ela me conta, com ordem cronológica embaralhada, entre um e outro cafezinho dialético.

diante dos meus trintinha, dona odette viveu muito. o que é nada daqui até o tempo de sócrates. e esse tempo todo, do filofosão até cá, não chega a 2% do caminho do bicho homem sobre a terra, ou seja: somos nada mais do que são os grãozinhos de café que minha avó torrava e moía antes de se tornar consumidora do que já vem embalado. sozinhos, somos menos ainda. se conseguimos puxar um banquinho e assuntar com o passado, aumentam as chances de sermos algo um tanto maior, uma correntinha de vida nessa imensidão de tempo, de gente e de incertezas. o preto velho tem razão. sócrates, de certa forma, também. tem coisa que não há livro que dê conta de ensinar.

as dores e a leveza da vida, por exemplo.

30 de janeiro

saudade

saudade é uma camiseta velha encontrada no fundo do guarda-roupas. é a foto da gente de cabelo de tigelinha no quintal em 1995, é chocolate de guarda-chuva, cheiro de café torrado, suco de amora. é o muro da casa da vizinha que agora está mais alto, a coleira do cachorro esquecida debaixo do tanque, bolinho de chuva às 3 da tarde em dia de semana. saudade é uma rua, uma porta, uma casa, é saber onde estava descascado na parede da varanda. saudade é uma música velha que a gente nunca mais ouviu, é uma passagem de ônibus amarelada no meio de um livro, é uma dedicatória. saudade é um raio de sol que entra pela janela e deixa a sala alaranjada, é uma colcha de retalhos, um sapato de balé. saudade é uma roseira no gramado do quintal, são as marquinhas de centímetros de altura no batente da porta, é um nome que a gente não lembra mais, é uma risada que chama a atenção. saudade é um fim de semana na praia, e só choveu. é um jogo inventado para matar tempo, um moletom emprestado, o medo de trovão. saudade é desenhar com sombra na luz da vela, é um desenho de giz, uma música de ciranda, uma blusa de lã, um problema de matemática. saudade é chuva de verão, noite de inverno, bolo de fubá, o barulho do mar. é uma parede pintada, um frasco de perfume onde sobram 3 gotinhas que ninguém teve coragem de usar, é uma cicatriz no joelho. saudade é um jeito de falar, de arrumar o cabelo, de bocejar e piscar os olhos. é um jogo de taças, uma garrafa vazia, uma ressaca. saudade é uma penteadeira, um bule e uma receita de doce de leite. uma língua diferente, uma palavra que ninguém mais fala, um céu de noite de verão, uma cidade a 700 quilômetros de distância. saudade é rir sozinho, chorar assistindo a um filme, é mandar mensagem, inventar história, escrever carta. saudade é abrir um álbum de fotografias, fechar os olhos e lembrar os detalhes do rosto. é uma festa de aniversário com brigadeiro e bala de coco. saudade é o cheiro de churrasco no domingo de manhã, é um disco dos beegees, é uma moda de viola. saudade é um caminhão estacionado do outro lado da rua, alguém batendo palmas no portão, uma voz que vem da cozinha. saudade é um oceano de distância, um abraço que já já chega, uma tarde que nunca mais volta, uma cadeira vazia na varanda de casa onde ninguém mais tem vontade de sentar.

flamboyants e serendipitys

elena

serendipity é uma palavra de origem britânica que não tem um significado exato. descreve não uma coisa, ou sentimento, mas um sentimento que acontece num espaço-tempo. é quando a gente encontra algo que não estava procurando e, no momento do encontro, percebe que precisava exatamente daquilo naquele momento. tipo mágica.

você entra num sebo, abre um livro desconhecido e cai numa página que fala sobre partidas, exatamente no dia em que sua amiga está indo viajar para longe. então, aquele livro passa a ser o melhor presente de despedida que você poderia dar a ela. serendipity.

eu gosto quando acontece com músicas. há dois dias, falei para o meu namorado sobre o quanto acho bonitos os flamboyants, essas árvores que dão flores vermelhas no verão.

músicas são boas para causar serendipitys. você escuta uma por anos sem prestar atenção, porque está sempre distraída ou porque aquela não é a sua preferida no álbum, e você as vezes pula ela para ouvir as outras. até que um dia acontece.

faz tempo que toca no meu celular o show do alceu valença com a orquestra de ouro preto. ontem eu estava na estrada, olhando o dia pela janela do ônibus, quando tocou sete desejos. lá fora, céu azul, grama verde e flamboyants. era como se eu ouvisse pela primeira vez. fiquei maravilhada com a lindeza dessa música.

o olho da gente é que nem concha, que guarda poesia do lado de fora.

as vezes a gente acha uma pérola.

 

*A foto é de Elena Simona Craciun.

sobre plantas e amadurecimento

suculenta

ser adulto não é fácil e a gente ainda cai de surpresa nessa roubada. um dia eu saí de casa para estudar e de repente estava trabalhando, pagando contas, assinando pacote de internet, comprando jogo de panela, pagando multa de trânsito, declarando imposto de renda, indo sozinha ao hospital e chorando debaixo do chuveiro.

é desesperador no começo, mas depois a gente acostuma e aprende a criar ilhas de conforto em meio ao caos. tem gente que faz yoga, terapia, capoeira, trabalho social, gente que joga videogame ou toca violão. e quase todo mundo cuida de plantas. é a tendência entre os jovens adultos que me cercam.

minha melhor amiga contou que quer sair do apartamento, precisa de uma casa. não é pelos vizinhos, nem pela falta de privacidade. é pelas orquídeas, que precisam de mais espaço. mandou foto da cozinha e da varanda: tudo tomado por vasinhos. outra amiga contou no facebook que comprou sua primeira plantinha e já está apaixonada, quer encher a kitnet de vasinhos.

aqui em casa começou com um pezinho de manjericão e a intenção de fazer molhos de tomate caseiros. hoje, são 17 vasos, entre cactos, suculentas, pimenteira, ervas e temperos. viajei por uns dias e quando voltei o tomilho tinha morrido por falta d’água. fiquei abalada.

cuidar de planta é trabalho delicado. exige observação e sensibilidade para perceber que se está colocando água de mais ou de menos. requer pequenas e constantes mudanças: tira o vaso daqui, muda pra lá, bota essa no sol, transplanta aquela para um vaso maior. precisa de planejamento prévio para dias de viagem.

cuidando bem, o manjericão solta flores pequenininhas que têm mais sabor que as folhas. o hortelã, além de bom para chá, deixa no ar um cheirinho doce quando a gente coloca água no começo da noite, e dinheiro em penca é uma planta linda que pega em qualquer lugar e se derrama em cachinhos verdes.

ser adulto não é fácil, e nos últimos dias eu enfrentei filas, chorei, trabalhei com o que não gosto, paguei conta atrasada, ralei para receber o dinheiro do freela, acordei cedo, me inscrevi em concurso, fiquei com 2 reais na conta, o café acabou bem na hora que eu precisava, andei no sol, a sacola estourou na rua, choveu e eu estava sem guarda-chuva, arrumei um guarda-chuva e o vento virou ele do avesso, um carro passou na poça e jogou água em mim, outra conta venceu, comprei uma lâmpada queimada, a roupa que botei para lavar manchou, mas no fim do dia, sentada no sofá, notei aquele pontinho cor de rosa em meio ao verde. a suculenta estava em flor.

Calmaria

wilson

Eu preciso me reinventar o tempo todo. Essa frase veio na minha cabeça.

Outro dia eu estava cansada da rotina. Você já deve ter passado por isso. Não é todo mundo que se incomoda. Eu sim, infelizmente.

Muito se fala sobre a eficácia do mar revolto em formar bons marinheiros, mas pouco se reflete sobre os períodos de calmaria. E elas são constantes.

Pi delirou, Luis Alejandro Velasco desejou a morte, Chuck Noland viu um rosto numa bola de vôlei e chamou de Wilson. Nas histórias sobre naufrágios o grande inimigo não são as ondas violentas, mas a imensidão do mar. E o tédio.

Quando eu estava na escola, tinha uma brincadeira boba. A proposta era imaginar uma sequência de acontecimentos: caminhávamos por uma estrada, encontrávamos um vaso e chegávamos até o mar. Com a cena em mente, descrevíamos cada elemento: o caminho (Florido? Longo? Estreiro?), o vaso (Grande? Pequeno? De barro?) e o mar. Era importante lembrar da sensação que se tinha diante do mar. Cada elemento representava algo relacionado à nossa vida. O vaso era, por exemplo, nossa vaidade. Não lembro exatamente os significados. Sei que o mar era a vida.

É uma metáfora que sempre cai bem.

Podemos passar um ano, dois, três, sem nenhuma grande novidade. Nada de emprego novo, amor, gravidez, morte, promoção, viagem.  Provavelmente é assim que vai ser. No entanto, vivemos nos preparando para os maremotos e no fim pouca gente sabe lidar com uma vida de marola.

Aos 30, quase 31, inventei de voltar a fazer teatro. Hoje, numa oficina, chegou a proposta: pense numa frase que faz sentido para você. Não havia tempo para reflexões e o que me veio foi: eu preciso me reinventar o tempo todo.

Ou a gente se reinventa ou aprende a tirar novidade de pequenas coisas, como uma tarde livre ou um pôr do sol. Se possível, faz as duas coisas. A vida é ordinária e pouca gente foge da regra.

As vezes a gente precisa sair de nós mesmos pra não morrer afogado.

15 de outubro

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Teve uma que entrou na sala de aula chupando um pirulito. Nós tinhamos 14 anos, e um dos meninos falou: professora, não pode chupar pirulito na sala!

A professora tirou o pirulito da boca, deu uma olhadinha na ponta, colocou na boca de novo e chacoalhou os ombros. Nós rimos, ela falou para pegarmos os cadernos e sairmos da sala: procurem lá fora alguma coisa para desenhar. Pode ser árvore, flor, casa. Desenhem com luz e sombra e voltem daqui 30 minutos. Ela lecionava artes numa escola da rede estadual, e eu lamentei quando mudei de cidade e tive que me despedir daquelas aulas.

Teve outra, na mesma escola, que nos dividiu em dois grupos e nos fez montar uma peça de teatro sobre aborto. Um grupo deveria apresentar argumentos em favor, outro contra. No fim, debateríamos as situações apresentadas.

Teve um que escreveu um livro, e doou um exemplar para cada aluno, com dedicatória.

Outro que, às vésperas do vestibular, passou uma tarde comigo numa sala de aula vazia falando sobre a Segunda Guerra, como se estivessemos num bar debatendo música ou cinema.

Teve uma que levou para a aula um CD da Adriana Calcanhoto e me fez pela primeira vez ouvir falar em Almodóvar e Frida Kahlo.

Outra nos fez estudar as expressões da letra de uma música do Chico Buarque.

E teve aquela que, mesmo enfrentando sessões semanais de quimioterapia, tinha forças para nos ensinar história.

Teve outra que nos levou na fazenda da sua família, onde tinha rio, árvores e insetos em vidros de conserva, e nos proporcionou aulas práticas de ciências.

E aquele que não desistiu de me ensinar matemática.

Outro que nos fez desenhar o sistema solar em escala num rolo de fita de recibo de supermercado. Ele falava de astros e anos depois, numa madrugada em que eu fazia plantão no jornal, olhei para a TV e lá estava ele, conversando com Jô Soares e falando daquilo mesmo: espaço, astros, estrelas.

Teve o que fazia paródias para nos ensinar biologia, e desenhava crustáceos na lousa.

Teve a que me fez ler poesia em voz alta, destrinchar um conto do Hans Christian Andersen e ler histórias para crianças numa creche.

Teve a tia Elaine, de quem lembro pouca coisa, mas não esqueço o nome e o sorriso, porque foi minha primeira professora. Junto com a tia Rose.

A que me fez decorar os verbos e ler Machado de Assis, o que ensinava história e falava de música, o que passava receitas enquanto resolvíamos exercícios de física.

Para eles, a gente acaba virando rostos conhecidos numa multidão de outros rostos, porque somos muitos.

Mas a gente não esquece nunca. Obrigada.

 

*E tem minha mãe, minhas tias, minha prima, minha amiga, e as outras amigas da pedagogia. Eu sou cercada de professores maravilhosos ❤

Tecendo sapatinhos

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Aconteceu tudo na mesma semana. O mundo se despediu de Elke Maravilha, do tio Gordo e da Suzy. Elke, que aparecia na TV para mostrar que há muitas formas de ser mulher e me encantava com as mãos cheias de aneis. Meio humana, meio entidade, um pouco personagem.

Tio Gordo, que era também Zé, o tio que vinha da capital num tempo em que São Paulo era um lugar distante e cheio de prédios que só existia na minha imaginação. Ele sorria muito, tinha voz bonita e se encantava com o meu universo – o sítio, as árvores, os pássaros. Vinha de vez em quando para almoços em família, trazia os meninos, passava a tarde e ia embora. Foi meu primeiro contato com a capital e se tornou, para mim, a representação da gente que morava por lá, na cidade grande.

E a Suzy, que se chamava Elizabeth, mas para mim sempre foi Suzy. Nunca me explicaram a origem do apelido, como muita coisa ficou sem explicação. A amizade entre mim e a filha dela, por exemplo. Começou numa aula de inglês. Um dia, nesses bate-papos forçados com temas propostos pela professora para desenvolver as habilidades de conversação, tive que responder a uma colega qual personagem de conto de fadas eu queria ser. Eu disse Peter Pan, a moça falou “afe”, respondi “me deixa, o desejo é meu”. Eu tive certeza de que nunca teríamos uma relação amigável.

Uma semana depois terminei um namoro longo, cheguei na aula de inglês com a cara amassada de choro e ela me convidou para uma festa. Desde então, eu e a Alita, que é a filha da Suzy, mantemos uma amizade mais baseada na confiança que na presença. Suzy veio no pacote.

Quatro anos atrás, quando ela adoeceu, passamos uma noite juntas – eu e Suzy – no hospital. Comprei bolo, pão de queijo, bombons, e fui barrada na entrada. Tive que deixar tudo num armário, três andares para baixo do quarto e abandonar o plano de passar a noite vendo TV, conversando com ela e me enchendo de carboidratos. Suzy riu todas as vezes que me viu depois disso, sempre lembrando do meu plano frustrado.

Recentemente, depois que voltei de viagem, Alita me pediu pra ir ao hospital passar uma noite com a Suzy. Eu e Alita ainda nem tínhamos nos encontrado, depois de mais de um ano distantes, e lá estava eu com a Suzy, novamente num quarto de hospital. Ela, com aparência abatida, a pele sem brilho, o rosto magro, os poucos cabelos; eu, espantada com essa fragilidade.

Suzy passou parte da noite segurando duas agulhas de crochê e tecendo sapatinhos de lã. Em poucos minutos, torceu e retorceu os fios de um novelo colorido e fez um par de sapatinhos para mim. Era para esquentar meus pés naquela noite fria, ela disse. Eu, desajeitada com a aparência dela. Ela, feliz com a minha presença e tecendo sapatinhos. Fazia dias, estava vivendo numa rotina ingrata entre hospital e casa. Era conhecida das enfermeiras e tecia sapatinhos para quem cruzava seu caminho: funcionários do hospital, acompanhantes da colega de internação que dormia na cama ao lado, amigos.

A gente vive uns bons anos sem ter que lidar com a morte. Então, começa a acontecer. O pai de um amigo, o tio, a vizinha, a professora. Outro dia, conversava com uma amiga sobre essa percepção da fragilidade da vida, e o quanto isso é assustador. Ela contou que tem evitado viajar para a casa dos pais porque ainda não sabe lidar com a avó, que de seis meses para cá tem estado fisicamente debilitada.

Tenho um amigo que fez um curso, orientado por psicólogos, sobre a aceitação da morte. O grupo fazia exercícios semanais, com a proposta de encarar com naturalidade o fim da vida. Uma vez, levaram para a aula um objeto que pertenceu a alguém que já não está mais aqui; em outra ocasião tinham que escrever uma carta para alguém que está morto.

As sucessivas mortes dos últimos dias me obrigaram a aceitar. Pela primeira vez consegui chegar perto do caixão, olhar para o rosto sem vida, colocar flores ao lado. Pela primeira vez, consegui comprar flores para levar para um morto e explicar para a atendente da floricultura, sem engasgar, que eram para um velório.

Depois de me despedir para sempre da Suzy, chorei. Chorei na hora da despedida, também. Dirigimos por uma estrada longa, minha mãe ao voltante chorando pelo tio Gordo. Eu ao lado, chorando por ele e pela Suzy. No fim, rimos entre lágrimas. Era um fim de tarde, chovia e fazia calor. Aproveitei a estrada para pensar na vida. Acho que entendi o recado, Suzy. O segredo é nunca parar de tecer sapatinhos.

***

A foto lá de cima é deste ensaio aqui.

Irmãos

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Eu sei que, para pais exigentes, eu não sou o exemplo de boa filha. Nem eu nem meu irmão. Minha irmã, talvez. Até pais menos exigentes teriam um pé atrás com nós dois. Tanto eu quanto ele erramos muito, roubamos noites de sono e fizemos por merecer os finais de semana que passamos em casa de castigo.

Dizem que todo mundo que tem filhos, em um dado momento da vida (seja diante de uma nota baixa, de uma tatuagem feita às escondidas ou de uma ligação vinda da delegacia), põe as mãos na cabeça e se questiona: “onde foi que eu errei?”.

Sendo eu e ele quem somos, e se a suposição acima é verdadeira, calculo que ao menos dez vezes meus pais tenham feito a questão “onde nós erramos?”.

Se realmente erraram, não sei. Mas sei exatamente o ponto onde acertaram: na relação que permitiram que nós três – os filhos – estabelecessemos entre nós.

Eu e meu irmão já deixamos cicatrizes um no outro. Ele leva na cabeça a marca dos quatro pontos da vassourada que eu dei naquela tarde conturbada de 1996 na casa da minha avó. Eu levo no cantinho do olho esquerdo a lembrança do quadro de madeira que ele arremessou depois que lhe mordi o braço gordo. Nós dois, juntos, levamos na memória todas as tardes de cuidados dedicados à mais irmã nova (essa, sortuda, se livrou da pancadaria).

Crescemos e as brigas ficaram insignificantes. Hoje eu sei que se existe amor gratuito e verdadeiro, é por eles que eu sinto. Vejo amigos que morrem de ciúme dos irmãos e brigam com namoradas, noivas, amigos deles. Eu não posso sentir outra coisa pelos namorados e namoradas dos meus irmãos senão carinho e gratidão por fazerem feliz quem eu quero bem. Somos amigos, parceiros nessa vida.

Eu penso: tenho ao meu lado as duas pessoas mais incríveis que conheço. Sempre comigo desde meus primeiros anos, eles me fazem pensar que um pouco do meu desdém com sentimentos superficiais vem daí. O mundo que perdoe meu coração pequeno e egoísta, mas com tão bons exemplos ao meu lado, eu fico exigente demais e tendo a acreditar em amor sincero e eterno. Daquele jeito que não há ipod quebrado, caderno rasgado ou cicatriz na cabeça que faça mudar.

As histórias de Asphalte

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Asphalte (Fique Comigo), do francês Samuel Benchetrit, poderia ser um filme sobre um astronauta tentando voltar para casa depois de uma missão fracassada. Poderíamos ver desafios, sofrimento, comoção nacional e vitória.

Felizmente, é um filme que se prende aos detalhes do cotidiano; e o aparecimento de um astronauta estadunidense no topo de um prédio na periferia de Paris não é mais importante do que a paixão de um senhor doente por uma enfermeira do turno da noite.

São modos de ver o mundo. Existe a filosofia que nos conduz a acreditar que podemos todos ser herois, basta esforço e dedicação. A contrapartida é a sensação de glória, o prestígio e a certeza de ter colaborado para um mundo melhor.

Do outro lado, há a ideia de que somos carne, osso, vontades e angústias. O que nos resta neste tempo e espaço que nos coube na fatia de universo é nos ocupar com aquilo que nos cerca. Como vantagem, existe a tranquilidade de saber que estivemos sempre fazendo nossa parte. Esta segunda opção me encanta.

Gosto de ouvir histórias de grandes feitos como quem ouve sobre os trabalhos de Hércules: atos heróicos e distantes. Mas são as histórias cotidianas que despertam meu afeto.

Quando o astronauta John Mackenzie (Michael Pitt), por uma falha técnica, cai sobre um prédio de poucos andares na periferia de Paris, há algumas possibilidades. Podemos falar da Nasa, suas realizações e seus erros. Podemos falar do espaço e dos homens que se aventuram nele.  Podemos falar também de uma senhora marroquina que, ao se deparar com um astronauta batendo a sua porta, pergunta se ele é uma testeminha de Jeová e o convida para entrar. Mrs. Hamida (Tassadit Mandi) vive sozinha no apartamento, e conserva intacto o quarto do filho que está na cadeia. É lá que ela abriga o astronauta, com quem mal consegue se comunicar. Ele fala inglês, ela fala francês, e uma das poucas palavras que ambos entendem é cuscus, prato que ela prepara alegremente para o visitante.

Em outro apartamento, Sternkowitz (Gustave Kervern), sentado em uma cadeira de rodas, fotografa o céu para mostrar mais tarde as imagens para a enfermeira (Valeria Bruni Tedeschi) por quem está apaixonado.

Um astronauta que caiu do espaço é só mais uma pessoa naquele prédio velho na periferia de Paris, onde uma atriz desempregada desempacota a mudança diante dos olhos de um adolescente curioso.  No lugar dos grandes feitos, a poesia cotidiana e a vida de quem merece ser lembrado mais do que os herois: as pessoas.