Louro

louro

Vive no quintal da minha avó, atravessando gerações, uma goiabeira. Já deu frutos em mais de 40 verões. Serviu de suporte para balanço meu e brincadeiras do meu pai com o irmão. Árvore de família.

É normal, em dias de ventania, algumas folhas se soltarem e entrarem pela janela da cozinha. Repousam sobre o chão de azulejos até serem empurradas para fora com a vassoura.

Foi varrendo o chão que meu pai contou os minutos, ansioso, para comer pela primeira vez uma feijoada. Do fogão, a mãe dele – minha avó – cantarolava instruções: tem que ficar limpinho, que logo chegam as visitas. Tios, tias, primos e primas aos poucos encheram a casa no domingo. Mesa posta, guardanapos, garrafa de Tubaína, tudo nos conformes. Perto do fogão, meu pai erguia os pezinhos para filar um teco do caldo preto, nunca antes visto nos 8 anos de existência a base de arroz com feijão carioquinha.

Quando minha avó colocou na mesa a panelona de barro, o moleque xereta foi levantando a tampa pra enfiar as fuças na tão esperada. Nem bem levou na cara a baforada de calor, pegou a concha, meteu na panela, agiu rápido sem desviar a atenção do pessoal em volta, cada um na sua roda de conversa. Depois de todas as visitas já terem ido embora, correu pro lado da mãe, segurando a folha de louro coberta com uma crosta de caldo de feijão ressecado:

– Mãe! Tinha uma folha de goiabeira na feijoada, mas eu tirei rapidinho. Ninguém viu.

lendas e histórias pra dormir

19755154-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx

o chocolate surpresa vai voltar para fazer a alegria da galera de 30 e poucos anos. nada mais infância anos 90 que isso e o chiclete ploc com álbum dos animais da amazônia. foi lá que eu descobri o que era uma víbora. e foi nos anos 90 que eu peguei trauma de chocolate galak porque um dia comi até vomitar.

pelo sabor e pelo cheiro a gente consegue reviver muita coisa.

eu lembro do xampu vital ervas, de frasco cilíndrico e tampa verde. quando minha mãe levantava de manhã, eu encostava a cabeça no travesseiro que ela dormia e pegava no sono respirando o cheirinho do xampu que o cabelo dela deixava ali. quem me lembrou disso foi gabriel, meu amigo, numa conversa nostálgica que tivemos enquanto assistíamos a um documentário sobre sacis. segundo o especialista, eles nascem em ninhadas de 7, crescem até 77 cm e morrem aos 77 anos. há machos e fêmeas, andam no meio de rodamoinhos e é preciso paciência para ver um. “não pode ter ansiedade para ver saci”, disse.

eu nunca vi.

minha avó diz que viu, quando era criança. a avó do gabriel falava de lobisomem. foi nessa conversa sobre coisas antigas que chegamos ao travesseiro das nossas mães com cheiro de vital ervas.

meu pai contava histórias pra gente dormir. inventava, enchia de detalhes, fazia suspense. no fim, ele dormia e a gente ficava acordado imaginando tudo aquilo que acabáramos de ouvir. noite escura, um velho andando sozinho numa estrada de terra. relâmpagos no céu, um uivo à distância. ele aperta o passo, o arrastar da bota levanta poeira do chão.

o pai descrevia o barulho da bota do homem raspando na terra batida. eu sei até hoje como é o rosto desse homem que nunca vi.

cresci com apreço por narrativas. gosto mais de história que de fato. mais de roteiro que de efeito especial. uma boa história não precisa de nada além de alguém que conte bem.

se você também gosta, eu te sugiro o filme Um Conto Chinês. tem no netflix. é essa dica, afinal, o único propósito desse post. além de jogar conversa fora. 

Para meus amigos que querem viajar

irlanda

Hoje o Facebook me mostrou a primeira foto que tirei na Irlanda, 3 anos atrás. De luva, toquinha e aquele sorriso de estou realizando um sonho.

Desde então, muitas pessoas vêm perguntar sobre a experiência. Como fazer, ir ou não ir, quanto de dinheiro é necessário. Meu conselho, além das dicas práticas sobre gastos e passeios é: se tem vontade, vá.

A ideia de conhecer o mundo não desgrudou de mim desde que eu tinha 5 anos, morava no sítio e um dia, olhando o horizonte, vi um monte branco sobre a pastagem.  Devia ser areia para construção ou serragem. Perguntei para minha mãe se lá era o Pólo Norte. Ela riu e me explicou que não, o Pólo Norte era muito mais longe, num tanto que eu não conseguiria ver só de esticar a vista. Saber que existia mais mundo do que meus olhos podiam enxergar deu nó na minha cabeça. Cresci querendo ver de perto, e minha mãe alimentando esses sonhos toda vez que chegava em casa com um livro novo do Pateta dando a volta ao mundo.

Eu sei que essas histórias de gente que largou tudo para viajar já encheram o saco, e são um recorte muito pequeno de uma geração. Poder dar um tempo na vida, fazer as malas e viver em outro país é um privilégio. Mas se te aconteceu de nascer nesse grupo de privilegiados que podem ter certo controle sobre o próprio destino, e se sua alma é atormentada pela vontade de sair para um passeio mais longo, vá. Se lá no fundo te bate de vez em quando a curiosidade de saber como é ouvir um sanfoneiro numa praça de Bogotá ou tomar um café numa calçada de Paris, organize-se para que isso aconteça. Guarde dinheiro, gaste menos com bobagens, venda o carro, procure por bolsas de estudo, faça o que estiver ao seu alcance, lembre-se que a vida é curta.

Eu tive medo de me afastar demais do mercado de trabalho. Temia voltar e nunca mais conseguir emprego. No fim, a gente volta mais preparado, ou tão mudado que percebe que aquela carreira que parecia importante não fazia sentido algum. É natural a gente estudar, estagiar, conseguir o primeiro emprego na área e fazer planos a partir daí, tudo de sopetão, sem tempo para pensar se é isso mesmo que queremos. E quando tudo flui assim, do jeito que o mundo espera que flua, dá medo de cair fora. Mas como esse papo é principalmente para aqueles que sentem uma certa inquietação com a vida como ela está, preciso contar uma coisa: provavelmente esse sentimento não vai passar enquanto você não fizer algo a respeito.  É como diz o tio Saramago: é necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não nos saímos de nós. Dar um passeio do lado de fora – da cidade, do país e de nós – faz bem.

De repente, acontece de você se encontrar. Pode acontecer de sentir saudades da vida antiga, emprego fixo e contas pagas, e a experiência vai ter servido para te mostrar que essa é a sua. Pode acontecer de você nunca mais voltar. Ou voltar tão diferente que, ao entrar no quarto antigo que você deixou para trás e mexer nas suas roupas velhas, sinta o impulso de pedir desculpas por estar fuçando no guarda-roupas de um estranho. E pode acontecer também de você voltar e nunca mais conseguir desfazer a mala, passar a apreciar paisagens que correm do lado de fora do ônibus, entendendo que até um passeio a 50 quilômetros de distância te acrescenta muita coisa. Foi o que aconteceu comigo, que aliás, faz meses que não desfaço minha mochila. Até porque eu ainda não conheci o Pólo Norte 🙂

***

Quer ler mais sobre o assunto? Clica aqui. Se você quer dicas sobre viagem, vem ler meus textos do DPB Intercâmbio.

dia do amigo

vaticano

fazia 5 anos que a gente não se encontrava. as coisas que eu sabia, era a internet que contava. e de repente, a gente estava ali de novo, descalças, sentadas num degrau, conversando como se a última vez tivesse sido ontem. amizade é uma coisa muito bonita, a gente se assenta na vida da pessoa, ela na nossa e aquele cantinho que é dela vai sempre ser.

quando o amigo é muito parecido com a gente, é um alívio, porque a gente sente que não está sozinho no mundo. e quando ele é muito diferente, o bom é saber que tem gente pra tudo nesse mundo, até pra aceitar nosso jeito e seguir amando, apesar. amigo é nosso canto de conforto, é traquilidade na vida.

porque a vida é. chega uma hora que a gente entende que não tem definição. é, vai ser, está sendo. caldo de onda do mar, rasteira, vendaval e calmaria. se no meio de tudo isso a gente encontrar um tempinho para sentar no banco da praça, tomar um sorvete, abrir uma cerveja, ouvir um disco antigo, colocar as malas no carro, traçar um roteiro que nunca vai sair do papel, escrever uma carta, inventar um apelido, emprestar roupas, tirar fotos e rir, rir muito, o sentido da vida já está dado.

ou, como disse vinícius de moraes, a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

***

a foto foi tirada na Itália.

30 de janeiro

saudade

saudade é uma camiseta velha encontrada no fundo do guarda-roupas. é a foto da gente de cabelo de tigelinha no quintal em 1995, é chocolate de guarda-chuva, cheiro de café torrado, suco de amora. é o muro da casa da vizinha que agora está mais alto, a coleira do cachorro esquecida debaixo do tanque, bolinho de chuva às 3 da tarde em dia de semana. saudade é uma rua, uma porta, uma casa, é saber onde estava descascado na parede da varanda. saudade é uma música velha que a gente nunca mais ouviu, é uma passagem de ônibus amarelada no meio de um livro, é uma dedicatória. saudade é um raio de sol que entra pela janela e deixa a sala alaranjada, é uma colcha de retalhos, um sapato de balé. saudade é uma roseira no gramado do quintal, são as marquinhas de centímetros de altura no batente da porta, é um nome que a gente não lembra mais, é uma risada que chama a atenção. saudade é um fim de semana na praia, e só choveu. é um jogo inventado para matar tempo, um moletom emprestado, o medo de trovão. saudade é desenhar com sombra na luz da vela, é um desenho de giz, uma música de ciranda, uma blusa de lã, um problema de matemática. saudade é chuva de verão, noite de inverno, bolo de fubá, o barulho do mar. é uma parede pintada, um frasco de perfume onde sobram 3 gotinhas que ninguém teve coragem de usar, é uma cicatriz no joelho. saudade é um jeito de falar, de arrumar o cabelo, de bocejar e piscar os olhos. é um jogo de taças, uma garrafa vazia, uma ressaca. saudade é uma penteadeira, um bule e uma receita de doce de leite. uma língua diferente, uma palavra que ninguém mais fala, um céu de noite de verão, uma cidade a 700 quilômetros de distância. saudade é rir sozinho, chorar assistindo a um filme, é mandar mensagem, inventar história, escrever carta. saudade é abrir um álbum de fotografias, fechar os olhos e lembrar os detalhes do rosto. é uma festa de aniversário com brigadeiro e bala de coco. saudade é o cheiro de churrasco no domingo de manhã, é um disco dos beegees, é uma moda de viola. saudade é um caminhão estacionado do outro lado da rua, alguém batendo palmas no portão, uma voz que vem da cozinha. saudade é um oceano de distância, um abraço que já já chega, uma tarde que nunca mais volta, uma cadeira vazia na varanda de casa onde ninguém mais tem vontade de sentar.

Como lidar com fantasmas

oreo-ghost-truffles-halloween-recipe

eu sou crente. não crente da forma como usamos no dia a dia para falar do vizinho que anda com a bíblia embaixo do braço ou da tia que frequenta o culto. crente dessas que crê. do lado oposto dos céticos. eu acredito em tudo, e vou desacreditando por exclusão, conforme vou vivendo. saci, por exemplo, estou a ponto de riscar da lista de tanto que ando em mato e nunca vi um.

se me falam que é preciso acreditar em alguma coisa para um dia ser salva, eu digo que acredito em todas – e também que não preciso ser salva porque já vivo suficientemente bem aqui, careço de esperar coisa melhor pra outra vida, não. vou levando fé em tudo e na hora que chegar o fim do meu mundo eu vejo se numa delas acertei. e se lá, no último suspiro, não me aparecer nada: nem jesus com cara de europeu, nem extraterrestre com aura iluminada, eu abraço a descrença. ou não abraço nada, porque já vou estar em outra – ou em nenhuma, nunca mais.

mas sobre fantasmas, afirmo: todo mundo tem, cada um com o seu. se eles vêm do além ou não, aí é outra história. teve uma época que eu tinha pesadelos constantes. zumbis me perseguiam, ou extraterrestres tentavam me levar para a nave. eu sentia muito medo, acordava assustada. então, alguém me disse: na próxima vez que um zumbi te importunar em sonho, bate um papo com ele. pergunta o que ele quer. tentem chegar a um acordo.

fiz. funcionou. pararam de me perseguir.

antigamente, eu ficava muito irritada com as pessoas que dizem: você tem que ter medo dos vivos, não dos mortos. pensava: com o vivo a gente conversa, tenta uma persuasão se for o caso. mas que posso eu fazer se no meio do corredor às 2 da madrugada me aparece o capeta? o desconhecido é assustador, ainda mais quando pintam ele com rabo, chifre e gosto por sofrimento alheio.

claro que isso foi uma fase, eu era muito nova. hoje, quando sinto uma energia estranha, começo logo a cantar uma música boa ou já vou perguntando: o que você quer aqui, ahn?. havendo ou não qualquer coisa no ar, ficamos ao menos conversados, deixo logo minhas intenções explícitas. visitas, só quando eu aceitar. e vocês sabem: a cabeça da gente inventa muita coisa, também.

o importante não é a procedência dos fantasmas, mas o modo como a gente lida com eles.

bustiê

16295460_10211924196359464_1441546776_n

hoje minha avó falou piruá. fazia uns 10 anos que eu não ouvia essa palavra. ela disse que minha tia não sabe fazer pipoca, botou um pacote inteiro de milho na panela e só saiu piruá. minha avó reverteu o caso e tivemos muita pipoca. eu, que nem com vontade estava, fui comer por causa dos piruás, que depois da magia da cozinheira-chefa eram poucos. mas é que o assunto despertou vontade.

piruá é coisa que eu ouvia quando criança, igual cafona e bustiê. eu gosto de coisa velha. palavra, objeto, casa. moro num apartamento antigo, desses de cômodo grande, varanda, pé direito alto e traça. tenho um monte de velharia. semana passada resgatei um bule que era do meu bisavô.

e de receita velha, gosto muito. coisa tradicional, de família. arroz de mãe. vocês podem me apresentar um milhão de bolos de coco e eu posso amar todos eles de formas diferentes, mas tem um bolo de coco que é O bolo, o que deu origem a todos os outros, e esse é minha avó que faz desde quando o meu mundo é mundo.

foi por isso que, hoje, vi falhar mais uma tentativa de ser vegana. minha mãe fez pizza de calabresa e vocês sabem: pra comida de mãe não se diz não.

continuo entusiasta do movimento, mas entendo minhas limitações: coração fraco e estômago forte. sorte que dia desses descobri o termo flexitariana. é essa gente que quer ser vegana, mas que não consegue ser tão vegana assim. que abre mão do bife todo dia mas sente dor no peito só de pensar que nunca mais comerá uma paella de frutos do mar. gente que tá nem aí pra sandália de couro, que se importa com o bem-estar animal e o futuro do planeta mas deus me livre nunca mais nessa vida comer um espetinho de panceta

parece bobagem inventar uma palavra pra definir gente que não tem tanta força de vontade. preguiçoso já servia bem, você pode pensar.  eu mesma cogitei isso. depois conclui que a palavra me contempla, sim. tá tudo ali no texto que linkei. vai além de dedicação, é coisa espiritual, de consciência de finitude da vida e medo de escolhas drásticas (vamos colocar uma explicação profunda para justificar nossas fraquezas, sim!). então ficamos acertados: sou flexitariana.

porque eu também gosto de palavra nova. menos body, que é maiô. e food truck, que, por favor, é trailer. 

Eu nunca sei

y-yu-mama-tambien

Eu nunca sei quando é a hora de falar de amor com você. Tenho tomado muita chuva por esses dias. Não sei se é porque sou desprevenida demais e saio sempre sem guarda-chuva, ou se tem chovido fora do normal em comparação aos últimos 26 anos, período no qual (pelo que me lembro) não tomei tanta chuva assim. Eu ia fazer uma metáfora sobre você e chuva, e ser pega de surpresa. Não fiz. Passou.

O fato é que tenho vivido um pouco sem rumo, dias encarrilados e eu passando por eles. É um grande problema quando crescemos com a certeza de que teremos um futuro brilhante, a gente fica parado esperando o futuro brilhante chegar e não faz nada para que ele chegue. Talvez porque na primeira série eu fui campeã no concurso de soletrar palavras, e passei a achar que a vida para mim seria fácil. Então fiz pouca coisa.

Tenho dissimulado mais do que vivido. A sensação constante da brevidade da vida é traiçoeira, se quer fazer muito e acaba-se privando de grande parte. Quero dizer: a gente vai listando o que é preciso ser feito e a lista embolora no bolso enquanto vamos ao supermercado toda quarta-feira.

Acontece que tem esses dias enfileirados, de chuva, de sol, de roupa se acumulando no cesto, e tem você. Eu olho para você e penso que é exatamente aquilo que eu preciso. Depois vem o medo de errar, de você querer fugir, medo de descobrir que não é nada disso, que é tudo coisa da minha cabeça. Tem mais essa: a constante sensação de que sempre estou fantasiando. A gente acha que quando crescer vai ser forte e dar conta de tudo. Então cresce e morre de medo o tempo todo.

O grande problema é que com gente que só se lança em terra firme não se brinca, e eu infelizmente sou esse tipo de pessoa. Digo infelizmente porque acabo perdendo parte da aventura, aquela coisa do incerto, de arriscar. Deve ser por isso que nunca fui viciada em jogo também.

Por outro lado, nunca me restou ao fim um coração esmigalhado, quem tá sempre de marreta na mão a postos pra despedaçar mais um sou eu, e antes isso fosse bom. Mas no fim eu saio dos amores e eles meio que nunca saem de mim, fica sempre uma mágoa do mal resolvido, aquele gosto amargo quando toca uma música que faz lembrar. Dor de estômago que chá nenhum cura.

Entende o que eu digo? Ontem choveu até as 4h. Da manhã. Eu não dormi, e pensava que seria perfeito se você estivesse por perto pra me abraçar, fazer café e deixar as meias jogadas no chão da sala. Depois pensei que você poderia ver comigo o filme que eu via, era Woody Allen, e eu não gosto dele o que me dá uma tristeza toda vez que vejo um e constato mais uma vez que perdi meu tempo me chateando.

O tempo tem passado assim, eu fazendo coisas sem um propósito muito claro e às vezes parando para pensar se ser adulto é isso mesmo. E no meio desse nevoeiro, dessas ideias frias com gosto de sabão em pó, aparece a salvação: você, ou algo assim. Talvez minha vida com você nela.

Das poucas coisas que sei, esta é uma delas: as pessoas com quem a gente iria até à puta que pariu não são de se deixar passar sem antes ter ido, pelo menos, um pouco mais longe. Eu penso, repenso e vejo que tempo eu já perco todo dia. Você, não. Você é lucro pra mim.

Do meio dessa chuva eu olho e te vejo um pouco com coração de marinheiro, o que me magoa. Eu, da minha terra firme.

***

Esse texto estava no blog antigo, e também foi para lá no Outras Palavras. Aqui, oh. Como tem chovido muito faz dias, lembrei dele. Gostou? Comenta, compartilha 🙂

A foto é do filme Y tu mama tambien, que não fala de chuva, mas fala de vida.

Aos 20, aos 30

de-repente-30

Eu sei, é clichê fazer texto comparando como éramos com tal idade e como somos agora. Mas é esse o primeiro aprendizado: aos 30, a gente já assumiu que tá tudo bem gostar de clichês. Aliás, tudo bem gostar do que quiser, inclusive de Justin Bieber, coisa que eu jamais assumiria quando tinha 20 anos e perdia tempo tentando parecer descolada. Hoje, eu não perco tempo nem pra lavar louça.

Porque com 30 eu entendi que o tempo passa, a barriga aumenta e as costas doem, então comecei a beber menos, troquei a cerveja barata pelo vinho mais ou menos caro (às vezes), e faço o que posso pra evitar ressaca (quando lembro). É triste, mas é verdade: aos 20, a gente rebate a ressaca com cachaça, isso quando tem ressaca. Aos 30, a ressaca dura 3 dias e a gente aprende a fazer suco desintoxicante ou sopa de cenoura com gengibre (quem quiser a receita chama inbox) pra dar uma aliviada no estômago, na dor de cabeça e no resfriado que aparece depois do porre. E falando em otimização da farra, a gente também preza pelo conforto quando chega aos 30. Eu não saía de casa sem salto alto quando tinha 20 anos. Hoje, se o evento não permite que eu entre de sapatilha eu nem vou.

Com 30, conforto é tudo e a calça de ginástica é peça essencial no meu armário, apesar de eu passar longe da academia, porque não adianta: não emagreço mais. O bom é que eu não ligo mais pra isso. Aos 20, vivia tentado fazer dieta, aos 30 eu não tento. No entanto, por uma incrível ironia do metabolismo, aos 20 qualquer mudança na rotina me fazia perder 3 quilos em dois dias, mesmo com a dieta baseada em batata frita e chocolate. Aos 30, eu posso mudar de apartamento, carregar todos os móveis nas costas escada acima e me alimentar só de arroz integral por 5 dias que não perco mais que 300 gramas.  A gente começa a entender de culinária e aprende que miojo é uma porcaria, mas o problema não são os quilos extra que o excesso de sódio vai trazer: é que a gente quer ter saúde. Os quilos, alias, estão ótimos, obrigada. A consciência aumenta, o paladar melhor (gente, sério, Mc Donalds é muito ruim) e a experiência acumulada, nessa altura da vida, já permite que a gente se vire bem na cozinha. 30 anos é menos estética e mais saúde. Menos porque tem que ser assim e mais porque isso é bom pra mim.

A gente se aceita e tudo bem, e se o cabelo amanheceu te transformando num cosplay de Beakman, paciência. Aos 20, eu tinha chapinha, baby liss, e gastava grana com escova progressiva de chocolate marroquino ou qualquer coisa que me dissessem que deixa o cabelo mais bonito. E ainda morria de medo de ousar, cortar demais, mudar. Aos 30, se o cabelo não tá legal o problema é dele. A gente muda mesmo. Corta, pinta, renova e, se ficar feio, é estilo.

Porque o que acontece quando a gente chega aos 30 é que, como eu disse, a gente entende que o tempo é limitado, e nessa correria para pagar contas e ser feliz não sobra espaço para preocupações com o que esperam que a gente seja. A gente quer curtir os amigos, almoçar com a família no domingo, comer coxinha com tubaína e assistir Netflix com um gato gordo deitado no nosso pé.

Quando eu tinha 15 anos, imaginava que aos 20 estaria casada. Quando fiz 20, me via aos 30 assim: bem sucedida, com filhos, casa própria e carro. Os 30 chegaram e eu parei de pensar nisso tudo e tenho certeza que foi melhor assim: sem casa, sem carro, com carreira incerta, umas fotos bonitas nuns lugares interessantes e um gato gordo que esquenta meu pé no inverno enquanto assito Orange is The New Black.

***

Escrevi esse texto faz um tempinho pro Projeto Solo.