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2017 ainda me paga

2017

deram-me um ramo de lavanda. coloca no travesseiro, é bom. guardei na capa vermelha, surrada, já cheia de bolinhas de tecido muito lavado, e me enfiei no ônibus para enfrentar 900 e lá vai quilômetros com sorte sem ninguém ao lado. escolhi janela, na esperança de pegar, já no outro dia, o começo da manhã no cerrado brasileiro. na primeira parada sentou ao meu lado um homem espaçoso, como há de ser com quem não tem sorte, e pensei que seria difícil dali por diante levantar para ir ao banheiro. guardei na bolsa a garrafinha d’água e engoli um halls vermelho. na outra parada o homem mudou de poltrona, porque há de ser assim também com que não tem sorte: às vezes tudo vira. então dormi com a cabeça encostada no cheiro da lavanda do macio do travesseiro mais velho que a capa. de um lado, de outro, com os pés apoiados no encosto do banco da frente, com pés apoiados na mochila no chão, de todo jeito que se pode dormir no espaço de dois bancos de ônibus, acordando de hora em hora por causa da dor nas pernas ou para comer um pão de queijo, o máximo que a inteligência permite gastar nessas paradas no meio da estrada, onde um sanduíche custa mais que uma janta num restaurante italiano dentro da cidade. bafo, cansaço, dor no corpo, tudo, no fundo, é festa quando se terá em poucas horas um nascer do sol no meio do cerrado brasileiro e um abraço de chegada. e na chegada, casa nova, tudo novo, filtro dos sonhos e pés de majericão, 15 dias pra se viver uma vida em poucos metros quadrados com uma poltrona perto da varanda onde ficou, por 15 dias, o travesseiro alavandado. tanta vida pra viver, saudades pra matar, plantas pra cuidar, ruas vazias a serem caminhadas e lugares a serem descobertos, planos para fazer, que ficou pra lá a volta pra casa, a consciência entendeu que não era hora de pensar, como há de ser nos momentos que são vividos por inteiro: não existe antes nem depois. então, plantas saudáveis, casa acomodada ao meu ser, minhas roupas no varal, vizinhos brigando e rita lee no som pra espantar a voz que entra pela sacada. eu, cantando, no meio da sala, olho para o travesseiro de capa vermelha ainda repousado na poltrona. amanhã nos vemos de novo, 900 e lá vai quilômetro brasil abaixo, volta pra casa. enxuguei meus olhos na fronha vermelha e descobri que eles são sensíveis à lavanda.

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Brasil Universo

hermeto-pascoal

Pela minha compra — tomate, umas ervas, frutas — o irlandês da lojinha orgânica deduziu que eu fosse de algum lugar ali pelo mediterrâneo. Eu falei que não, que sou do Brasil, daí ele abriu um sorrisão e contou que quer muito ir para o Brasil, mas que não lembrava o nome da cidade. Chutei “Rio”, e ele falou que não, que era muito, mas muito melhor. Fiquei pensativa, ele também, e depois lembrou: era Curitiba. Eu achei bem estranho, ninguém aqui quer saber de Curitiba.

– É que eu preciso ver um cara. O Hermeto Pascoal.

– Eu não sabia que ele era de lá.

– E não é. Mas mora lá, ele e a mulher dele.

– Legal.

– Ele é um gênio, sabe? Um gênio. Ele tá acima.

Depois ele falou do Caetano Veloso e do Gilberto Gil, me perguntou qual dos dois tinha sido ministro da cultura, e disse que achava isso sensacional, quer dizer, o cara além de fazer música boa, ainda tinha sido ministro. Falou de Tom Zé, disse que precisava ouvir mais músicas do Tom Zé, porque só conhecia duas e achava incrível.

– Eu conheço pouca coisa da música brasileira, mas o pouco que eu conheço é genial. Sabe? É tipo planta. Se dá fruto bom, é porque o solo deve ser bom também.

Eu tento não ver poesia em tudo, mas até quando vou comprar tomate orgânico ela aparece.

Home alone com saudade

home-alone

Comprei botas novas porque as antigas estavam com um furinho na sola que deixava minhas meias molhadas e a gente sabe que o inferno é um lugar frio onde somos obrigados a usar meia molhada. Então eu vinha andando com minhas botas novas e quentinhas, segurando um copo plástico desses com tampa branca e olhando as vitrines enfeitadas com árvores de natal, papais noéis e neve falsa. Só faltou tocar Frank Sinatra pra fechar a cena do filme natalino.

Segurei firme meu copinho pra esquentar as mãos e percebi que é o primeiro Natal da minha vida do jeito que um Natal tem que ser — dizem, mas não foi o Sinatra que sussurrou no meu ouvido durante a minha reflexão diante da vitrine iluminada. Meu insconsciente brasileiro trouxe a voz da Simone me perguntando o que você fez, e eu fiz muita coisa, mas ainda não coloquei um chinelo e fui tomar cerveja no bar, porque se fizer isso meu pé gangrena e eu vou precisar de muletas. Não teve piscina, vestido de alcinha e sorvete sem hora pra voltar pra casa porque é férias.

Sabe por que Esqueceram de Mim é um filme legal? Porque a gente assiste a ele deitado no chão geladinho da casa da vó enquanto ela faz uma limonada, depois a gente põe chinelo e vai passear lá fora, dar uma nadada, ou sentar no batente da porta e ficar olhando pro horizonte. O Macaulay lá, de blusa de lã tomando sorvete, e a gente gastanto milhões em picolé de limão pra dar uma refrescada.

Natal no frio não é ruim não, mas o nosso é muito melhor. Quando o europeu chegou debaixo duma chuva, enfiou pra gente goela abaixo um Papai Noel de manga longa. Fosse numa manhã de sol, a gente tinha arrumado um papai noel de tanga e livrado pra sempre os velhos barbudos de suar o bigode nos shoppings tropicais.

Eu vou aproveitar o Natal original, porque as luzes na rua são lindas, mas vai ser a última vez. Melhor que botas novas e quentinhas, só chinelo havaiana.