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as dores e a leveza da vida

vó

sócrates deu uma desdenhada e falou que a escrita nem era tudo isso. acreditava ele que o hábito de anotar coisas poderia nos deixar meio burros. escrevendo, acabaríamos por usar menos a memória, o aprendizado prático e o bate papo olho no olho – a tal da dialética. na umbanda, o preto velho alertou meu amigo: é importante conhecer – e respeitar – nossos antepassados.

sócrates nasceu em 469 a.C., o que dá 2.486 anos pra trás na história, se não me perdi nas contas. minha avó, que quase não lê, pouco escreve e nada manja de filosofia ocidental, chegou na terra há 79 anos. ela deixa a desejar na escrita, mas tira de letra a dialética e faz o melhor café que existe. ciente da minha total aprovação, faz questão de deixar sobre a mesa uma garrafa de cafezinho fresco pela manhã, sempre que estou em visita à casa da família, menos quando preciso sair muito cedo. nesse caso, eu que me vire, porque ela não sai da cama antes das 9, luxo adquirido nos últimos 12 anos, depois que meu avô morreu.

antes da viuvez, acordava às 5 da manhã todosantodia para deixar pronta a marmita do velho. mesmo depois que ele veio trabalhar perto de casa, logo cedo a mesa estava pronta para o café. nem bem eram recolhidas as xícaras e os farelos de pão, já dava início às preparações do almoço, que no mais tardar às 11 se anunciava em cheiro de refogado casa adentro.

então, quando sento para tomar café, sem pressa e com o dia já bem amanhecido, ela puxa a cadeira ao meu lado. faz perguntas sobre minha vida e eu retruco com outros questionários. tem ali, por trás daqueles olhinhos espremidos e operados da catarata, 50 anos de mundo que eu não vivi. nascida e criada em sítio, filha de imigrante italiana, mãe de 3, avó de 5, irmã de 6.

diz que a primeira filha quase morreu de doença. nos últimos dias de gravidez da segunda – minha mãe – meu avô, saindo cedo para a roça, deixava com ela um mapa desenhado em papel de pão. um círculo feito a caneta indicava o ponto exato onde estaria entre tantos pés de plantação. deixava também de sobreaviso o único taxista da cidade. sentindo romper a bolsa, ela deveria chamar o motorista, seguir para o hospital e entregar a ele o mapa, para que fosse buscar o pai da criança. no nascimento da terceira, o médico avisou: salvo você ou salvo ela. depois de horas de dor, choro e gritos, o doutor sentou ao lado da genitora. exausto, suado, tinha o jaleco coberto de sangue. salvou as duas.

outro dia, mexendo as panelas no fogão, minha avó conversava com a irmã mais nova. eu, encostada no batente da porta, pescava uma frase e outra:

num tem nada pior que cozinhá com gente em volta, esperano – ela falou, e as duas riam.

muié antiga sofria calada – continuou –  hoje é diferente, hoje eu tô no céu.

minha avó sabe de chás, receitas, remédios e prepara a própria comida, saudável, que garante diabetes sob controle e disposição suficiente para torná-la aluna exemplar nas aulas de pilates. outro dia, na fanpage da academia, postaram uma foto: ela, com tecidos enrolados na canela, pendurada de cabeça pra baixo, rindo. eu ouvi daqui as gargalhadas. perguntei como é que se faz aquele movimento, o da cabeça pra baixo. ela falou: ué, é simples. cê apoia, sigura e vai tombano o corpo, assim. ela não perde por nada as aulas de pilates, não passa um dia sem cuidar da horta, das flores e das galinhas do quintal. ri muito, de qualquer bobagem, faz piada com quase tudo e não fala mal de ninguém. o caminho para chegar a essa leveza foi longo. 79 anos. os detalhes da estrada ela me conta, com ordem cronológica embaralhada, entre um e outro cafezinho dialético.

diante dos meus trintinha, dona odette viveu muito. o que é nada daqui até o tempo de sócrates. e esse tempo todo, do filofosão até cá, não chega a 2% do caminho do bicho homem sobre a terra, ou seja: somos nada mais do que são os grãozinhos de café que minha avó torrava e moía antes de se tornar consumidora do que já vem embalado. sozinhos, somos menos ainda. se conseguimos puxar um banquinho e assuntar com o passado, aumentam as chances de sermos algo um tanto maior, uma correntinha de vida nessa imensidão de tempo, de gente e de incertezas. o preto velho tem razão. sócrates, de certa forma, também. tem coisa que não há livro que dê conta de ensinar.

as dores e a leveza da vida, por exemplo.