Tag Archives: dica

Casa, memória e Rita Lee

casa

estou lendo “uma autobiografia”, da rita lee. ela inicia o livro de memórias – aleatórias e narradas com despretensão – descrevendo o casarão onde foi criada, na vila mariana, em são paulo. escada, quadro na parede, banheiro, tudo é rememorado em detalhes.

na sala da casa dos meus pais tem um espelho grande, emoldurado em madeira escura, pendurado sobre um aparador de madeira também escura. minha mãe conta que quis reproduzir naquele canto um pedacinho da casa onde moramos por 15 anos, em dois córregos, interior de são paulo. era uma casa com janelões de vidro voltados para a rua, de onde víamos as duas árvores grandes da calçada, os carros e as pessoas que passavam. não havia portão atrapalhando a vista, somente um portãozinho de madeira, mais baixo que as janelas.

o cantinho do espelho ficava num hall em frente à porta da cozinha, no início do corredor que dava para os quartos. entre uma sala e outra, tinha uma porta dupla de madeira, com mecânica de portão de saloon de filme de faroeste, que a gente empurrava teatralmente com as duas mãos, escancarando a abertura e dando tom triunfal à entrada na sala de visitas, onde ficava o rádio e um quadro grande e colorido – os músicos do central park era o nome da obra, que meu pai ganhou de um amigo  – enquanto as portas se fechavam às nossas costas, balançando. esses e outros detalhes, como o telhado da edícula ao fundo, facilmente acessado pelo muro lateral, onde eu e meu irmão subímos algumas vezes para admirar o céu, foram se desenhando na minha memória enquanto eu lia o relato da rita – que até o final do livro estarei chamando de amiga.

era uma casa grande, cheia de coisas que já estavam lá quando chegamos, como o espelho e a porta de madeira, e outras que trouxemos: quadros, móveis, marcas de pés nos muros usados de apoio para as escaladas. na casa onde meus pais vivem agora, eu nunca vi a mesa da sala totalmente arrumada. tem sempre papéis, vasos de planta, fotos e objetos dos mais diversos esquecidos por ali. no barzinho – aqueles de canto de sala de estar – sempre falta uma taça, que é frequentemente encontrada suja sobre a mesa da cozinha, com um restinho de vinho manchando o fundo. onde moro, o cinzeiro nunca está vazio e os livros se acumulam em pilhas sobre os móveis. é natural que, onde há gente, coisas se acumulem, quebrem, sejam transferidas de um canto para o outro. as casas moldam-se às vidas que transitam por ali. a gente é feliz quando e também é feliz onde, e felicidade de gente deixa marca em pessoas e lugares.  depois, vira tudo memória pra gente fechar o olho e lembrar do balcão da cozinha onde, encostados, jogamos tanto conversa fora.

esqueci de pessoas, festas e datas, mas lembro com detalhes dos ambientes onde vivi bons momentos, como as telhas da varanda da casa da minha avó, com a inscrição em alto relevo: são sebastião, que era o nome da olaria.

anos depois, quando voltei a dois córregos, quis passar em frente à casa do portãozinho de madeira. minha amiga advertiu: tem certeza?

seguimos em frente e demorei uns segundos para entender: as janelonas de vidro estavam totalmente escondidadas atrás de um portão alto, branco e metálico. a casa onde crescemos só existe agora na minha memória, num sinal claro de que nada, nem o que é de tijolo e cimento, dura para sempre no universo material.

lendas e histórias pra dormir

19755154-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx

o chocolate surpresa vai voltar para fazer a alegria da galera de 30 e poucos anos. nada mais infância anos 90 que isso e o chiclete ploc com álbum dos animais da amazônia. foi lá que eu descobri o que era uma víbora. e foi nos anos 90 que eu peguei trauma de chocolate galak porque um dia comi até vomitar.

pelo sabor e pelo cheiro a gente consegue reviver muita coisa.

eu lembro do xampu vital ervas, de frasco cilíndrico e tampa verde. quando minha mãe levantava de manhã, eu encostava a cabeça no travesseiro que ela dormia e pegava no sono respirando o cheirinho do xampu que o cabelo dela deixava ali. quem me lembrou disso foi gabriel, meu amigo, numa conversa nostálgica que tivemos enquanto assistíamos a um documentário sobre sacis. segundo o especialista, eles nascem em ninhadas de 7, crescem até 77 cm e morrem aos 77 anos. há machos e fêmeas, andam no meio de rodamoinhos e é preciso paciência para ver um. “não pode ter ansiedade para ver saci”, disse.

eu nunca vi.

minha avó diz que viu, quando era criança. a avó do gabriel falava de lobisomem. foi nessa conversa sobre coisas antigas que chegamos ao travesseiro das nossas mães com cheiro de vital ervas.

meu pai contava histórias pra gente dormir. inventava, enchia de detalhes, fazia suspense. no fim, ele dormia e a gente ficava acordado imaginando tudo aquilo que acabáramos de ouvir. noite escura, um velho andando sozinho numa estrada de terra. relâmpagos no céu, um uivo à distância. ele aperta o passo, o arrastar da bota levanta poeira do chão.

o pai descrevia o barulho da bota do homem raspando na terra batida. eu sei até hoje como é o rosto desse homem que nunca vi.

cresci com apreço por narrativas. gosto mais de história que de fato. mais de roteiro que de efeito especial. uma boa história não precisa de nada além de alguém que conte bem.

se você também gosta, eu te sugiro o filme Um Conto Chinês. tem no netflix. é essa dica, afinal, o único propósito desse post. além de jogar conversa fora. 

flamboyants e serendipitys

elena

serendipity é uma palavra de origem britânica que não tem um significado exato. descreve não uma coisa, ou sentimento, mas um sentimento que acontece num espaço-tempo. é quando a gente encontra algo que não estava procurando e, no momento do encontro, percebe que precisava exatamente daquilo naquele momento. tipo mágica.

você entra num sebo, abre um livro desconhecido e cai numa página que fala sobre partidas, exatamente no dia em que sua amiga está indo viajar para longe. então, aquele livro passa a ser o melhor presente de despedida que você poderia dar a ela. serendipity.

eu gosto quando acontece com músicas. há dois dias, falei para o meu namorado sobre o quanto acho bonitos os flamboyants, essas árvores que dão flores vermelhas no verão.

músicas são boas para causar serendipitys. você escuta uma por anos sem prestar atenção, porque está sempre distraída ou porque aquela não é a sua preferida no álbum, e você as vezes pula ela para ouvir as outras. até que um dia acontece.

faz tempo que toca no meu celular o show do alceu valença com a orquestra de ouro preto. ontem eu estava na estrada, olhando o dia pela janela do ônibus, quando tocou sete desejos. lá fora, céu azul, grama verde e flamboyants. era como se eu ouvisse pela primeira vez. fiquei maravilhada com a lindeza dessa música.

o olho da gente é que nem concha, que guarda poesia do lado de fora.

as vezes a gente acha uma pérola.

 

*A foto é de Elena Simona Craciun.

desejos para 2017

goalie_1

quem é ligado em astrologia já deve estar sabendo que 2016 encerra um ciclo de 36 anos, período em quem ficamos sob domínio do sol. foi um tempo de egoísmo, individualismo e imediatismo, dizem.

que está acabando. passaremos, pelos próximos 36 anos, a ser regidos por saturno.

só que a coisa não melhora tanto assim, porque saturno não é um cara tão legal. na ordem de distância da terra, só perde pra urano, netuno e plutão. ou seja, longe demais. e também muito afastado do sol. é frio, escuro e por lá venta muito. um astro nada simpático, na minha humilde opinião.

o que ele traz de bom? amadurecimento, dizem.

para quem não é de astrologia, e eu acho que eu não sou, servem as dicas seguintes: em 2017, leia bons livros. faça uma lista e tente seguí-la. veja filmes e séries, converse com as pessoas de quem você gosta, e com as que não gosta também. ficar isolado na internet trocando ideias com quem concorda com a gente é tentador, mas até o seu tio reaça pode estar disposto a ouvir, não necessariamente sobre a teoria queer ou a luta pelo fim do patriarcado, mas sobre uma receita de bolo de laranja, e ele pode dar uma dica de cobertura, há chances de vocês trocarem algumas frases gentis e um dia, quem sabe, conversarem amigavelmente sobre política.

e se o tio reaça for realmente tão reaça a ponto de barrar qualquer diálogo, por mais fútil que seja, siga a filosofia jorge ben jor e então evite qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido. é necessário, em alguns casos.

não subestime o fútil, aliás. as futilidades são bem-vindas, fazem parte da vida e aliviam um tanto o peso dos dias. da comédia romântica da sessão da tarde ao novo corte de cabelo, futilidades caem bem. inclusive para boas conversas. profundidade demais cansa, ninguém aguenta.

perca tempo necessário com filosofias desnecessárias, como o porquê da lagartixa conseguir ficar grudada na parede ou o tamanho do coração de um beija-flor. esteja munido de bons pensamentos, entre eles os extremamente desnecessários, mas que trazem leveza à alma.

seja – ou torne-se – uma pessoa leve, partidária dessa leveza que prega maria bethania ao dizer que não fala mal de quem não está presente e não pronuncia o nome de gente que faz maldade. adote isso para a vida.

ou dessa leveza de que fala hilda hilst, uma leveza ainda que fantasiosa mas que pode fazer o caminho alheio um tanto mais suave:

nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho

apegue-se a ídolos improváveis. se for o caso creia em um deus, mas aceite, sobretudo, a sabedoria de pequenos deuses de carne e osso, como sua avó, sua professora da primeira série, a aranha que, como diz gil, vive do que tece; ou a sua própria mente.

aprenda novas receitas, faça novos amigos, retome amizade com amigos antigos, abra mão da presença de quem não acrescenta nada de positivo (mas saiba que quase todo mundo tem algo acrescentar), mude um hábito, ouse praticar um esporte diferente, procure cursos gratuitos e vá em frente: teatro, canto, francês, estamparia, escultura, confeitaria; e ajude alguém: com lições de matemática, com a mudança de casa, com as compras que caíram da sacola ou com um abraço.

viaje muitos quilômetros para ver alguém que você gosta, mesmo que custe algum dinheiro. você não precisa trocar o celular por um modelo mais novo, mas ver a sua amiga de infância você precisa sim, com certeza. planejar uma viagem dá preguiça, sair da zona de conforto é um saco, mas depois que a gente parte só pensa em porque é que não fez isso antes. então, faça isso pelo menos uma vez neste ano.

seja honesto com você mesmo, e entenda suas prioridades.

sobretudo, não dê tanta importância ao que não merece. lembre-se que numa terra onde dinoussauros foram extintos; e que vive sob risco de novos meteoros, pouquíssimas coisas são realmente importantes, por mais que a nasa garanta que está usando as tecnologias mais avançadas para prevenir novos desastres. porque até a nasa pode errar.

assim espero.

 

*A sugestão da música é do Márcio

*A foto é de Jordan Matter