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Não é chazinho de hortelã

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Esta semana apareceram dois relatos de moças falando sobre pílula do dia seguinte e anticoncepcional. Eles estão aqui, onde a Gilda fala sobre gravidez ectópica  e aqui no relato da Juliana, que teve trombose cerebral.

Elas descobriram – da pior forma possível – algo que eu também demorei para entender: coisas que são vendidas como soluções simples podem, na verdade, trazer graves consequências. Falta informação.

A minha história começa em 2002. Eu tinha 16 anos, muita espinha na cara, 49 quilos e cólicas avassaladoras. Terríveis mesmo, de me deixar de cama sem conseguir ir pra escola. A menstruação era desregulada, e tinha também a TPM fortíssima, com choro, tristeza, mau-humor e desespero. Enfim, um caos.

Então pedi pra minha mãe e ela me levou no ginecologista. Era um senhor muito velho, que usava peruca preta só na parte de cima da careca e os cabelos do lado, branquinhos, ficavam ali aparecendo, todo aquele contraste desconfortável. Isso é tudo que eu lembro da minha primeira consulta ginecológica: a peruca do médico. Ele me fez umas perguntas e receitou o anticoncepcional. Diane 35.

Fiquei felizona porque UHUU vou tomar anticoncepcional. Sou adulta, mulher independente. Ok.

Em poucos dias as espinhas tinham sumido. Maravilha. Mas eu pulei dos 49 pros 53 quilos assim, rapidinho. As pernas ficaram grossas. Eu estava inchada. Conversei com amigas e, por contra própria, troquei de pílula. Fui pro Diclin. Fiz uns exercícios e o peso voltou ao normal.

Daí em diante foram longos anos, eu e a pílula, a pílula e eu. O que eu não percebia, e que agora olhando para trás consigo ver, é que o anticoncepcional muda a gente. É o seguinte: os hormônios fazem parte de quem nós somos. Se tem um medicamento controlando nossos hormônios, isso interfere na nossa personalidade. E eu fiquei desgraçada da cabeça.

Quem viu de perto vai falar menina-num-tem-quem-diga, mas é aquele ditado né, todo mundo vê as pingas que a gente toma mas ninguém vê as lágrimas que a gente entorna. Nos anos com a píilula eu fui uma pessoa muito ansiosa. Tive crises terríveis de ansiedade, tomei remédinho manipulado, melhorava, voltava. E eu achando que isso era parte de mim. Haha.

Em dezembro de 2014 decidi pela primeira vez na vida parar com a pílula. Foram dias de reflexão, porque era meio como falar tchau pra uma amiga que tava ali comigo fazia já 12 anos. 12 anos sem saber como meu corpo realmente funcionava! Então eu parei.

Os primeiros meses foram um pouco conturbados, a menstruação não vinha mais naquele dia exato que eu sabia que iria vir, e apareceu uma cólica levinha. Com o tempo, saquei que meu ciclo é de 35 dias, e achei incrível ver meu corpo funcionar assim sem ajuda de medicamento. UAU.

Apareceram umas espinhas, nada grave, e aliás é tudo mentira que espinha é coisa de adolescente pois cá estou com duas na cara, mas tá tudo bem também. E tchatchantchantchaaaaan: a ansiedade sumiu!

As vezes ainda rolam um surtos, mas é coisa muito pequena perto do terror que eu vivia anos atrás. E agora eu consigo respirar fundo e controlar. Tem outras mudanças no meu corpo, minha disposição, meu humor, coisas que me fazem ter a certeza de que eu não volto a tomar a pílula nunca mais. NUNCA MAIS.

O lance é: não estou falando para todo mundo parar de tomar a pílula. Sei que tem gente que faz tratamentos com ela, tem gente que se dá bem, tem gente que precisa. Mas o negócio é o seguinte: ao contrário do que a maioria dos médicos faz parecer, ela não é chazinho de hortelã. É hormônio. E isso interfere muito na nossa vida.

Vendem o anticoncepcional como única solução para muita coisa. E não é. Eu poderia ter melhorado naturalmente se tivesse pegado firma na acnase, mudado a alimentação (que aos 16 era basicamente chocolate e hamburguer) e feito uns exercícios regularmente? Provavelmente. Mas o médico nem cogitou isso ae. Foi toma aqui esse remedinho milagroso, minha filha. É ou não é assim? Lembro de uma vez em que comentei com outro ginecologista sobre o desejo de parar com a pílula e ele falou “mas ela não tá funcionando bem?”, e no fim me convenceu a continuar.

Existem outros métodos contraceptivos. Tem a famosa camisinha, sabe? Tem o DIU. Tem a billings, que é tipo uma tabelinha mas baseada nos sinais do nosso corpo. E eu juro pra vocês: sem a pílula, esse sinais funcionam claramente. É uma coisa maravilhosa. Conversem com o médico e questionem. Muito. Sobre tudo.

Com relação à pílula do dia seguinte, a Gilda fala tudo lá no post dela. Recomendo a leitura. Uma vez meu pai, durante aquela conversinha que os pais têm com os filhos adolescentes, me falou assim, ó: anticoncepcional te previne de gravidez, mas você pode pegar uma doença. Camisinha é amor próprio.

Considerem.

Personagens femininos

Dias atrás falei do quanto é difícil encontrarmos filmes que mostram histórias femininas que vão além do amor romântico numa relação homem-e-mulher. No geral, temos papéis de destaque ao lado de homens, em histórias dramáticas ou românticas. Ou então, servimos de apoio para o personagem masculino. Somos a mãe, a amiga, a secretária e a amante do protagonista.

Essa análise da importância dos papéis femininos em uma narrativa é conhecida como teste de Bechdel. Se num filme pelo menos duas mulheres têm nomes e conversam entre si sobre assuntos que não sejam homens, então o filme passa no teste.  Com base nessa ideia, o canal de humor Nuclear Family fez este video sensacional, o Underwritten Female Caracter, ou “personagem feminino pouco desenvolvido”, um tipo de trailer de um filme que reuniria os personagens femininos mais comuns do cinema.

É fácil lembrar delas. Pense no seu filme preferido. Ele passa no teste de Bechdel? Se não passar, tudo bem. O problema não são os filmes que não passam. 500 dia com ela, por exemplo, é um filme leve, divertido, bonito, e está reprovado. Uma linda mulher é um clássico reprovadíssimo. Perfume de mulher é maravilhoso, mas também fica de fora.

O problema, como eu ia dizendo, é o pequeno número de filmes que passam no teste em comparação com o número de filmes onde somos coadjuvantes, alívio cômico ou objeto. E o cinema reflete a sociedade. E nós nos inspiramos no cinema; e sabemos que somos muito mais complexas do que a mocinha simpática e descolada que aparece para salvar a vida do rapaz depressivo que vai mais tarde dispensá-la; ou do que a mulher fatal que surge para arruinar a vida do galã e inserí-lo num mundo novo cheio de desafios. Nem preciso falar das gostosas cujo maior desafio dentro do roteiro é fazer com que os cabelos esvoacem ao vento, né?

Então, se é sexta-feira, você vai ficar em casa e quer ver um filme com personagens femininos inspiradores, aqui vão as minhas sugestões: As Horas, Juno, A Pequena Miss Sunshine e Volver. Se você quer mais, neste link tem uma lista 🙂

Eu, feminista

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Como toda criança de classe média dos anos 90, eu ganhava muita roupa usada dos primos mais velhos. Numa dessas levas, chegou uma camiseta com a seguinte frase: “Meio inconsciente, me tornei mito e ídolo, ou mulher símbolo da liberdade”, tudo escrito em roxo, e a plavra iberdade em amarelo, destacada. Embaixo, o nome da autora: Leila Diniz.

Eu, que não tinha mais que 11 anos, fiquei encantada e perguntei ao meu pai quem era Leila Diniz. “É uma mulher aí que foi pra praia de biquini”, disse ele, virando as costas e me deixando com o olhar no chão. Uma resposta triste para uma frase tão bonita, e para uma menina tão curiosa. Resolvi pesquisar.

Não lembro como foi que descobri, porque naquela época ninguém tinha internet em casa, mas achei incrível quando soube que Leila Diniz não era só uma mulher que foi à praia de biquini. Ela era uma mulher grávida que foi à praia de biquini numa época em que mulheres haviam sido proibidas de usar biquini. Eu ainda não sabia, mas foi lá, por volta de 1995, que começaram a surgir os primeiros problemas ideológicos entre mim e meu pai. Foi também lá que começaram a surgir os primeiros traços do meu eu-político e social atual.

O meu pai é uma pessoa maravilhosa. Sempre me incentivou a estudar e pensar numa boa carreira, me falou de independência financeira e amor próprio. Quando eu era criança, ele me contava histórias e aos finais de tarde me colocava na garupa da moto para sairmos pela estrada de terra curtindo a paisagem. Um paizão, mas um homem. Um típico homem dos anos 90, e como tal, e como muitos, um tanto desajeitado quando o assunto é universo feminino.

Para uma menina que está colocando um pé na adolescência e que vive em um mundo cercado de “menina não pode”, uma mulher que nos anos 70 vestiu um biquini e foi à praia é uma heroína. Conscientemente, eu não sabia disso. Hoje eu sei.

Se hoje me assumo feminista, é – também – por Leila Diniz. E pelo meu pai, que certamente não se considera machista. Meus anos de guerra ideológica com ele passavam por isso: víamos o mundo de pontos de vista diferentes, e ele não estava disposto a tentar entender o meu universo.

Há um estigma na palavra machismo, tanto quanto há no feminismo. Machista não é só o homem violento que agride e entende que sua força de trabalho deve valer mais do que a de uma mulher. É também quem não quer rever os papéis socais destinados a cada um de nós baseado no que temos entre as pernas. O senso comum diria que meu pai não é machista. Ele nunca, jamais, agrediria uma mulher, ele é a favor das mulheres sendo respeitadas no mercado de trabalho, ele admira mulheres talentosas. No entanto, quão violento pode ser você podar pela raiz os sonhos de uma menina ao dizer que ela, como menina, não pode jogar futebol? Também não é uma forma de violência você aniquilar os ídolos de uma criança que está descobrindo o mundo e a si mesma?

Esse é o desafio de se assumir feminista: ao fazê-lo, temos que pensá-lo. E ao pensar o feminismo, descobrimos que mesmo as pessoas que amamos nos machucaram. É um processo doloroso. É triste pensar que todas as vezes que nosso pai disse que não podíamos algo porque somos meninas, ou que o namorado reclamou da nossa roupa, não era um direito deles: era exercício de controle, ainda que inconsciente. É cômodo pensar que o mundo é assim, e seguir acreditando que eles estavam só querendo o nosso bem. Na mente deles, sim, estavam, mas de uma forma egoísta. Veja bem: machismo não se expressa somente pela violência física, mas também pelas imposições sociais. De quantos “você não pode” é feita uma carreira brilhante deixada de lado? Quantas meninas abriram mão de sonhos por crescerem acreditando que certas coisas não serviam para elas?

Quando a gente é chata e fala de desconstrução de conceitos e padrões, é também disso que estamos falando: pensar no que estamos transmitindo para os pequenos. Os adultos não sabem lidar com crianças, principalmente com meninas. Tive na faculdade uma professora que dizia que o maior desafio do escritor de livros infantis é escrever a partir do ponto de vista da criança. É um trabalho difícil, porque ele é adulto e já se afastou faz tempo da realidade infantil. O mesmo vale para as conversas com crianças: os adultos, em geral, não conseguem fazer isso sem feri-las.

Durante a campanha #meuprimeiroassédio, eu lembrei de quando tinha 11 anos e me falaram que eu precisava começar a usar soutien. Eu sentia que meu corpo estava mudando, mas não compreendia ainda o sentido amplo dessa mudança: que dali para frente eu já era uma mocinha, e, por isso, precisava me esconder dos olhares dos homens. Quão violento é isso para uma menina que ainda brinca de bonecas? Os adultos que me falaram para esconder os peitos, eu sei, não pensavam que me faziam mal. Eles queriam me proteger. Poucos pensam, no entanto, que a mentalidade da criança está longe dos conceitos do mundo adulto. O melhor jeito de proteger uma criança é respeitando a infância, não tratando-a prematuramente como gente grande.

Essa disparidade entre o mundo adulto – cheio de conceitos e verdades irrefutáveis – e o mundo infantil – livre, destemido, cheio de sonhos – tem que ser pensada, compreendida, trabalhada. Para que sonhos não sejam podados prematuramente. Para que as crianças encontrem, elas mesmas, suas verdades. Anos depois, eu finalmente consigo me sentir tranquila comigo mesma, e entender que meus ídolos não estão errados.

Se eu tivesse conhecido o feminismo 15 anos atrás, minha adolescência teria sido mais fácil. Porque, para mim, uma das belezas de entender o feminismo é isso de olhar para nós mesmas, perceber o quanto de nós é vontade própria e o quanto é cobrança social. E encontrar conforto.

É por isso que eu me assumo, hoje, feminista. Porque, um dia, Leila Diniz me falou que mulheres podiam ser livres, seja lá o que a palavra liberdade queira dizer para cada uma de nós.