Tag Archives: morte

belchior, o poeta deste país bonito e duro

Belchior; Cantor

não sou uma pessoa de religião, mas tenho comigo meia dúzia de textos que são minhas orações. um deles é a carta que o ator matheus nachtergaele escreveu em despedida a ariano suassuna. em certo ponto, matheus trata o brasil como “esse país bonito e duro”, e é ali que a carta me fisga.

porque são assim as minhas orações: desdobramentos do meu olhar. são palavras que me mostram que, no que diz respeito ao modo de ver o mundo, eu não estou sozinha. então, rezo com aqueles com quem concordo. ou com aqueles que gentilmente me mostram uma nova forma de ver as coisas antigas. por isso, por exemplo, é de manoel de barros outra das minhas orações, o texto em que ele fala sobre a importância das coisas. recomendo a você, também, que leia.

dito isso, vamos em frente. eu estava sentada numa cadeira de lata, numa barraca cheia de gente, num calor de um sol longe de ser de quase dezembro, comendo um acarajé, quando soube que belchior morreu. naquele exato momento em que me disseram: tenho uma coisa pra te contar que pode te deixar triste, mais uma vez eu lembrava que não gosto de acarajé, mas foi só depois da mordida que veio a lembrança, porque sempre me deixo enganar pela cor e pelo cheiro. eu comia um acarajé numa praça na capital do brasil, onde índios sentados na sargeta tocavam flauta e vendedores disputavam a atenção dos turistas, quando me foi dito que belchior, enfim, reapareceu, para sumir de vez. quem acompanha as notícias e burburinhos sabe que ele andava sumido fazia anos. fugiu pelo mundo, cheio de dívidas e enrolado com um novo amor, algo assim, totalmente confuso, bastantemente poético. o o globo falou sobre isso certa vez.

é de belchior, também, uma das minhas orações. se minha vida fosse filme, teria ele na trilha sonora, com essas músicas que tantas vezes embalaram meu olhar através de janelas de ônibus. longe de casa, nas noites solitárias num país frio e distante, era a voz do tio do bigode que me lembrava da certeza, áspera e gigante, de que tenho coisas novas para viver.

então, no meio da capital desse país bonito e duro, chega-me a notícia da morte do poeta que nunca negou essa dureza, e fez dela matéria prima duma obra que fala tanto da gente. enquanto eu mastigava, contrariada, a massa do acarajé, e botava pimenta à revelia, engolindo tudo com cerveja, lembrava de uma e outra frase. uma nova mudança em breve, vai acontecer, veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte, nunca mais seu pai falou she’s leaving home e meteu o pé na estrada. amigo, eu me desesperava, mas  presentemente posso me considerar sujeito de sorte, porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte e mais que tudo somos, sou e continuarei sendo essa menina latino americana que esquece dos próprios gostos, engole tanta coisa e se emociona com a morte. eis a minha oração:

Advertisements

um lapso

art-broken-explosion-glass

pegamos engarrafamento voltando da praia. do meu lado esquerdo, o sol baixava na lagoa. dos males o menor: a estrada passa lenta mas há céu bonito pra distrair.

sobre o asfalto, invadiu meu campo de visão a causa do congestionamento: debaixo do plástico preto, o corpo da mulher atropelada, do mesmo jeitinho que caiu perto do canteiro central da rodovia. uma perna ficou pra fora da lona escura, o pé calçado com chinelinho branco, desses que a gente bota pra ir até ali e já voltar.

um absurdo a morte repentina, um despropósito, uma bobeira. saiu pra comprar o queijo ralado do macarrão da janta, coisa rápida, na vendinha do outro lado da pista, nem precisa andar mais 50 metros até a passarela, a comida esfria, corta pela pista mesmo. distraiu, tropeçou, morreu. em casa, alguém vai ficar sem queijo, sem jantar, vão ter que correr atrás de burocracia, ligar no trabalho, funerária, atestado de óbito. daqui uns dias, vai sobrar pra alguém fazer o que ninguém quer: juntar as roupas, vender, doar, jogar no lixo. tudo por causa de um queijo ralado, de uns 50 metros, de um tropeção, um chinelo mal colocado, um motorista distraído, uma criança que chorava no banco traseiro, um lapso, porque a morte não é o monstro escondido debaixo da capa preta de foice na mão, ela é uma lagartixa que te puxa pelo calcanhar e te derruba debaixo do pôr do sol no fim de tarde de uma segunda-feira.

Black mirror e a morte

black-mirror-3x04-kelly-autoriza-eutanasia

o ano tá acabando, mas antes de falar de natal e planos para 2017 eu quero falar da morte. na verdade, de black mirror e da morte, porque ambos foram muito presentes em 2016. a morte porque ela é sempre presente. e black mirror porque isso tudo é muito black mirror, mêo.

ontem numa livraria encontrei um dicionário de psicanálise e sonhos. parei numa página que dizia que a criança, quando sonha que alguém morreu, é porque quer que essa pessoa desapareça. ela não entende da morte e suas implicações. até certa idade, a criança sabe apenas que morrer é desaparecer.

mais tarde, passa a perceber que morrer é desaparecer para sempre e para todos, de modo trágico ou não. quando cheguei nessa fase da vida, de compreender o sentido amplo da morte – eu devia ter uns 11 anos, pelo que lembro – eu pensava: não é possível que eu vou morrer um dia.

não fazia sentido. eu tinha que ir à escola toda manhã, de uniforme e cabelo penteado, estudar, fazer provas, responder pra gente adulta o que é que eu quero ser quando crescer, pensar em futuro. e pra isso: morrer.

era ridículo.

vivi então anos da adolescência pensando que eu não deveria me preocupar com a morte porque quando chegasse a minha hora a ciência já teria evoluído a ponto de ninguém mais morrer. ufa.

cresci e entendi que, se a gente não morre, isso aqui vira um caos. a comida acaba, a terra superaquece, vêm os maremotos, tudo isso que a gente sabe que pode acontecer a qualquer instante porque nosso mundo está cheio com gente que suga todos os recursos e energias e joga lixo na rua.

pensei: ok, vamos fazer tudo isso mesmo, todas essas festas de formatura, batizados, cursos de pós graduação, e morrer. segue o baile.

e aqui estou eu, ser vivo nesse mundo em busca de prazer e distração e que, ciente da morte, come chocolate, namora, dança e assiste séries no netflix. a da vez foi black mirror. para quem não viu, recomendo. tem uns episódios muito bons, e o el país fez uma lista dos melhores, embora eu discorde dessa ordem.

o lance é que dois episódios mexeram comigo porque eles falam disso mesmo: morte. ou uma possibilidade de vida eterna. o episódio be right back traz o ponto de vista de quem fica aqui, vivendo, enquanto alguém querido morreu. uma moça grávida e recém casada perde o marido num acidente. sofrendo com o luto, ela recebe uma proposta de aplicativo que, com base em tudo o que o marido fez em vida no universo online – fotos, textos, mensagens de voz, vídeos – cria um programa que reproduz falas dele. eles podem conversar por telefone e tudo mais. tipo o filme her, só que com uma personalidade que já existe, tudo mapeado e simulado para tapear a ausência definitiva. é interessante para pensar coisas bobas como, por exemplo, o quanto as pessoas podem ser substituíveis – ou não. ou o quanto somos carentes e precisamos de conforto perante a morte. ou ainda, o quanto não sabemos lidar com ela.

o outro episódio, e este é o meu preferido, é san junipero. eu não quero dar spoilers, mas garanto que se você tem coração mole, vai chorar. o roteiro gira em torno da possibilidade de se manter a consciência viva, mesmo depois da morte do corpo.

outro dia li uma matéria muito bonita sobre o segredo da felicidade dos moradores do butão. as pessoas desse pequeno país asiático são felizes – ou menos tristes que a gente – porque lidam com a morte de forma natural. é parte da vida.

coisa que por muito tempo me neguei a entender.

mas voltando ao black mirror, o que achei interessante nesses episódios – além de outras coisas – é que eles trazem para a morte uma saída que eu, nos meus anos de negação, nunca pensei (também porque lá nos anos 90 não vivíamos tanto junto da tecnologia, inteligência artificial e tudo mais). a proposta agora parece óbvia: se um dia existir vida eterna, talvez ela parta da desvinculação entre corpo e consciência.

antes de black mirror me trazer essa nova possibilidade de vida eterna, eu gostava de pensar a morte como pensa chicó, personagem de o auto da compadecida. diante de uma cachorrinha morta, ele diz:

cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.

se a contemporaneidade for mesmo todo esse black mirror, talvez um dia tenhamos acesso à vida eterna, mas ela vai custar dinheiro e chicó vai estar errado. nem mais a morte vai ser aquilo que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados, porque, a não ser que vençamos a desigualdade social, vai ter gente sem dinheiro para gastar com aparatos tecnológicos que abrem as portas da eternidade. a vida eterna, se um dia existir, vai ser só para quem pode pagar.

e eu nem queria mesmo.