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temática

chagall-arte

escreva porque sim

porque existe na sua alma
tal sequência de fonemas
que jamais saiu da boca de outra pessoa
um sentimento que você não sabe
como definir
se não for
em versos
porque ontem o sol incidiu no olho do gato da vizinha
de uma forma nunca vista
porque na esquina do quarteirão de baixo
um menino sentou no meio fio às três da tarde
ou porque seu pai acaba de morrer
escreva porque você não pode
jogar seu corpo no caminho do pedestre
e falar essas palavras diante dos olhos dele
ou porque mais uma vez fomos saqueados
escreva porque dói
porque não tem cura
porque fica melhor no papel
do que no pensamento
ou na boca
porque daqui mil anos
não haverá qualquer rastro seu
sobre essa terra
escreva porque há dias você tenta lapidar essas palavras
que te sussurram
e que serão lidas por uma senhora de 43 anos que
acabou de limpar as lágrimas
por uma moça de 30 que jamais saberá o nome do autor
por um rapaz de 16 que por dois segundos vai arquear as sobrancelhas
por um homem que encontra todo dia uma pedra no caminho
só não escreva para receber os aplausos
de uma mulher
que sequer existe
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Devagar se vai longe

rose-dying-flower

Dias de longas horas arrastadas, outros de piscar os olhos e já ser breu. As manhãs de sol serviam para a roupa no varal, todas as outras eram tempo para dar de beber às plantas e cortar, descascar, ferver, mexer com o almoço.

Quando chovia, o céu se armava num cinza senhor do mundo, espalhando bolor em cantos de parede a ponto de se sair ao quintal segurando punhado de sal em pedido a Santa Clara. Fiou-se com olhar e paciência uma colcha de retalhos feita de dias sequenciados, uns de nuvens, outros tantos de panos brancos secando à sol e brisa. Entre o de se manter e o esperar, havia espaços para observar passarinhos juntando palha na quina do forro da varanda em cima da madeira. Trazia no biquinho os gravetos, depois amuava-se. E lagarta enrolando ela mesma em casulo de seda. Como será que a lagarta conta os dias, se em tão pouca vida minha ela vive duas ou três? Meu tempo, perto dela, sobra.

Resto de tempo é vida, chance de a gente se entender com a sutileza ou dar nome diverso para cada flor. Universo manda sinais, por exemplo: quando chega sorrateiro pela janela da cozinha o cheiro do amaciante da roupa no varal ali por volta do meio dia é que vem chuva de tardezinha. Em maio, formiga faz fila no quintal carregando folha na cabeça, ou migalha qualquer. Setembro a cigarra se estoura de cantar. No observar é que a gente se faz.

Que os primeiros versos assim foram: depois de uma vida. Na folha em branco, caíram por letra as coisas vistas. Ninguém faz poema de véspera.