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Uma carta para Guimarães Rosa

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João,
Agora que pisei no seu chão, sinto-me à vontade para contar. Foi um ocorrido de anos antes, muitos, pra mais de dez. Naquela época, encontrei na poeira duma estante um livro de literatura brasileira. Vivia com ele na mochila, porque precisava garantir as boas notas nas provas. Tinha a frente cheia de frases e nomes. Do meio pra direita, estava escrito: qualquer amor já é um pouquinho de saú, com o “u” já pela metade, perdendo-se na esquina da capa, nem se via o acento. Você bem sabe que a cabeça da gente não dá conta de coisas inacabadas e completa por si só o que ficou pela metade. Completei assim: qualquer amor já é um pouquinho de saudade. E dei por certo. Amei essa frase, e deixei-a definir meus amores. Escrevi em capa de caderno, cantarolei. Depois, só depois, é que encontrei sua frase feita: Qualquer amor já é um pouquinho de saúde. Estranhei, porque da saudade pra saúde há um rio de semântica. 


Quando descobri a saúde da saudade, descobri você, João. Você sentou ao meu lado e falou assim: menina, o mundo é maior, muito maior. Eu, Miguilim sem as lentes, botei óculos que foram seus, de Clarice, Kerouac, Lygia, Hilda, James Joyce. Fui confirmar lugares tantos. 


Quando então ponderava com que lentes me assentar, você apareceu mais uma vez, chamando: vem cá. Era hora de ter com Riobaldo. Era tempo de enfrentar Hermógenes. Eu, que também já tive lentes de Cervantes, montei no cavalo e fui. 


Então deu-se a magia, João. Foi só descansar a vista nos seus pastos que carecem de fechos que deixei solta minha alma. Por sete dias eu não fiz outra coisa que não fosse olhar ao redor. Por sete dias na sua terra, eu estive ali e só, acordando cedo, comendo quando batia fome, dormindo quando chegava o sono, gastando a energia dos músculos, ajudando quando podia, sendo ajudada quando precisava. Não fizemos outra coisa que não fosse viver e cantar. Então eu entendi, João, sua esperteza de juntar num mesmo canto gente que gosta de sonhar. Ou gente que precisa sonhar, tudo assim, gente que andou junta e encontrou ali gente parecida, outros tantos Miguilins querendo ver mais adiante. Como é bonito quando a gente consegue descansar longe a vista!

Agora estamos, de novo, cada qual no seu canto. Cada um com um pouco do outro no peito. Ganhamos lentes novas. 


Era verdade, também. Qualquer amor já é um pouquinho de saudade.

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*Uma das propostas de depois d’O Caminho do Sertão foi escrever uma carta para João Guimarães Rosa. Um mês depois, finalmente escrevi a minha. 

*A foto é da Agatha Azevedo, companheira de sertão e, agora, da vida. 

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